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    Obra em cartão-postal de Porto Alegre opõe empresa e artistas

    PAULA SPERB
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PORTO ALEGRE

    09/10/2015 02h00

    Abandonados há mais de dez anos, 11 armazéns das décadas de 1920 e 1930 situados no cais Mauá, cartão-postal na região central de Porto Alegre, estão no meio de uma disputa entre o consórcio que vai restaurá-los e um movimento liderado por artistas e intelectuais gaúchos.

    O problema é que, como contrapartida, o Consórcio Cais Mauá planeja erguer três torres de cem metros de altura e um shopping ao lado da Usina do Gasômetro. A área, em frente ao rio Guaíba, reúne moradores e turistas para o pôr do sol e lazer.

    O movimento, que conta com nomes como o do cineasta Jorge Furtado (diretor de "Ilha das Flores"), questiona a obra, projetada pelo ex-governador do Paraná Jaime Lerner. O temor é perder parte da vista e ter o acesso dificultado à orla –serão revitalizados 3,3 quilômetros.

    Hoje, para entrar no cais é preciso autorização do consórcio –a área está fechada para o público por "questão de segurança".

    Parte dos armazéns será utilizada para atividades culturais, como a Feira do Livro. Os demais serão ocupados por lojas e restaurantes, mas a circulação será livre. Também serão abertas dez praças entre os armazéns.

    Para o movimento Cais Mauá para Todos, com o projeto de Lerner, inspirado no Puerto Madero, em Buenos Aires, as torres descaracterizarão a paisagem e as pessoas serão obrigadas a entrar no shopping para chegar à orla do Guaíba, já que um muro separa o cais da cidade.

    O muro foi construído na década de 70 para evitar enchentes. O shopping diz que, além da entrada principal, serão abertas ao menos sete passagens ao longo do muro.

    Infográfico: Críticas ao projeto de revitalização

    A presidente do consórcio, Júlia Costa, diz que as torres não irão "alterar o 'skyline' da cidade, pois os prédios dessa região são ainda mais altos". Afirma ainda que elas não atrapalharão a vista, já que os prédios da avenida Mauá são garagens.

    O movimento Cais Mauá para Todos também argumenta que o investimento nos armazéns é desproporcional ao da área a ser explorada comercialmente.

    "Para fazer o restauro dos armazéns, que interessam à sociedade, estão previstos
    R$ 43 milhões. O total da obra, com as torres e o shopping, é R$ 500 milhões", diz Tiago Holzmann, presidente do IAB-RS (Instituto de Arquitetos do Brasil).

    OBRA ATRASADA

    O consórcio venceu em 2010, na gestão da ex-governadora Yeda Crusius (PSDB), licitação para a exploração da área por 25 anos. A obra não tem licença prévia para o início nem licença de instalação, que são concedidas pela Secretaria de Meio Ambiente após aprovação do estudo de impacto ambiental.

    A empresa ainda não entregou uma nova versão, com os esclarecimentos solicitados em audiência pública em setembro, segundo a pasta.

    O consórcio afirma que as obras devem começar em 2016 e a primeira etapa, dos armazéns, será concluída em dois anos. O prazo total estimado é de seis anos.

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