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    As escolhas racionais dos viciados em crack

    JOHN TIERNEY
    DO "NEW YORK TIMES"

    04/02/2014 15h51

    Muito antes que ele começasse a levar pessoas ao seu laboratório na Universidade Colúmbia para estudar como elas usam crack, Carl Hart conhecia os efeitos da droga em primeira mão. Ele cresceu pobre, e viu parentes se viciarem em crack, vivendo na miséria e roubando dinheiro de suas mães. Amigos de infância de Hart terminaram na prisão ou no necrotério.

    Os viciados pareciam estar escravizados pelo crack, como os ratos de laboratório que não conseguiam deixar de acionar a alavanca que lhes fornecia cocaína ainda que estivessem a ponto de morrer de fome. A cocaína oferecia tamanho estímulo de dopamina ao centro de recompensas do cérebro que os viciados não conseguiam resistir a uma nova dose.

    Ao menos era essa a impressão que o Dr. Hart tinha quando começou sua carreira como pesquisador, nos anos 90. Como outros cientistas, a esperança dele era a de encontrar uma cura neurológica para o vício, algum mecanismo que bloqueasse a atividade da dopamina no cérebro para que as pessoas não sucumbissem à vontade irresistível de cocaína, heroína e outras drogas poderosamente viciantes.

    Mas em seguida, quando ele começou a estudar os viciados, ele descobriu que as drogas não eram assim tão irresistíveis, afinal.

    "De 80% a 90% das pessoas que usam crack e metanfetamina não se viciam", explica o Dr. Hart, professor associado de psicologia. "E o pequeno número de pessoas que se viciam não se assemelham em nada à caricatura popular que se faz dos viciados".

    O Dr. Hart recrutou viciados para o seu trabalho de pesquisa por meio de anúncios no jornal "Village Voice", oferecendo pagamento de US$ 950 e mais a oportunidade de fumar crack produzido com cocaína farmacêutica (ou seja, de alta pureza). A maioria dos inscritos, como os viciados que ele conheceu em sua infância e adolescência em Miami, eram homens, negros e moradores de bairros de baixa renda. Para participar, eles tinham de aceitar viver em uma enfermaria de hospital por diversas semanas, durante o experimento.

    No começo de cada dia, com os pesquisadores assistindo por um espelho de observação, uma enfermeira colocava certa quantidade de crack em um cachimbo - a dose variava diariamente - e o acendia. Ao fumar, o participante estava vendado, o que o impedia de saber qual era o tamanho da dose do dia.

    Em seguida, depois daquela amostra de crack para começar o dia, cada participante tinha novas oportunidades de fumar a mesma dose de crack, ao longo do dia. Mas a cada vez que a droga lhe era oferecida, o participante também tinha a escolha de trocá-la por outra recompensa, que receberia ao sair do hospital. A recompensa consistia ou de US$ 5 em dinheiro ou de um vale-compra de US$ 5 em uma loja.

    Quando a dose de crack era muito alta, o viciado tipicamente escolhia continuar fumando crack o dia todo. Mas quando a dose era menor, a probabilidade de que rejeitasse o crack em troca dos US$ 5 em dinheiro ou vale-compras era maior.

    "Isso não se enquadrava à caricatura do viciado em drogas incapaz de parar de consumi-las depois de uma primeira dose", disse o Dr. Hart. "Quando lhes era oferecida uma alternativa ao crack, eles tomavam decisões econômicas racionais".

    Quando a metanfetamina substituiu o crack como maior flagelo entre as drogas consumidas nos Estados Unidos, o Dr. Hart levou viciados em metanfetamina ao seu laboratório para experiência semelhante - e os resultados mostravam decisões igualmente racionais. Ele também constatou que, ao elevar a recompensa a US$ 20, todos os viciados, em crack e metanfetamina igualmente, optavam pelo dinheiro. Eles sabiam que só o receberiam semanas mais tarde, quando o experimento estivesse encerrado, mas ainda assim optaram por abrir mão da recompensa imediata da droga.

    As constatações levaram o Dr. Hart a repensar aquilo que havia visto quando jovem, o que ele relata em seu novo livro, "High Price", uma fascinante combinação de memória e ciência social, com cenas devastadoras de privações e violência acompanhadas por calma análise dos dados históricos e dos resultados de laboratório. Ele conta histórias horripilantes - sua mãe foi atacada com um martelo, alguém jogou uma panela cheia de calda fervente sobre seu pai -, mas em seguida busca descobrir a tendência estatisticamente relevante.

    Sim, ele afirma, algumas crianças foram abandonadas por seus pais viciados em crack, mas muitas famílias em seu bairro já estavam fragmentadas antes do crack - incluindo a de Hart. (Ele foi criado primordialmente por sua avó.) Sim, seus primos se tornaram viciados em crack, sofrendo privações e vivendo em um barraco, mas já haviam largado a escola e viviam desempregados muito antes que o crack surgisse.

    "Parecia haver no mínimo tantos casos, se não mais, em que as drogas ilícitas desempenharam papel pequeno ou nenhum quanto situações nas quais seus efeitos farmacológicos pareciam ter sido importantes", escreve o Dr. Hart, 46. O crack e a metanfetamina podem ser especialmente problemáticos em alguns bairros pobres e áreas rurais, mas isso não acontece porque os dois são drogas muito potentes.

    "Se você vive em um bairro pobre e não têm muitas opções, existe certa racionalidade em continuar usando uma droga que propicia prazer temporário", disse o Dr. Hart em entrevista, argumentando que a caricatura do viciado escravo do crack surgiu de uma interpretação incorreta das famosas experiências com ratos de laboratório.

    "O fator chave é o ambiente, quer estejamos falando de seres humanos ou de ratos de laboratório", disse o Dr. Hart. "Os ratos que não param de acionar a alavanca da cocaína são aqueles que sofrem estresse por terem sido criados em condições solitárias, e que não têm quaisquer outras escolhas. Mas quando você enriquece seu ambiente e lhes dá acesso a doces, e permite que brinquem com outros ratos, eles param de acionar a alavanca".

    Os inimigos das drogas podem se sentir céticos quanto ao trabalho de Hart, mas alguns outros cientistas estão impressionados. "O argumento geral de Carl é muito persuasivo e baseado em dados sólidos", diz Craig Rush, psicólogo da Universidade do Kentucky que pesquisa sobre abuso de estimulantes. "Ele não está dizendo que o abuso de drogas não causa mal, mas está demonstrando que as drogas não transformam as pessoas em lunáticos. Elas podem deixar de usar drogas se lhes foram oferecidos reforços alternativos".

    Avaliação semelhante é oferecida pelo Dr. David Nutt, especialista britânico em abuso de drogas. "Tenho muita simpatia pela posição de Carl", diz o Dr. Nutt, professor de neuropsicofarmacologia no Imperial College de Londres. "O vício sempre teve um elemento social, e isso é amplificado nas sociedades em que não existe muito trabalho disponível, ou outras formas de encontrar realização".

    Assim, por que continuamos a nos concentrar com tamanha atenção em determinadas drogas? Um motivo é a conveniência: é muito mais simples para políticos e jornalistas tomar por foco os males da droga do que encarar os problemas sociais subjacentes. Mas o Dr. Hart também atribui parte da culpa aos cientistas.

    "De 80% a 90% das pessoas não são afetadas negativamente pelas drogas, mas na literatura científica quase 100% dos relatórios são negativos", disse o Dr. Hart. "Há um foco distorcido em favor da patologia. Nós cientistas sabemos que recebemos mais dinheiro se continuarmos dizendo ao Congresso que estamos resolvendo esse terrível problema. Desempenhamos um papel menos que honroso na guerra contra as drogas".

    Tradução de PAULO MIGLIACCI

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