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    Modelos negras e 'plus size' criam Fashion Week 'invertida' em SP

    ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER
    DE SÃO PAULO

    11/08/2015 17h00

    Luciane Barros, 33, por um triz não perdeu o trem no Rio. "Quase não pude embarcar por não conseguir passar na catraca junto com uma mochila. Por pouco não tive que pagar uma passagem para ela."

    Ser barrada poderia ser uma constante na vida desta paulistana, que se vê como alvo de preconceito ao quadrado: "Sou gorda e negra".

    Para Luciane, contudo, ser gorda e negra não exclui outro adjetivo: ser linda. E se o mundo da moda não lhe abre as portas, ela mesma decidiu "chegar chegando": fundou em 2013, com colegas de biotipo parecido, o Africa Plus Size Fashion Week Brasil.

    Além de promover desfiles, essa marca também funciona como uma agência de modelos, com 15 mulheres negras "plus size" (tamanho grande).

    A ideia é prestar atenção na São Paulo Fashion Week –e fazer tudo ao contrário. Ao menos no que diz respeito às medidas e às cores de pele que predominam no principal evento de moda do país: modelos brancas, altas e magras.

    Idealizadora do projeto e modelo, Luciane acha que as grifes falham em perceber que nem todas as mulheres são Gisele Bündchen, e tudo bem não serem. Difícil lidar com isso, diz ela. Ainda mais num mercado convencido de que, depois do manequim 42 (o de Fátima Bernardes), tudo é GG.

    Luciane tem 118 kg e 1,77 m. Sua cintura mede 99 cm, mais do que os 89 cm do quadril de Gisele. O manequim 52/54 já lhe fez passar aperto na vida.

    Mais do que uma semana de moda, a Africa Plus Size Fashion Week Brasil é uma "plataforma de moda criativa envolvendo estilistas, modelos e empreendedores". A meta: "Promover produtos e serviços que geralmente são escassos nas lojas", diz Luciane.

    E, se as marcas pensam nos corpos GG, oferecem "um número reduzido de looks". Ou seja, altas chance de o lojista sugerir batas largas e outras peças que a indústria tachou como "moda de gordo".

    Jéssica Ipólito, 23, veio de Marte. Ou assim imagina quem a vê nas ruas, aposta. "As pessoas me olham como se fosse um ET. O mundo da moda hegemônico é racista e gordofóbico. O corpo belo que impõem não é gordo, grande e negro", diz ela, que é ativista LGBT e no Facebook apoia grupos como Preta&Gorda e Marcha do Orgulho Crespo.

    Hoje com "black power" roxo, em junho Jéssica ostentava trancinhas afro em verde-rosa. Na internet, publicou uma foto sua de saia jeans colada e curta, biquíni vermelho e havaiana verde.
    A legenda dizia: "A cara no sol é para todas! Aceita, mores". A expressão "fat fabulous" (gorda fabulosa) servia de ponto final.

    Anderson Baumgartner, sócio-diretor da Way Model, agência das tops Alessandra Ambrósio e Carol Trentini, diz que esperar uma modelo grandona na passarela seria como "ver uma menina de 1,20 m jogando basquete". Já o preconceito com a negritude seria "mito". "Está mais do que provado que há negra do mundo todo fazendo sucesso."

    Na Way Model, o sócio-diretor calcula ter 12 negras entre 200 modelos.

    No próximo dia 22, o Africa Plus Size será representado por sete garotas na "Mostra de Criadoras em Moda: Mulheres Afro-Latinas", no Sesc Interlagos, na zona sul de São Paulo. Para Jéssica, quanto mais, melhor. "Se ficar sozinha, mano, não dá. De todos os lados tem uma metralhadora de ataques."

    Também do Africa Plus Size, Josiane Lira, 33 já ouviu um "você não se encaixa em nosso padrão estético" ao ser descartada para uma vaga de recepcionista. Hoje ela samba com seus 120 kg na cara da sociedade –em 2012, estreou como primeira passista "plus size" no Carnaval carioca.

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