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    mosquito aedes aegypti

    Médicos apuram outros danos do vírus da zika além da microcefalia

    PATRÍCIA CAMPOS MELLO
    DE ENVIADA ESPECIAL AO RECIFE

    07/02/2016 02h00

    Médicos de Pernambuco, Estado que concentra o maior número de registros de microcefalia, estudam casos de bebês que nasceram sem a má-formação, mas com problemas auditivos e visuais possivelmente ligados à zika.

    Nessas ocorrências, a mãe contraiu o vírus depois do segundo trimestre de gestação, e a criança nasceu com o perímetro cefálico normal, mas apresentou deficiência de visão ou de audição, mais difíceis de detectar.

    "A microcefalia foi a primeira manifestação percebida [pelas autoridades], mas eu acredito que seja apenas a ponta de um iceberg que estamos chamando de síndrome de infecção congênita de zika, que poderia causar problemas visuais ou auditivos sem a presença da má-formação", diz o infectologista Demócrito Miranda.

    Avener Prado/Folhapress
    Mãe no hospital Oswaldo Cruz, no Recife, que atende bebês com suspeita de microcefalia
    Mãe no hospital Oswaldo Cruz, no Recife, que atende bebês com suspeita de microcefalia

    Professor da Universidade de Pernambuco, ele integra a força-tarefa dos estudos sobre microcefalia sediados na Fiocruz no Recife.

    A oftalmologista Camila Ventura, da Fundação Altino Ventura, que atende 135 bebês com microcefalia, também registrou casos de crianças sem a anomalia, mas com problemas oculares. "São achados preliminares e estamos estudando", disse.

    Segundo Miranda, em alguns casos, há calcificações no cérebro, como na microcefalia, mas a criança não tem a má-formação.

    Essa alteração, espécie de cicatriz resultante de um processo infeccioso e inflamatório no cérebro, causa danos ao seu funcionamento.

    O cérebro ou não consegue crescer ou cresce desordenadamente. E isso explica os problemas oculares, auditivos ou convulsões.

    Editoria de Arte/Folhapress
    Clique na foto e veja o especial sobre o vírus da zika e microcefalia
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    PESQUISAS

    O grupo está iniciando um estudo para acompanhar 200 crianças com microcefalia e 400 sem essa condição.

    Para a pesquisa, examinam outros fatores que podem estar relacionados à má-formação. Por exemplo, se as mães que deram à luz bebês com a má-formação haviam tido dengue, além da zika.

    Os especialistas também monitoram grávidas que tiveram exantema (erupção cutânea), um dos sintomas da zika, e outras que não o tiveram, para comparar os danos.

    Vão acompanhar ainda 150 crianças com microcefalia até elas completarem dois anos, para investigar seu desenvolvimento e aprendizagem.

    Segundo Miranda, o ideal seria fazer testes auditivos e oculares em todas as crianças cujas mães tiveram zika na gravidez, mesmo se elas nascerem com perímetro cefálico normal, ou seja, acima de 32 centímetros.

    "Se a mãe teve a zika quando estava no sétimo, oitavo mês de gestação, o bebê não nasce com microcefalia, mas não sabemos se ele terá um deficit de aprendizagem ou problemas visuais", diz Angela Rocha, coordenadora do setor de infectologia pediátrica do Hospital Universitário Oswaldo Cruz, no Recife.

    "Em 44 anos de profissão, passei por surto ou epidemia de polio, cólera, meningite, HIV, mas nunca vi nada igual a isso, é o mais chocante."

    O Brasil confirmou até agora 404 casos de recém-nascidos com microcefalia.

    Na semana passada, a OMS (Organização Mundial da Saúde) declarou emergência internacional devido à suspeita de ligação do vírus da zika, transmitido pelo mosquito Aedes aegypti, com a má-formação.

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