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    Professor que fez faculdade morando na rua teme voltar a ficar sem teto

    CHICO FELITTI
    COLABORAÇÃO PARA FOLHA

    18/07/2017 02h00

    "Não te vendo, nem vendo, nem sabendo/ Que te vejo, ou sequer que sou risonho/ Do interior crepúsculo tristonho/ Em que sinto que sonho o que me sinto sendo."

    Foi com palavras de Fernando Pessoa, no poema "Análise", que Alessandro Jamas, 38, mudou sua vida. Dez anos atrás, ele pedia dinheiro num semáforo na frente do shopping Pátio Paulista, na Bela Vista, região central de SP, e oferecia em troca poesias que conhecia de cor.

    Bruno Santos - 5.jul.2017/Folhapress
    SAO PAULO, SP, BRASIL, 05-07-2017: Alessandro Jamas (38) é professor contratado da rede pública. Fez a faculdade de Letras enquanto morava na rua, tendo a mensalidade custeada por uma artista plástica para quem ele pediu dinheiro no semáforo. Hoje, ele está com medo de voltar para a rua, porque seu contrato diminuiu e já precisou vender todos móveis que tinha para pagar o aluguel da sua quitinete. (Foto: Bruno Santos/ Folhapress) *** FSP-COTIDIANO *** EXCLUSIVO FOLHA***
    O professor de literatura Alessandro Jamas, 38, que morava na rua em São Paulo

    Abordou um táxi que levava uma mulher que, lembra-se até hoje, tinha achado "elegante, arrumada e com olhos sorridentes abertos". Declamou o poema acima. A mulher ficou emocionada e se ofereceu para ajudar com o que quisesse, entregando para ele um cartão de visitas, em vez de uma cédula de dinheiro.

    Após uma semana, Alessandro ligou para o número e pediu para falar com Regina. A mulher do táxi pegou o telefone e disse que gostaria de patrocinar um curso de teatro para ele na escola Célia Helena.

    Alessandro, que foi criado por uma família de classe média em Carapicuíba (Grande São Paulo), onde tinha feito o ensino médio num colégio de freiras, disse que preferiria se formar em letras. "Porque quando eu fosse professor pobre ninguém ia estranhar", ele relembra, rindo.

    Ela topou, contanto que ele passasse num vestibular. Poucas semanas se passaram antes que ele prestasse letras na Unipaulistana, na Vila Mariana –pagou os R$ 30 da inscrição com o dinheiro que ganhava nos cruzamentos e acabou sendo aprovado.

    A desconhecida cumpriu sua palavra por três anos. Uma vez por mês, ele se encontrava com Regina ou com sua empregada em um posto de gasolina de Higienópolis. Entregava o boleto da mensalidade, de cerca de R$ 250. Eventualmente, os dois se falavam por telefone.

    A artista plástica Regina Romani diz que a ocasião foi um "dia em que duas almas estão iluminadas e se encontram". Ela afirma que não tem muito a dizer sobre o que fez por Alessandro. "Essa atitude deveria ser natural e simples. Não uma exceção."

    CRACK E BANHO

    Começava a saga do sem-teto para cursar o ensino superior. No primeiro ano de faculdade, Alessandro dormia num estacionamento abandonado da praça Roosevelt, que estava em reformas.

    "Eu ficava 15 dias sem ter um lugar para tomar banho. Ou ia para um lugar para pegar comida, ficava na fila por horas, ou corria para conseguir na rua o dinheiro da condução. Naquele momento, escolhi priorizar a faculdade."

    O professor acabou na rua depois da morte da mãe e de romper com o pai, que tinha problemas em aceitar sua homossexualidade. "Quando minha mãe morreu, fiquei deprimido. Tive uma situação com crack que foi muito difícil. Não cheguei a criar uma dependência física. Mas tinha uma dependência psicológica. Era o crack, a bebida, a cocaína."

    Passou um ano vivendo com o dinheiro que herdou da mãe, até que se viu sem reservas, mas com vontade de lutar. "Quando cheguei na rua, não tinha mais crack. Eu estava sóbrio. Logo eu, que por muito tempo tinha tido a visão contrária, de que todo mundo que estava na rua era [por causa de] crack e bebida."

    No segundo ano de faculdade, Alessandro conseguiu vaga num abrigo, e saiu da rua. No terceiro, já trabalhava no Bom Retiro como agente de proteção social do Cieds (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável). "Ganhava um salário mínimo, mas foi muito importante para conseguir terminar o curso."

    Com o dinheiro, conseguia pagar as cópias de textos que precisava ler na faculdade, além de comprar material escolar. Mas restava um empecilho prático. "Dois ou três colegas da sala me olhavam com nojo. Porque eu ia muito maltrapilho, muito sujo. Sem banho, sem escovar dente."

    Começou a dar aulas em 2010, assim que pegou o diploma, com um trabalho de conclusão de curso que analisou mitos e lendas em "O Senhor dos Anéis". Com os primeiros salários de professor, foi morar numa pensão.

    UMA PORTA

    Desde então, Alessandro tem um contrato de professor temporário de literatura na rede estadual de São Paulo, mais conhecido como "categoria O". O acordo precisa ser renovado a cada ano e permite que ele dê até 32 horas de aula por semana.

    Chegou a ganhar R$ 2.300 por mês no ano passado, quando lecionava 120 horas mensais em escolas como a João Kopke, em Campos Elíseos (região central), e a Caetano de Campos, na mesma praça Roosevelt onde ele teve de dormir anos atrás.

    Mas neste ano só foi chamado para dar sete horas de aula semanais. Recebe cerca de R$ 700 por mês, exatamente o valor do seu aluguel, que está atrasado há três meses.

    Alessandro está na iminência de ser despejado. "Na época que eu morava na rua, sonhava em ter uma porta para me proteger, para poder fechar. Hoje eu tenho. Talvez amanhã não tenha."

    O professor recebeu a Folha em sua quitinete, de 20 e poucos metros quadrados, na região da Luz. Estava prestes a sair para uma viagem de ônibus de 14 horas, mas não a lazer. Para complementar a renda, vende para outros professores bijuterias e bibelôs que compra em Ponta Porã, na divisa com o Paraguai. "Eu não gosto de fazer isso. Estou sendo obrigado", afirma.

    As aulas voltam em 31 de julho. Ele espera conseguir no segundo semestre mais aulas, para não perigar voltar à rua, acompanhado só dos mais de 200 poemas que conhece de cor. Acredita que vai conseguir. "Hoje, andando na rua, eu me lembrei do Fernando Pessoa. E toda vez que eu me lembro do Fernando Pessoa acontece uma coisa boa na minha vida."

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