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    Thursday, 23-Sep-2021 20:58:01 -03

    Viagem pelo mar da Noruega revela variedade gastronômica que vai muito além do bacalhau

    PRISCILA PASTRE-ROSSI
    ENVIADA ESPECIAL À NORUEGA

    29/08/2012 04h21

    Fazia cerca de 14ºC, num dia de mar calmo e absurdamente azul. Era um baita calor para os noruegueses, familiarizados com temperaturas que chegam, em tempos de inverno, a -40ºC.

    O desafio era o seguinte: as 12 pessoas a bordo do barco Symra - marinheiros, diplomatas, chefs e jornalistas - só comeriam o que conseguissem pescar, fosse bacalhau ou outros peixes quaisquer. Se é que conseguiriam...

    O barco saiu de Henningsvaer, ao norte do país, em direção a Vestfjorden, um trajeto de cerca de 30 km.

    Logo o capitão começou a dar as orientações. Com cabelos grisalhos e pele curtida de sol, Geir Martin exibia um indefectível ar de Clint Eastwood dos mares: "Só vamos parar quando o 'fish finder' [um tipo de sonar] acusar um bom cardume abaixo de nós".

    Marius Fiskum/Folhapress
    O chef Einar Halstensen prepara peixes como cavalinha e hadoque que tinham acabado de ser pescados
    O chef Einar Halstensen prepara peixes como cavalinha e hadoque que tinham acabado de ser pescados

    Depois de uns 40 minutos, o barco parou. Cada um escolheu um lugar de onde liberaria a linha, enrolada em uma manivela, até que o anzol chegasse quase ao fundo.

    Começou a ginástica, o sobe e desce do anzol para atrair os peixes. E não demorou para que esta repórter percebesse que havia algo ali. Era tão pesado que foi preciso chamar um pescador experiente para ajudar.

    Os olhos dele brilhavam, em um misto de alegria e inveja do provável grande feito da iniciante. Máquinas a postos. Coração disparado.

    Até que, num puxão forte e definitivo, a linha subiu. Sem peixe, nem anzol. "Ficou preso, foi arrancado", disse o pescador. Por um peixe gigante? "Não. Provavelmente, por um emaranhado de algas", contou, indiferente.

    O almoço teria de esperar, até que um peixe desavisado resolvesse abocanhar a isca.

    A aventura naquele dia de sol era apenas uma parte de uma semana de viagens que percorreram a costa e o interior do país do norte da Europa. Ao longo desse período, além do bacalhau, a reportagem se deparou no mar ou à mesa com peixes como arenque e cavalinha. Conclusão?

    Essa Noruega gastronômica de pouca visibilidade para os brasileiros merece ser conhecida. Ao longo de 101 mil km, extensão da costa se contadas as ilhas, há mais de 40 espécies de peixes.

    A reportagem do "Comida" saiu para a pesca no norte da Noruega a fim de conhecer a variedade de peixes do país europeu. Esse cardápio eclético contribui para que a Noruega seja o segundo maior exportador de peixes do mundo. Perde para a China.

    Como os meses de julho e agosto são bons para a pesca na região, tudo indicava que o barco logo estaria abarrotado não apenas de bacalhau mas também de arenques, cavalinhas, hadoques.

    Mas na pesca é preciso ter sorte. Foi a chef Heloisa Bacellar, do restaurante Lá da Venda, em São Paulo, quem garantiu o almoço ao pegar 13 peixes. Esta repórter pescou duas cavalinhas, mas teve de devolver uma porque a legislação norueguesa não permite a retirada de peixes com menos de 20 cm.

    Das armadilhas no mar, vieram os caranguejos e o halibute, peixe achatado, de cabeça pequena. A próxima parada foi em uma das ilhas de Lofoten para, finalmente, fazer o almoço na grelha que já estava a postos, à beira-mar.

    O mais saboroso era o cod que, no Brasil, chega como bacalhau - depois de passar pelo processo de salga e secagem. Mas ali foi provado fresco, com sabor delicado. Outro sucesso foi o halibute, que só precisou de grelha e uma pitada de sal.

    Em outro barco, um antigo baleeiro que saiu de Tromso, também no norte, a reportagem provou o famoso salmão norueguês. Servido cru, estava tenro, fresco e saboroso.

    Entre os peixes e crustáceos dos mares da Noruega, o Brasil recebe apenas o bacalhau, o arenque e o caranguejo. Há sondagens em curso de empresas nacionais para trazer o salmão norueguês.

    Editoria de Arte/Folhapress

    Raio-x Noruega

    População 5 milhões

    IDH * 1º lugar do ranking mundial

    Economia As três indústrias mais importantes são petróleo, metais e pesca

    Extensão da Costa 100.915 km (incluindo ilhas)

    130 é o número de países para os quais a Noruega exportou peixes e frutos do mar no ano passado

    57% das exportações de peixes da Noruega se restringem a duas espécies: salmão e trutas. Os maiores mercados são França, Rússia, Polônia e Dinamarca

    1843 foi o ano em que a Noruega começou a exportar bacalhau para o Brasil

    SALMÃO E TRUTA
    A pesca é a terceira principal indústria da economia norueguesa - fica atrás somente de petróleo e metais.

    De acordo com o Conselho Norueguês de Pesca, a produção de peixes no país é dez vezes maior que a de carne e a de frango somadas.

    Salmão e truta são destaques, com 57% do total das exportações, voltadas principalmente ao mercado europeu. As exportações de peixes secos e salgados correspondem a 10%, e são destinadas especialmente a Brasil e Portugal.

    A FANTÁSTICA FÁBRICA DE BACALHAU

    Você sabe que chegou à Fjordlaks, a maior fábrica de bacalhau do mundo, que fica na cidade de Alesund, na Noruega, pelo cheiro.

    Já na porta, são entregues uma capa de plástico, uma touca, uma proteção para a sola do sapato e outra para o nariz. Nada adianta.

    O cheiro do peixe salgado, que tem no Brasil o seu maior mercado, invade roupas, cabelos, tênis e poros.

    Marius Fiskum/Folhapress
    Peixes passam pela salga em Fjordlaks, na Noruega
    Peixes passam pela salga em Fjordlaks, na Noruega

    Segundo John-Erik Mathiesen, coordenador de produção e vendas da Fjordlaks, saem dali 8.000 toneladas de bacalhau por ano - cerca de 60% desse total são vendidos para o Brasil.

    "Vocês [brasileiros] consomem muito mais bacalhau que os noruegueses. Aqui, a gente come mais o peixe fresco."

    A visita à fábrica mostrou as etapas que fazem com que o cod (Gadus morhua), conhecido como o legítimo bacalhau), o saithe, o ling e o zarbo se transformem no bacalhau, o peixe salgado e seco.

    Numa fria
    A visita começa no portão de entrada da mercadoria. Os peixes frescos chegam de barco e são separados por tipo. Seguem para uma câmara refrigeradora, onde podem ficar armazenados por até um ano.

    O grupo foi levado a um dos dois freezeres. Quando a porta de ferro foi aberta, não dava para ver quase nada. A névoa formada pela baixíssima temperatura (-30ºC) tomava conta do galpão - com capacidade para 4.000 toneladas de peixe.

    Numa fria maior ainda
    Todos entraram no imenso freezer. Permitam-me aqui descrever minha breve, mas assustadora, experiência. Foto daqui e dali, só percebi que o grupo havia saído quando ouvi a porta fechando.

    Faltava uns 20 cm para cerrar completamente quando gritei, do fundo do galpão: "Estou aqui!" para Mathiesen, que guiava a visita e era a única pessoa que eu ainda conseguia ver pela fresta.

    Marius Fiskum/Folhapress
    Bacalhau é colocado em caixas para envio ao Brasil
    Bacalhau é colocado em caixas para envio ao Brasil

    Por instantes, temi ser esquecida ali, em um frio insuportável de -30ºC.

    Mesmo com o barulhão da fábrica, ele ouviu o chamado, para o meu alívio. A porta fechou, mas Mathiesen acionou o botão para reabri-la. Pude sair, enfim, sob os aplausos do grupo.

    Na salga - 1
    Quando saem do freezer, os peixes ficam de molho em um tanque, com água a 0ºC, para descongelar. Cerca de 15 horas depois, estão prontos para passar pelo primeiro processo de salga.

    São dispostos em camadas que receberão, literalmente, uma chuva de sal. Sal que se espalha pelo chão de toda a fábrica. Os peixes voltam a ser estocados.

    Na salga - 2
    Após três semanas, seguem para um tanque, onde são lavados para receber novo jato de sal. O processo de salga é feito duas vezes para tentar retirar o máximo possível de umidade dos peixes.

    Ficarão armazenados por outras três semanas, em uma sala climatizada, antes de passarem pelo controle de qualidade - os que não estiverem salgados o suficiente serão descartados ou passarão pela salga novamente.

    Rumo ao Brasil
    As caixas que estavam embalando os lotes de bacalhau no dia da visita à fábrica tinham destino certo: Brasil.

    Nelas estava escrito, em português: "bacalhau da Noruega". São as caixas que podem ser vistas no Mercado Municipal paulistano.

    Ali, conhecido como o metro quadrado que mais vende bacalhau no mundo, a peça do Gadus morhua - que costuma ter entre 5kg e 8kg - sai por cerca de R$ 60, o quilo.

    CARANGUEJO REAL É SERVIDO ATÉ COMO SORVETE
    Começou neste mês e vai até janeiro a temporada de king crab na Noruega. No Brasil, ele chega com o nome de caranguejo vermelho real.

    Saboroso, com pouca gordura e rico em proteínas, é tão popular no país europeu que existem endereços especializados no seu preparo.

    A Folha foi ao restaurante C & C, em Alesund, e provou seis pratos com o caranguejo. A versatilidade impressiona. Primeiro, foram servidas as patinhas. Depois, gratinado, defumado, em bolinho, recheado e até gelado. Para este último, foi feito um molho bisque com o king crab, levado para gelar e servido na própria casquinha.

    Confira uma receita de tortilha de beterraba com arenque.

    A jornalista PRISCILA PASTRE-ROSSI viajou a convite do Conselho Norueguês da Pesca

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