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    Por 'falta de clima', bíblia da 'high society' fica sem nova edição

    EMILIO SANT'ANNA
    ENVIADO ESPECIAL AO RIO

    25/10/2015 02h00

    Ricardo Borges/Folhapress
    A socialite Lourdes Catão, em sua casa no Flamengo, no Rio
    A socialite Lourdes Catão, em sua casa no Flamengo, no Rio

    Alguma coisa vai mal na sociedade brasileira. Tão mal que ela parou em 2012 –e por lá deve permanecer. Desemprego, inflação e a instabilidade política que Brasília irradia produziram resultado insólito: a bíblia da "high society" nacional não vai sair do prelo por "falta de clima".

    O resultado, diz quem dela faz uso, é que se hoje alguém quiser saber quem é quem entre os que –digamos assim– "importam" terá que recorrer à edição de 2012 de "Sociedade Brasileira", a última a ser publicada.

    Guardiã de uma tradição iniciada há mais de meio século por Maria Luiza Sertório e Maria Helena Nobre, a decoradora e socialite Lourdes Catão –idade revelada apenas aos amigos mais próximos–herdou a tarefa de publicar o livro de sua irmã Helena Gondim, falecida em 2008.

    Bianual, o livro (365 págs. R$ 150) é um catálogo com os nomes, endereços, telefones e, muitas vezes, e-mails do "crème de la crème" da sociedade carioca. Sim, porque apesar do título, nove em cada dez bem-nascidos incluídos nele são mesmo do Rio.

    A nova edição, que deveria ter ficado pronta em 2014, foi adiada para este ano devido à Copa do Mundo. A avaliação era que o Mundial ofuscaria a atenção à obra que costuma ser lançada nos salões do Copacabana Palace.

    Não só a atenção seria prejudicada, a publicidade também. O livro tem 33 anunciantes que bancam os cerca de R$ 80 mil da impressão dos 2.000 exemplares.

    Em 2015, no entanto, Lourdes jogou a toalha. "Este ano é um ano muito conturbado. Financeiramente, politicamente e socialmente",diz.

    Carmen Mayrink Veiga, 86, a mulher que já foi considerada uma das mais bem-vestidas do mundo pela "Vanity Fair" lamenta. "Quem quiser dar uma festa vai ter que procurar os nomes e endereços na lista telefônica?", afirma ela –há dois meses sem sair de casa se recuperando de problemas de saúde.

    "Quando meus filhos casaram usei o livro para encontrar os convidados", corrobora a amiga Maria Alice Araújo Pinho, idade não revelada.

    Em seu dúplex, no tradicionalíssimo Biarritz, edifício art decó na Praia do Flamengo, onde recebeu a Folha, Lourdes é categórica: "Não tem ambiente para, na situação em que estamos, fazer um livro sobre sociedade", diz com a postura ereta. "De certa forma, é um livro muito elitista."

    Se a afirmação ainda espanta alguém em tempos tão bicudos, a elegante bisavó deixa claro que ser parte do "jet set" não significa dar de ombros à realidade de outras esferas da "society".

    Eleitora de Aécio Neves (PSDB) em 2014, por quem ela diz não se entusiasmar e em quem não vê eficiência na oposição, Lourdes lamenta a deterioração econômica e política do país, assim como o governo Dilma –"uma tragédia". "Infelizmente nossa presidente não está preparada."

    Apesar de ter endereço na cidade e ser presença constante, Aécio não está lista.

    Neta de Otto Prazeres, jornalista e secretário da Presidência da República entre 1935 e 1936, a "dona da chave" da sociedade cresceu em meio à política, conheceu Getúlio Vargas pessoalmente, mas prefere não incluir políticos em atividade no livro.

    "Infelizmente não acredito nos políticos brasileiros", diz ela, que durante mais de 20 anos morou e trabalhou nos Estados Unidos.

    PENEIRA

    Nem só políticos, no entanto, ficam de fora. Poucos têm presença garantida em "Sociedade Brasileira". Entre eles, os imortais da Academia Brasileira de Letras e os cônsules que servem no Rio.

    Há também, claro, os que pedem para não ser incluídos no livro, por discrição.

    "O curioso é que [o livro] cria um tipo de mapeamento de uma elite simbólica. E que uma certa elite financeira, imagino, não queira participar", diz Gabriel Mascaro, 32.

    Ele é diretor de "Um Lugar ao Sol", documentário que parte de uma lista de pessoas da elite para mostrar como vivem moradores de coberturas no Rio, Recife e São Paulo e construir uma crítica social.

    Recusas, no entanto, não são a tônica, diz Lourdes. "Para fazer parte, em primeiro lugar, tem que ser indicado por alguém que já esteja no livro", explica ela.

    Ou seja, é preciso que, por exemplo, um Orleans e Bragança, Mayrink Veiga, Guinle, Fraga ou Nabuco, entre outros sobrenomes tradicionais, avalie que o seu deve estar grafado ao lado do deles.

    Mesmo o homem que já esteve entre os dez mais ricos do mundo nunca entrou na lista. Apesar da fortuna avaliada em cerca de R$ 30 bilhões no início da década, o empresário Eike Batista nunca foi nome cogitado por Lourdes. Ela diz ter seus motivos. E para por aí.

    Não há custo para entrar e ninguém está autorizado a cobrar "pedágio" para indicar quem quer que seja. Tamanha precaução, porém, não impediu que ela tivesse uma surpresa para lá de desagradável há alguns anos.

    Dizendo falar em nome de Lourdes, uma "figura muito conhecida" no Rio teria cobrado R$ 25 mil para indicar o nome de um estrangeiro recém chegado no Brasil.

    O que o intermediário desautorizado não contava era que o neófito bem-educado telefonaria para ela agradecendo a deferência. "Fiquei chocada. Não incluí e ainda tirei o nome do outro", diz.

    'O RIO ERA UMA FESTA'

    Trabalho. Editar a Sociedade Brasileira significa muito trabalho, diz a socialite. Fossem ainda outras épocas, talvez valesse mais a pena.

    A cidade que Lourdes, Carmen, Maria Alice e tantas outras conheceram já não é a mesma. "As festas eram de segunda a segunda. O Rio era uma festa. Todos os embaixadores queriam vir para cá. Hoje em dia é quase um castigo", fustiga a autora.

    Carmen, para quem o Rio "anda um tédio", diz que as mudanças não têm volta. "Hoje, um homem nem precisa ter smoking, não acontece mais nada", diz.

    Maria Alice ri tentando se lembrar da última vez que abriu sua casa para um evento black tie. "Acho que faz uns 20 anos que tentei fazer, mas desisti", afirma.

    Talvez não seja à toa e não volte a acontecer mais mesmo. "É como a vida. A gente nasce, vive e morre. Tudo acaba", diz Carmen.

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