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    'Mar de Minas', Furnas ressurge da estiagem e deve ter verão lotado

    MARCELO TOLEDO
    ENVIADO A CARMO DO RIO CLARO (MG)

    31/10/2016 02h00

    Os barcos, que estavam encostados, ligaram os motores novamente. Os píeres, antes obsoletos, voltaram a abrigar pescadores. Os hotéis também estão recebendo mais hóspedes e a economia apresenta sinais de melhora.

    A volta da água ao lago de Furnas, que banha 34 cidades de Minas Gerais, tem propiciado a retomada de um setor que sofreu muito com a seca dos dois últimos anos.

    A estiagem prolongada castigou o turismo do "mar de Minas" em ao menos 20 cidades, segundo Alago (Associação dos Municípios do Lago de Furnas). Houve fechamento de hotéis, extinção temporária da piscicultura em alguns trechos e demissões em bares, restaurantes e marinas.

    Em fevereiro de 2015, a seca fez o lago atingir apenas 10,62% de sua capacidade –o pior cenário desde 1999, segundo o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico).

    Embora a água já possa ser considerada farta na maioria das cidades, o lago ainda estava na última quinta (27) com 51% de sua capacidade, seis metros abaixo do máximo –subiu nove metros em relação ao ano passado.

    Há dois meses, havia mais água do que agora, e o volume ainda pode cair ligeiramente até o início do verão. Mas os atuais níveis já permitem que atividades sejam retomadas até mesmo em lugares a mais de 100 km da hidrelétrica –por serem mais rasos, são os primeiros a ficar secos.

    "Como está, suporta atender as demandas turística, náutica e da piscicultura. Vamos ainda passar por um período de seca, mas a tendência de recuperação total é muito positiva. O verão promete ser muito bom", diz Fausto Costa, do comitê da bacia hidrográfica de Furnas.

    Em Areado, uma das localidades distantes da hidrelétrica e onde a água tinha recuado três quilômetros, uma área usada como pasto para gado em 2015 agora já dá lugar novamente aos peixes.

    Pescadores, como José Pereira, 62, estão felizes. "Estava difícil. Não tinha água, imagine peixe. Ano passado estava seco demais, agora melhorou muito", diz ele, um dos 15 que pescavam mandis, piabas e lambaris na última semana.

    Já em Carmo do Rio Claro, o enorme lago também voltou, para a salvação de Aldenir de Souza Costa, gerente de dois empreendimentos turísticos e de piscicultura. "As atrações são viradas para o lado da represa. Sem ela, o turista não vai no restaurante, porque ele fica na beira da água. Não tem graça sentar num quiosque e olhar para o meio do mato", diz.

    Segundo ele, o movimento com a volta da água já cresceu 50% no hotel, que comporta 80 pessoas. No local, também são criadas cerca de 30 mil tilápias. "O comentário de 'não tem água em Furnas' reflete em todo lago. Mesmo tendo água [em alguns lugares], reflete como se não tivesse", diz. O mesmo aconteceu em cidades como Alfenas, Fama, Guapé e Campo do Meio.

    Gerente de um restaurante em Alterosa, Mauro Roberto Santos, fechava o estabelecimento três vezes por semana, na seca. Agora, abre diariamente. "O prejuízo era dobrado, porque eu fechava e comprava peixe em outros lugares. Agora basta pescar aqui."

    MAR DE MINAS'Lago de Furnas, que se recupera de forte seca, banha 34 cidades no interior de Minas Gerais

    DESENVOLVIMENTO

    A hidrelétrica de Furnas existe desde a década de 1960 –a barragem foi concluída em 1963. Ela foi responsável pelo desenvolvimento do turismo em seu entorno, além de gerar royalties às cidades devido à área alagada para a geração de energia elétrica.

    "O turismo voltou, ainda não na intensidade de cinco anos atrás. O importante era a recuperação depois da seca terrível dos últimos anos", diz o gerente Costa.

    'VOLTA DA VIDA'

    O desalentador cenário de "pasto" ficou para trás com a volta da água, e a atual fartura em cidades banhadas pelo lago de Furnas anima pescadores a viajarem quase 300 km em busca de peixes.

    Moradores de Amparo (130 km de SP), os aposentados Luiz Ribeiro, 66, e Rosa Marcelino Ribeiro, 65, dizem sentir falta da imensidão do "mar de Minas", como esse lago formado para atender a hidrelétrica de Furnas é conhecido.

    Os pescadores, visitantes de cidades no entorno do lago há pelo menos dez anos, estavam desanimados com o cenário de seca que encontraram nos dois últimos anos. Mas se diziam persistentes e sempre voltaram, esperando dias melhores.

    Neste ano, estiveram três vezes no lago. Na semana passada, passaram por Areado, distante 101 quilômetros de São José da Barra, onde fica a hidrelétrica. Nas três visitas, acharam água. Não tanto quanto gostariam, mas o suficiente para já "pescar muito", conforme dizem.

    Havia água em abundância no braço do lago que banha o município, de 14.800 habitantes.

    "Viemos para ficar umas duas semanas, para dar tempo de pescar bastante, congelar peixes e levar para a família inteira", conta Luiz, no barranco do lago, ao lado de outros nove pescadores.

    O local escolhido pelo casal para a pescaria é emblemático. Fica ao lado de onde, cinco décadas atrás, existia uma igreja em homenagem a São Pedro, que desbarrancou e foi levada pela força das águas que historicamente marcam a represa.

    Turista habitual, Rosa diz que, em agosto, quando visitou a cidade, o nível da água estava ainda mais alto. Mas a queda que antecede o verão é normal e está longe de ser motivo para reclamação, diz.

    "Nem se compara ao que víamos no ano passado. Agora está excelente, a vida voltou ao lago."

    O desemprego e a falta de turistas, cenário comum na cidade até o ano passado, agora estão dando lugar a hotéis com maiores índices de ocupação e a pescadores.

    RESSURREIÇÃO DA PONTE

    O pescador José Carlos Seixas, 57, é outro que celebrou o retorno da água. "A região estava sofrendo muito sem a água no lago." Em Alfenas, sul de Minas, piscicultores já discutem a reativação de uma associação após anos de perda no setor.

    Apesar de o nível da água ter melhorado muito neste ano, a baixa da água em outubro em relação a agosto fez uma ponte ressurgir no meio da represa, entre os municípios de Boa Esperança e Campo Belo.

    De acordo com a Alago (associação dos municípios), a queda é normal para o período do ano e é momentânea, à espera do ciclo chuvoso do verão.

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