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    Juiz das decisões sobre escolas ocupadas foi detido quando estudante

    ROGÉRIO PAGNAN
    DE SÃO PAULO

    19/12/2015 02h00

    Lucas Lima - 2.dez.2015/UOL
    ******INTERNET OUT******* SÃO PAULO, SP, BRASIL 02-12-2015, 16h: Retrato do desembargador Sergio Coimbra Schimdt em seu gaginete. (Foto: Lucas Lima/UOL). ATENCAO: PROIBIDO PUBLICAR SEM AUTORIZACAO DO UOL
    O desembargador Sergio Coimbra Schimdt em seu gabinete, em São Paulo

    As manifestações pipocavam por toda a cidade, quase ao mesmo tempo, desmobilizadas pela tropa de choque da Polícia Militar.

    Havia relatos de protestos na av. Rio Branco, Praça do Correio e av. Nove de Julho, onde uma estudante chegou a ser agredida por um policial quando tentava escapar.

    Aqueles que eram detidos gritavam seus nomes aos jornalistas para que fossem anotados, como uma espécie de garantia de vida.

    "Meu nome é Sergio Coimbra Schmidt", gritou um estudante de direito, conforme anotou o repórter da Folha.

    Foi detido na rua Benjamin Constant, perto da Sé, na região central da capital paulista e levado para o Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo), mas liberado menos de uma hora depois.

    "Foi de fato preocupante porque você não sabe o que vai acontecer. Foram 45 minutos angustiantes", contaria ele à mesma Folha, 38 anos depois. "Eu era um pouco parecido com o presidente do centro acadêmico. Acho que me confundiram. Me soltaram dizendo: 'É laranja'."

    E atualiza a própria história. "Vocês só não disseram que eu saí depois. Se pegar o noticiário da Folha, ainda estou desaparecido", brinca.

    Reprodução
    Edicao de 16 de junho de 1977 esta Folha publicou imagens de repressao policial a manifestacoes de rua. Nosso personagem foi preso nesse dia e hoje e desembargador. Foto: Reproducao ***DIREITOS RESERVADOS. NÃO PUBLICAR SEM AUTORIZAÇÃO DO DETENTOR DOS DIREITOS AUTORAIS E DE IMAGEM***
    Os protestos na primeira página da Folha de junho de 1977

    Schmidt foi um dos 66 estudantes detidos em 15 de junho de 1977, segundo lista divulgada pelo então diretor de polícia Romeu Tuma e as anotações feitas pela reportagem.

    Hoje, aos 61 anos e já de cabelos brancos, é o desembargador responsável por decisões, em segunda instância, que tratam das ocupações das escolas de São Paulo.

    Foi o relator de decisões do Tribunal de Justiça, neste mês, contra a reintegração de parte das escolas ocupadas por alunos contrários ao projeto de reorganização escolar anunciado em setembro pela gestão Geraldo Alckmin (PSDB) e depois suspenso.

    O texto com sua decisão inclui trechos em que fala de sua vida de escola pública.

    Disse no documento judicial, entre outras "reflexões", que conhecia aquilo que os alunos estavam vivendo.

    "E por experiência própria, haurida no longínquo 1968, quando aluno do 3º ano no Ginásio Estadual Vocacional Osvaldo Aranha, posso afirmar tratar-se de experiência gratificante quando bem conduzida e respeitado princípio basilar da democracia que vem a ser o pluralismo subjacente à liberdade de opinião."

    À Folha explicou por que decidiu falar de si naquele documento sobre as escolas.

    "Foi uma maneira de tentar mostrar confiança aos jurisdicionados. Mostrar que o desembargador, o juiz deles, não é esse estereótipo, como se diz, ligado ao establishment, ligado à situação. O juiz é uma pessoa humana que também passou por experiência semelhante."

    Embora tenha feito faculdade no Largo São Francisco em época importante, ainda sob o regime militar, diz ter mais carinho pelas experiências do tempo de secundarista do Vocacional -hoje Escola Estadual Oswaldo Aranha-, em especial em 1968, que classifica como "ano da globalização da contestação".

    Filho de um químico e de uma dona de casa, lembra de outra passagem: o adolescente tinha de 13 para 14 anos e chegou a participar com os colegas de uma operação para defender o colégio. Informados sobre uma possibilidade de invasão à escola, ficaram entrincheirados.

    Nada aconteceu, além de verem um jipe do Exército passar pela rua. Assim, voltou para casa no final do dia. Cresceu com os debates feitos entre alunos e professores sobre o que acontecia no Brasil e no mundo.

    Tentou ser líder de classe nesse tempo, para participar do "governo de estudante", mas não conseguiu. Ri do placar alcançado: "nenhum voto". "Por ética, disse o professor, não deveríamos votar em nós mesmos", afirmou.

    Hoje, dá votos de esperança aos estudantes que, por ironia, chegaram a interromper sua fala na audiência pública para tratar da desocupação das escolas. "Estão aprendendo cidadania."

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