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    Tony Goes

    Campanha #PrimeiroAssédio escancara o machismo da cultura brasileira

    DE SÃO PAULO

    30/10/2015 12h57

    As competições culinárias estão na crista da onda, na TV e nas redes sociais. Mas ninguém imaginou que o primeiro episódio do "MasterChef Júnior" (Band), exibido no dia 20 de outubro, fosse provocar tanta polêmica.

    Tudo começou quando alguns internautas se encantaram com uma das participantes do concurso. "Se tiver consenso, é pedofilia?", perguntou um mais atrevido, protegido pelo anonimato. Detalhe: a garota em questão tem apenas 12 anos.

    Em muitos países do mundo não existe o conceito de adolescência. Assim que menstrua pela primeira vez, a menina passa automaticamente à condição de mulher adulta. Está pronta para casar, transar e procriar. Chamamos esses países de atrasados. No entanto, aqui no Brasil, nem esperamos pela puberdade: garotas com menos de 10 anos são alvos liberados para a lascívia dos marmanjos.

    O incidente com o "MasterChef Júnior" escancarou essa realidade, e gerou uma campanha admirável. A ONG feminista Think Olga incentivou as mulheres a contar a primeira vez em que foram molestadas sexualmente, sob a hashtag #PrimeiroAssedio. E o resultado foi estarrecedor. Surgiram tantos relatos que fazem crer que a prática seja disseminada país afora, em todas as regiões e em todas as classes sociais.

    Reprodução/Twitter
    ONG ThinkOlga pede a usuárias do Twitter que relatem a primeira vez que sofreram assédio (Primeiro Assedio)
    ONG ThinkOlga pede a usuárias do Twitter que relatem a primeira vez que sofreram assédio (Primeiro Assedio)

    Até famosos como a atriz Letícia Sabatella aderiram, o que é ótimo. Porque as organizadoras do movimento têm razão: quem tem que ter vergonha não são as vítimas, são os sujeitos que abusaram dessas crianças. Mas nem isso evitou a contrarreação.

    Como acontece com qualquer campanha difundida pela rede, logo apareceram os engraçadinhos. Ou que acham que estão fazendo graça, como o vocalista Roger, da banda Ultraje a Rigor. Ele vem se especializando em declarações desastradas, mas a que soltou dessa vez é digna de pena.

    "Acho que eu tinha uns 10 anos. Uma empregada me deixou pegar nos peitos dela. Foi bom pra cacete." Roger está crente que está abafando, e vários de seus seguidores retuitaram a suposta piada. Mas todos eles, ao fazer isto, só passaram atestado de imbecilidade.

    Pois eu confesso que, como homem, me surpreendi com o volume dos relatos. Muitos de nós nem desconfiamos que nossas irmãs, namoradas e amigas passaram por isto, e numa idade tão delicada. Elas têm mais é que botar a boca no trombone.

    Claro que só isto não basta. Nossa cultura incentiva a sexualização precoce: já são inúmeras as funkeiras mirins cantando letras totalmente impróprias para crianças. Ensinamos desde cedo que elas devem ser provocantes e sensuais, só para depois dizermos que a culpa é delas se sofrerem algum assédio.

    Nessa confusão toda, foi surpreendente o tuíte soltado pelo "Pânico" há alguns dias, chamando uma outra candidata do "MasterChef Júnior" de "panicat". Como que um outro programa da própria Band faz uma coisa dessas? Mas ninguém se responsabilizou. A covardia é tamanha que chegaram a dizer que o perfil da atração teria sido hackeado.

    Tem coisa mais patética do que um machista sem hombridade?

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