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    Antigo cemitério de escravos no Rio recebe visita de rei da Nigéria

    LUIZA FRANCO
    DO RIO

    20/11/2014 02h00

    Nesta quinta-feira (20), dia da Consciência Negra, o rei da Nigéria, Oba Al-Maroof Adekunle Magbagbeola, fará uma visita ao Memorial dos Pretos Novos, no bairro da Gamboa, na zona portuária do Rio.

    Em 1996, antes de o local se tornar um centro cultural, uma reforma na casa onde hoje funciona o memorial revelou um cemitério de escravos, o Cemitério dos Pretos Novos, ativo de 1772 a 1830.

    A diretora do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e dona da casa, Merced Guimarães, 58, conta como foi a descoberta.

    "Eu estava almoçando quando o pedreiro entrou na casa e disse: 'As pessoas que moravam aqui devem ter enterrado vários cachorros no quintal'. Fui mexer no entulho e achei uma arcada dentária inferior humana."

    Sob a casa de Merced foram descobertos mais de 5.000 fragmentos que permitiram identificar 28 corpos, a maioria de homens com idades entre 18 e 25 anos.

    Ricardo Borges/Folhapress
    Merced Guimarães, 58, em frente a grafite do institutode Pesquisa e Memória Pretos Novos, no rio
    Merced Guimarães, 58, em frente a grafite do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, no Rio

    Eram escravos que não resistiam à viagem de navio e morriam pouco depois de desembarcar no Brasil, antes de serem vendidos.

    Autor de um livro sobre o tema e também diretor do instituto, Julio César Medeiros estima que escravos nessa situação representassem 5% dos que aportavam no Rio.

    O viajante alemão G. W. Freireyss descreveu o local: "No meio deste espaço [de 50 braças] havia um monte de terra da qual, aqui e acolá, saíam restos de cadáveres descobertos pela chuva".

    Medeiros explica: "Não havia nenhum tipo de organização espacial a não ser o arranjo que possibilitasse o empilhamento do maior número possível de corpos, que eram jogados em cova rasa".

    Segundo o historiador, os corpos eram queimados, e as ossadas que sobravam eram quebradas para dar espaço a mais cadáveres. No espaço, com 100 m², foram sepultados cerca de 6.000 corpos, segundo registros oficiais.

    "Talvez o fato mais estarrecedor seja que o cemitério fosse usado para descarte de lixo urbano na mesma época em que funcionava como cemitério. Aquelas pessoas tinham o mesmo destino que os utensílios que não serviam mais", comenta Medeiros.

    "No início, achei que [a arcada dentária] poderia ter sido de um ente querido do morador. Talvez a família não tivesse dinheiro para pagar um enterro", conta Merced.

    "Depois, quando foram aparecendo mais ossos, pensei que fosse cenário de chacina. Tive medo que as pessoas achassem que eu matei gente em casa! Recolhi quatro ou cinco caixas [de ossos]."

    Merced conta que foi hostilizada pelos vizinhos quando decidiu chamar a prefeitura para averiguar os ossos. Eles acreditavam que a descoberta desvalorizaria os imóveis da região.

    "Você acha que vai conseguir vender com facilidade uma casa que fica em cima de um cemitério?", diziam os moradores, segundo ela.

    Hoje, a casa abriga o museu onde são exibidos fragmentos dos ossos encontrados, além de objetos dos mortos e das classes dominantes, como pedaços de louça portuguesa.

    No Cais do Valongo, a cerca de 700 metros do memorial, desembarcavam centenas de milhares de africanos. Eles eram vendidos na região e trabalhavam na Pedra do Sal, hoje reduto do samba no centro histórico do Rio, onde o produto era descarregado.

    A arqueóloga responsável pela descoberta do Cais do Valongo, Tania Andrade Lima, afirma que a arqueologia é importante para relembrar o que as pessoas quiseram esquecer. "Não adianta cobrir, tampar, pois as coisas mais cedo ou mais tarde aparecem", afirma.

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