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    Casal muda rotina para ajudar animais vítimas de maus-tratos

    ROBERTO DE OLIVEIRA
    DE SÃO PAULO

    11/05/2013 04h00

    Juntos há 33 anos, Silvia, 51, e Marcos Pompeu, 47, nunca tiveram filhos, mas metade da vida deles vem sendo dedicada a formar uma grande, e variada, família.

    Os dois dividem, literalmente, a casa e um terreno de 35.000 m² com cerca de 300 bichos de 20 espécies.

    Todos os animais ali escondem trágicas histórias de sobrevivência. Para o lar dos Pompeus, o Rancho dos Gnomos, em Cotia (Grande SP), só vão vítimas de maus-tratos. Esse é o legado deixado por circos, rodeios, tráfico e outros tipos de crueldade.

    Chiquinha é uma das veteranas. A macaca-prego foi violentada com diferentes tipos de ferramenta onde vivia, na periferia paulistana.

    Diagnóstico: prolapso uterino e vaginal. Foi submetida a uma operação para a retirada do útero. Durante oito anos, só Silvia chegava perto da bicha. "Ela não suportava nem vozes masculinas. Gritava e batia a cabeça no chão."

    A macaca vivia no colo. Tomava leite, água e suco na mamadeira. Fez tratamento com florais e musicoterapia. Aos poucos, voltou a tolerar a presença de homens.

    De Embu-Guaçu chegou Gadu. Essa viu a mãe macaca ser eletrocutada na fiação elétrica. Agarrou-se ao corpo da mãe morta e só se desgrudou à força. Dormiu durante 15 dias no pescoço de Marcos.

    O casal viajou mil quilômetros para encontrar Darshan, abandonado num frigorífico sujo e desativado nos cafundós do Espírito Santo. Para alimentar a alcateia, donos de um circo trocaram o então filhote de leão por um punhado de "tragédia" (leia-se "carne", palavra que não faz parte do vocabulário do rancho).

    Durante dez anos, Darshan dividiu uma área de 20 m² com moscas, baratas e outros "bichos escrotos". Teve desnutrição e uma doença crônica na coluna. Foi submetido a sessões de acupuntura, recebeu 40 pontos de ouro para aliviar as dores. Hoje, vive, mas com muitas sequelas.

    A menos de dez metros dali, Serena, uma onça-pintada anda escaldadíssima. Cheiro de gente basta para ela escancarar os dentes -os caninos, superiores e inferiores, foram serrados. Ela carrega tumores no abdômen, mas veterinários desaconselham uma cirurgia. De idade avançada, a onça-pintada não resistiria.

    O rancho recebe animais de diferentes órgãos públicos. Pedidos de socorro vêm de todo o Brasil e de vizinhos.

    Lá, os bichos são castrados. A maioria passa por acompanhamento médico.

    "Esse é um espaço para que tenham um pouco de dignidade até se libertarem", diz Marcos. (Como a "carne" é "tragédia", no glossário dos Gnomos "morrer" é "ficar livre", cova é "berçário", "cocô" vira "produto").

    TALISMÃ, A ORIGEM

    Os animais começaram a cruzar o caminho dos Pompeus em 1992. Recém-casados, o ex-funcionário público e a ex-decoradora faziam planos de viver nos EUA. Com passagem comprada, resolveram dar um tempo no sítio do pai de Silvia. Até então, nem cachorro eles tinham.

    Marcos acompanhava um amigo e se deparou com um bichinho à venda numa feira. Quando chegou em casa com a criatura nos braços, Silvia ficou desesperada.

    Fazer o quê? "Pus abaixo a coleção empoeirada da 'Globo Rural' do meu pai e li tudo sobre criação de cabras", lembra. O embrião do projeto já tinha nome: Talismã.

    O que ninguém imaginava é que a bicha veio com um "presentinho". O nascimento de Lua abortou a ideia do casal de ir para Nova Jersey, onde, à época, viviam os pais e o irmão caçula de Silvia. O casal vendeu o carro e com a grana construiu um cabril.

    Hoje, vinte e um anos depois, a manutenção do rancho custa R$ 80 mil mensais. Ajuda vem de escassos parceiros. Cerca de 1.400 associados contribuem mensalmente com valores a partir de R$ 15. Mesmo assim, a conta não sai do vermelho.

    O casal "tampa aqui para destampar ali". Num mês, acertam o fiado com a casa de ração. No outro, adaptam recintos para abrigar novos moradores, como Eni Xendra, filhote de onça-parda encontrado com fratura na tíbia, num canavial no interior.

    A rotatividade ali é alta. Alguns cães e gatos vão para adoção na ONG Natureza em Forma. O que é impensável com silvestres e exóticos.
    Segundo a Secretaria do Meio Ambiente, eles não "terão mais oportunidade de retornar ao ambiente natural devido à inaptidão física".

    Só que o rancho tornou-se pequeno para tanto abandono. O casal procura patrocínio para que toda a família seja transferida para uma área maior na serra da Mantiqueira até o final do ano.

    No novo recinto, algumas espécies de humanos serão bem-vindas. Ecovoluntários e crianças dispostas a aprender educação ambiental, por exemplo. Nessa toada, a prole dos Pompeus promete se diversificar cada vez mais.

    Para saber mais, o site do Rancho dos Gnomos é ranchodosgnomos.org.br

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