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    Doria diz que 'cracolândia acabou', mas usuários de drogas persistem

    ROGÉRIO PAGNAN
    PAULO GOMES
    DANILO VERPA
    FOLHA DE S.PAULO

    21/05/2017 11h33 - Atualizado às 18h24

    Paulo Saldaña/Folhapress
    Usuários se concentram em posto de gasolina na esquina da rua Helvétia com a av. Rio Branco
    Usuários se concentram em posto de gasolina na esquina da rua Helvétia com a av. Rio Branco

    Uma megaoperação da polícia paulista retirou usuários e prendeu traficantes no principal ponto de consumo e comércio de drogas da cracolândia, no centro de São Paulo, na manhã deste domingo (21).

    A ação, contudo, espalhou a "feira da droga" pela região e expôs uma disputa entre as gestões tucanas de Geraldo Alckmin e João Doria.

    Após a operação do governo do Estado, com 900 policiais, Doria foi ao local para divulgar as iniciativas da prefeitura e "decretou" o fim da cracolândia –que existe ali há mais de duas décadas e foi alvo de seguidas operações fracassadas do poder público.

    "A cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais. Nem a prefeitura permitirá nem o governo do Estado. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa. A partir de hoje, isso é passado", afirmou Doria ao caminhar pelo quarteirão do antigo "fluxo", que concentrava a maioria dos usuários de crack.

    Enquanto isso, pela vizinhança, centenas de dependentes químicos compravam e consumiam drogas a céu aberto nas calçadas de vias como as ruas Aurora, Helvétia, Dino Bueno, Barão de Piracicaba e avenida Rio Branco.

    Até o fim da tarde, a maior concentração era em um posto de gasolina na esquina da rua Helvétia com a avenida Rio Branco, com cerca de cem usuários, muitos deles deitados no chão.

    Cracolândia - Operação policial - Fluxo - Onde fica - Perfil dos usuários

    "Não tem pra onde ir, vou ficar por aqui mesmo até desbaratinar", disse um dos usuários no local. O comércio e consumo de crack ocorria de maneira irrestrita no local. A menos de cem metros, a Tropa de Choque da polícia militar bloqueava o acesso à rua Helvétia.

    Viaturas da PM e da Guarda Civil Metropolitana ainda rodavam ou estavam estacionadas em várias ruas da região, como na alameda Dino Bueno e Barão de Piracicaba, onde um grupo de 15 usuários fumava crack a pouco metros de policiais.

    Em ocasiões distintas, policiais em carros e motos da Tropa de Choque chegaram a passar lentamente observando a movimentação, sem no entanto fazer qualquer abordagem.

    A alguns quarteirões dali, na rua Vitória, outro grupo de usuários permanecia reunido na calçada. Próximo ao local, a polícia mantinha isolamento na Conselheiro Nébias com a rua Aurora.

    A reportagem presenciou a venda de crack em ao menos outros dois locais da região, na rua Aurora e mais à frente da avenida Rio Branco, em frente à praça Princesa Isabel.

    "Na antropologia, a cracolândia é conhecida como território itinerante", diz a antropóloga Roberta Marcondes, do coletivo de direitos humanos A Craco Resiste.

    Ela explica que isolar a área não resolve o problema, só cria outros focos. "Nos anos em que eu trabalho aqui, a cracolândia já foi em muitos lugares, como no momento está na praça Princesa Isabel."

    A atuação de Doria incomodou aliados de Alckmin, que foi mais comedido ao classificar a ação como um "primeiro passo" para acabar com a cracolândia.
    "O trabalho policial é um trabalho que não termina. O problema da droga não é uma coisa simples. Você tem uma questão crônica que precisa ser enfrentada pela polícia, pela área social e pela saúde", afirmou.

    O "fim da cracolândia" chegou a ser anunciado em outros momentos, como em 2008, pelo ex-prefeito Gilberto Kassab (PSD), e em 2012, pela gestão Alckmin.

    O ex-prefeito Fernando Haddad (PT) também já havia falado em "sucesso" de operações na área, como em 2015, ao dizer que os traficantes tinham sido afastados. Apesar dos discursos, a "feira da droga" a céu aberto continuou.

    INICIATIVA

    A polícia tinha prendido até a noite de domingo cerca de 50 acusados de tráfico, incluindo suspeitos de ligação com a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), filmados com armas de fogo dias antes, e outros que teriam participação na morte de um homem que tentou resgatar do "fluxo" uma viciada.

    A ação envolveu 900 policiais, helicópteros e bombas na região da cracolândia, e o prefeito elogiou: "sem vítimas, sem violência, com muita eficiência da força policial".

    A última grande operação do Denarc na cracolândia havia sido em agosto passado, quando 32 pessoas foram presas sob a suspeita de integrar uma das células que abastecem a área de entorpecentes.

    Na operação deste domingo, a Polícia Civil lançou bombas de efeito moral no "fluxo", motivando correria. "Um [policial] já foi arrombando a porta. Quem vai pagar o prejuízo? Me humilhou na frente dos inquilinos. Não sou traficante, não sou usuária", queixou-se Eduarda Lima Silva, 19, moradora e gerente de uma pensão.

    A região foi ocupada depois por guardas municipais, que devem ser mantidos por tempo indeterminado para evitar a remontagem de barracas.

    PROGRAMAS

    Doria aproveitou a ação para anunciar o fim do programa social de Haddad, como já havia dito que faria, mas afirmou que manterá ações do projeto extinto, como auxílio ao dependente químico com emprego, moradia e redução de danos, sob o guarda-chuva de um novo programa, batizado Redenção.

    O decreto de criação do Braços Abertos, porém, ainda não foi revogado.

    "Não haverá mais pensão ou hotel, nenhuma acomodação desse tipo. Toda a área sofrerá uma amplo projeto de reurbanização", disse Doria.

    "Haverá a interdição imediata de todas as pensões e hotéis. Serão bloqueados hoje. Na sequência, derrubados. Serão demolidos. O mais rápido possível. Serão demolidos, essa área será reestruturada urbanisticamente com prioridade para habitação popular", completou o tucano.

    Em relação ao programa de Haddad, Alckmin disse achar que "a intenção até foi boa, mas o fato de você ter hotel e pensão, e dar dinheiro, mesada para as pessoas, acabou piorando. O armamento que a gente apreendeu foi em hotéis e pensões".

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    Programas sociais na cracolândia

    RECOMEÇO

    Criação: Governo do Estado (jan.2013, sob Alckmin)
    Objetivos: Tratar o usuário com medidas ambulatoriais, inclusive internações compulsórias
    O que oferece: Acesso a tratamento, internação se preciso, encaminhamento a capacitação e recolocação profissional
    Orçamento anual: R$ 80 milhões
    Gasto por usuário: R$ 1.350 por mês (internação)

    BRAÇOS ABERTOS

    Criação: Prefeitura de SP (jan.2014, sob Haddad) - Foi extinto por Doria
    Objetivos: Reinserir o dependente na sociedade e estimular a diminuição do consumo de drogas
    O que oferece: Moradia em hotéis, 3 refeições por dia, apoio em tratamentos, profissionalização e emprego
    Orçamento anual: R$ 12 milhões
    Gasto por usuário: R$ 1.320 por mês

    REDENÇÃO

    Criação: Prefeitura de SP (mai.2017, sob Doria)
    Objetivos: Unir os dois programas, visando tanto a reinserção do usuário como o tratamento clínico
    O que oferece: Moradia distante do "fluxo", trabalho em empresas privadas e encaminhamento a tratamento
    Orçamento anual: Ainda não estimado
    Gasto por usuário: Ainda não estimado

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    O secretário estadual de Saúde, David Uip, que também acompanhou a operação deste domingo com equipes de saúde, disse que a situação na região estava crítica.

    "Eu tive dificuldades de chegar ao prédio do Recomeço. Eu fui ameaçado, as pessoas só me deixaram entrar quando souberam que eu era da Saúde. Nós, Saúde, e Desenvolvimento Social, estávamos com enorme dificuldade até em abordar e tratar as pessoas naquela região, não era permitido. Até um enfermeiro teve o carro queimado. Não estava dando, estava muito difícil", afirmou.

    "Agora, com a operação, vamos poder trabalhar naquilo que realmente interessa, que é recuperar os usuários de drogas, que precisam ser tratados e vistos como pacientes."

    Segundo o secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, a região será revitalizada e será feito policiamento ostensivo para evitar que os dependentes químicos voltem a ocupar as ruas da área. "Será feito o acolhimento e eles serão enviados para os centros de tratamento", disse.

    Não foi especificado quando terá início a demolição dos hotéis utilizados para o tráfico de drogas na alameda, ainda que Doria tenha dito que ela ocorreria "o mais rápido possível".

    A Guarda Civil Municipal segue bloqueando o retorno dos dependentes químicos ao trecho da Dino Bueno onde havia o fluxo de usuários.

    Descaminhos da cracolândia

    Morador da região central, Fábio Fortes, membro e ex-presidente do Conseg (Conselho de Segurança) da Santa Cecília, critica a decisão da prefeitura de demolir os prédios no entorno da cracolândia. "Vai criar terrenos baldios perigosos", diz ele, reivindicando manutenção de ação que envolva várias secretarias, como saúde, segurança e assistência social.

    Em nota, a gestão Haddad atacou as declarações do governador, acusando a polícia de conivência com o tráfico.

    "A gestão Haddad tem dúvidas se o governo do Estado de São Paulo terá condições de conter a corrupção que o assola. Assim como acontece com as estatais estaduais que seguem sem ser investigadas (Dersa, Metrô e CPTM), a gestão anterior entende que a Polícia Civil continuará com suas ações irmanadas ao tráfico na área central da cidade. Por quatro anos consecutivos a gestão anterior pediu uma ação efetiva de combate ao tráfico e não foi atendida. Atribuir ao programa Braços Abertos responsabilidade pelo tráfico é covardia."

    Danilo Verpa/Folhapress
    Funcionários da prefeitura retiram placa do programa Braços Abertos, instaurado na gestão Haddad (PT)

    TROCA DE PLACA

    Entre o fim da operação policial e a chegada do governador e do prefeito, o secretário Filipe Sabará retirou, com um funcionário da prefeitura, a placa que identificava a tenda do Braços Abertos para atendimento a usuários de drogas na cracolândia. A ideia de Doria é dar nova roupagem a ações sociais voltadas a dependentes químicos da região.

    A hospedagem e a remuneração por trabalhos como varrição serão preservadas, desde que os usuários se comprometam a fazer tratamentos de desintoxicação ligados ao Recomeço, programa da gestão estadual, de seu correligionário Geraldo Alckmin.

    Os programas da prefeitura da cidade e do Estado para dependentes de crack se notabilizaram nos últimos anos por terem princípios conflitantes.

    O Recomeço, criado em 2013 por Alckmin, propõe tratamentos por internação, às vezes involuntária, e passagens por comunidades terapêuticas.

    Já o de Haddad, do início de 2014, preconizava a redução de danos: o dependente deve diminuir o consumo das drogas enquanto aumenta sua autonomia, por meio da oferta de emprego e moradia, muitas vezes na própria região. O programa de Haddad foi regulamentado por decreto em 28 de abril de 2014. O decreto deve ser revogado em breve, bem como um novo deve ser publicado para o programa Redenção, de Doria.

    Apesar de avanços lentos e pontuais, ambas as ações de Alckmin e Haddad vinham sendo alvo de críticas, pela impressão de que mesmo com eles, pouco mudou na ocupação do centro de São Paulo por usuários e traficantes de crack.

    *

    Cronologia

    Operações e projetos na cracolândia que não deram certo

    Set.2005
    A gestão Serra-Kassab dá início ao projeto Nova Luz, que pretendia recuperar a área com investimento público e privado, mas o modelo não vingou

    Fev.2008
    O então prefeito Gilberto Kassab (PSD) afirma que a cracolândia não existe mais. "Não, não existe mais a cracolândia. Hoje é uma nova realidade", declarou. O consumo de drogas, no entanto, continuou explícito

    Jan.2012
    Polícia Militar intensifica a Operação Centro Legal e ocupa as principais ruas da Luz com cerca de 300 homens. Dependentes que se concentravam na rua Helvétia se dispersam para outros pontos da região

    15.jan.2014
    Assistentes sociais e funcionários da prefeitura retiram usuários e limpam a rua. Segundo a prefeitura, 300 pessoas foram cadastradas no programa Braços Abertos, da gestão Haddad (PT). O tráfico, porém, persistiu

    23.jan.2014
    Três policiais civis à paisana vão ao local para prender um traficante e usuários reagem com paus e pedras. A confusão aumentou com chegada de reforços e terminou com cerca de 30 detidos

    29.abr.2015
    Operação desarticulada da prefeitura e do governo do Estado transforma o centro em uma praça de guerra, com bombas de gás, furtos a pedestres e depredação de ônibus. Dois dias depois, fluxo retornou. Haddad chamou ação de 'sucesso'

    5.ago.2016
    Polícia realiza operação com 500 homens na cracolândia e ocupação do Cine Marrocos, no centro, e prende ao menos 32 pessoas

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