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    Escritório de advocacia dá seis meses de licença para pai e mãe

    JAIRO MARQUES
    DE SÃO PAULO

    30/04/2017 02h00

    Bruno Santos/ Folhapress
    O casal Mariana Reina, 25, e Gabriel Addas, 24, ambos advogados, vão passar os primeiros seis meses de vida da primeiro filha, Maria Clara, em casa
    Mariana Reina e Gabriel Addas vão passar primeiros seis meses de vida da filha, Maria Clara, em casa

    Maria Clara, que tem previsão de vir ao mundo em julho, nascerá já com um privilégio de raríssimos brasileiros: passar os primeiros seis meses de vida sob os cuidados de papai e mamãe. A empresa onde ambos trabalham criou a "licença família", que promove direitos iguais de gênero de zelar pelos filhos.

    O benefício, que passou a valer em março deste ano, se estende ainda para casais homoafetivos e para funcionários que adotem uma criança, sem restrição de idade. "Os seis meses para a mãe já é algo natural. Mas chegamos à conclusão que os pais também tinham de ter o direito igual. Os dois são elementos fundamentais da família. A mesma lógica aplicamos para casais gays e para pais adotivos", afirma Alexandre Pellaes, 42, diretor de gestão de pessoas do escritório ASBZ Advogados.

    Pai de trigêmeos de dez anos, dois meninos e uma menina, Pellaes teve cinco dias de licença paternidade, mesmo após os filhos terem nascidos prematuros e tendo de ficar um mês na UTI. Por lei, a licença maternidade deve ser de 120 dias, podendo ser estendida por razões médicas, e a paternidade de cinco dias corridos. Os vencimentos dos funcionários são arcados integralmente pela Previdência Social.

    Bruno Santos/ Folhapress
    A empresa onde ambos trabalham criou a "licença família", que promove direitos iguais de gênero de zelar pelos filhos
    Empresa criou a "licença família", que promove direitos iguais de gênero de zelar pelos filhos

    Organizações que aderem ao programa "Empresa Cidadã" podem ampliar o período em 60 dias para a mãe e mais 15 dias para o pai, abatendo o valor no Imposto de Renda. Afora disso, os valores devem ser arcados pelas próprias empresas.

    "Os custos da medida são muito bem resolvidos para o escritório. Faz parte do nosso investimento em reforçar o conceito de família e nos colocarmos como meio de transformação social", declara Pellaes, responsável pela gestão de 250 funcionários.

    A reportagem não encontrou referências de concessão de licença paternidade tão longa no país. No Brasil, o Twitter, com base na iniciativa da matriz americana, passou, em 2016, a adotar 20 semanas para que os pais fiquem com os filhos. A Natura oferece o benefício de 40 dias, e outras diversas empresas já dão o benefício de 20 dias. A licença de seis meses para a mulheres também já tem diversos adeptos.

    INACREDITÁVEL

    Pai de primeira viagem e advogado júnior no ASBZ, Gabriel Frauche Addas, 24, demorou a acreditar que era verdade que poderia ficar seis meses sem ir ao trabalho para ajudar a namorada, Mariana de Oliveira Garrido Reina, 25, também advogada júnior no escritório, no trato e nas boas-vindas a Maria.

    "Fiquei até meio sem graça quando meu chefe disse que eu poderia sair por seis meses, mas é a melhor coisa do mundo. O pai junto da mãe, pelo que pesquisei, pode diminuir problemas de timidez, de insegurança no futuro. Sem falar que vou auxiliar a mãe nas rotinas da nossa bebê", declara Addas.

    Embora não haja nenhuma contrapartida exigida pela empresa após o retorno da licença, o casal avalia que voltará ao trabalho motivado e tranquilo, uma vez que terão de tempo de organizar a rotina da filha e a nova realidade deles mesmos.

    "Estamos muito seguros que não vamos sofrer nenhum prejuízo profissional com a saída. A empresa não faria algo para ser bem vista fora daqui, mas ser questionada internamente. É uma política inovadora e acreditamos nela", afirma Mariana.

    Para o executivo Pellaes, a expectativa da empresa é influenciar outras organizações a enxergarem que "pessoas que trazem resultados são aquelas felizes e com vínculos concretos e positivos com o que fazem".

    "Não achamos que todas as empresas irão sair dando seis meses de licença para seus funcionários, mas, talvez, dois. A chegada de um filho promove uma mudança muito radical em diversos setores da vida e a empresa pode ajudar seus funcionários a se reestabelecerem."

    Bruno Santos/ Folhapress
    Empresas começam a aumentar o tempo de afastamento de funcionários homens para cuidar dos filhos
    Empresas começam a aumentar o tempo de afastamento de funcionários homens para cuidar dos filhos

    BENEFÍCIOS

    Segundo a pediatra Luciana Silva, presidente da Associação Brasileira de Pediatria, estudos científicos comprovam que os primeiros três anos de vida são "insubstituíveis para o crescimento e para o desenvolvimento" do bebê, o que justifica e torna extremamente necessária a presença contínua dos pais a seu lado por um período.

    "Poucas são as empresas privadas que asseguram o tempo necessário para que a mãe possa acompanhar seu filho nos primeiros meses de vida. No caso dos pais, a possibilidade é ainda mais remota. Uma empresa que amplia esses prazos está de parabéns, mas não podemos viver de exceções", afirma.

    Para ela, é preciso que haja uma "regra clara" a ser cumprida por empresas e órgãos públicos. "Defendemos que as mulheres tenham, no mínimo, um ano de licença. O prazo dado aos homens deveria seguir os mesmos critérios, proporcionalmente. Se o Governo quer oferecer saúde e qualidade de vida às futuras gerações deve atuar para que esses parâmetros sejam adotados o mais rápido possível."

    O Ministério da Saúde preconiza, desde 2012, a "paternidade responsável" e faz campanhas de promoção sobre o papel do pai na criação e educação dos filhos.

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