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    Maior templo Hare Krishna da América Latina é refúgio para quem quer sossego em SP

    ROBERTO DE OLIVEIRA
    ENVIADO ESPECIAL PARA PINDAMONHANGABA

    25/08/2013 03h00

    Diferentes caminhos levam a Krishna. Pode ser uma berinjela à milanesa com queijo derretido, uma revoada de maritacas ou a tranquilidade de um quarto sem TV, frigobar ou telefone, mas com o barulho do rio ao lado.

    Seja qual for a escolha, em algum momento, por mais agnóstico que seja, você vai entoar ao menos uma vez: "Hare Krishna, hare Krishna/ Krishna, Krishna/ Hare, hare/ Hare Rama, hare Rama/ Rama, Rama/ Hare, hare".

    Não se trata de "Mantra", hit de Nando Reis, no quarto ao lado. Em qualquer canto da fazenda Nova Gokula, as 16 palavras que compõem a manifestação popular da fé krishna são repetidas à exaustão.

    "Cante e seja feliz", prega o panfleto entregue a visitantes. Devotos chegam a entoar os versos, seguindo as contas de um rosário de orações chamado japamala ("japa" é repetição; "mala", cordão ou colar) 1.728 vezes ao dia.

    Maior comunidade Hare Krishna da América Latina, Nova Gokula fica na zona rural de Pindamonhangaba (SP), numa área de proteção ambiental que atrai gente de todas as tribos e crenças.
    Na fazenda, há casas de devotos, restaurante, lanchonetes, pousadas, lojas e dois templos, onde as cerimônias são abertas a não devotos -a primeira do dia é às 4h30.

    Boa parte dos visitantes passa pelos templos e vai direto saciar a fome. Dispersos em mesas comunitárias do restaurante, cardápios sacramentam a filosofia do lugar: um "ambiente calmo e tranquilo, portanto relaxe, aguarde para ser atendido"...

    Há pizzas e açaí, mas o forte são os pratos lactovegetarianos (com vegetais e leite) "ahimsa" ou "karma-free" (produto que, pelas crenças orientais, ao não causar sofrimento animal não somaria mais um carma ao seu).

    O "alimento espiritualizado, cooperando para o equilíbrio do planeta, da mãe Terra e de todas as entidades vivas", diz o cardápio, vem com entrada, prato principal, sobremesa e suco. Preço: R$ 25.

    Hare desde os 17 anos, a chef Yugala Kishora Dasi ("Serva do Casal Belo Sempre Jovem"; os iniciados usam nome espiritual), 44, conta que atende muitos interessados na culinária vegetariana, inclusive estrangeiros. "A maioria é de não devotos", emenda a atendente Maharani ("Grande Rainha") Azevedo, 18, nascida e criada sob os preceitos de Krishna.

    Afirmação confirmada pela engenheira Larissa Macedo, 26, que não nutre simpatia por religião alguma. "Passo por uma transição, mas não estou correndo atrás."

    O equatoriano Patricio Vergara, 42, num grupo com outros quatro estrangeiros, fez sua primeira incursão pelo país. Eles tinham a missão de desvendar os caminhos da fé pelo Vale do Paraíba.

    Primeiro, buscaram a bênção da padroeira do Brasil, Nossa Senhora, em Aparecida. Depois, esticaram até Krishna. "Ainda não fui à Índia, mas adoro a cultura indiana", diz a artista plástica Cecilia Estrella, 51, de Quito.

    "Acredito em reencarnação. Nasci católica, porém creio na espiritualidade", disse ela, enquanto saboreava uma lassi (bebida típica da Índia feita à base de iogurte), com água de rosas, por R$ 7.

    A professora Sandra Regina Bouças, 33, e o marido, o bancário Adriano, 32, também almoçaram ali, mas dispensaram a bebida. O casal é vegano: não consome nenhum produto de origem animal. Levaram a filha, Sofia, de seis meses, para a cerimônia de fogo, no templo aberto, com vista para a serra.

    O ritual marca o momento em que a criança começa a comer grãos. Conduzido por um sacerdote, seu propósito é "purificar o carma, acender o fogo da digestão e criar boas impressões", com oferendas vegetarianas aos convidados.

    Pode ser feita num batizado ou para celebrar uma união. Nem precisa ter cabeça raspada, rabo de cavalo curto e fino ou trajar roupas indianas. Sai por R$ 300.

    TEMPLOS ABERTOS

    Fundada em 1978, a fazenda Nova Gokula surgiu para agregar famílias de devotos, estudantes e monges da religião de origem indiana. Nos anos 1980, reuniu cerca de 200 famílias, que contavam ali com três escolas públicas.

    Era o auge dos hare krishnas no Brasil, movimento que completa 40 anos no país.

    Hoje, a fazenda abriga cerca de 70 moradores, parte deles da terceira geração, filhos daqueles jovens que um dia andaram com roupa açafrão pela avenida Paulista. "Agora, são poucos devotos nos templos e muitos em casas", diz Vijaya Marga Dasa, 58, presidente da Nova Gokula.

    O Hare Krishna só apareceu como religião em registros do IBGE em 2000, com 1.679 devotos. Dez anos depois, eles eram 2.334.

    O movimento deu uma freada naquela velha estratégia de vender livros e incensos em faróis, "banalizada por outras crenças", conta Dasa. Com o tempo, os hare krishnas também se distanciaram do fanatismo, de olhos em novos devotos, nem que sejam os de fim de semana, atrás de uma trilha na serra ou de um banho de rio.

    Construídos há três décadas, os dois templos passam por merecidas reformas. Uma nova pousada deve ser inaugurada em novembro, e o prédio que antes abrigou uma escola deve virar um hostel.

    "Não perdemos o foco", diz. "Estamos ampliando para atender mesmo os que não têm vocação para o monastério", uma forma de garantir a sustentabilidade e dar continuidade ao movimento.

    Ele sabe que, no fundo, a essência que exala de Nova Gokula é a natureza, tanto material quanto espiritual.

    "Viemos aqui na fazenda beber da Serra da Mantiqueira", conta a nutricionista Onilda Macedo, 43, que, bem traduzindo o espírito sincrético da cultura brasileira, se define católica de formação e xamânica de coração.

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