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    Tráfico 'testa' policiamento e ensaia retomar ações na cracolândia de SP

    MARIANA ZYLBERKAN
    DE SÃO PAULO

    02/08/2017 02h00

    Bruno Santos/Folhapress
    Dependentes deixam pertences em rua da cracolândia, no centro de SP, onde houve ação da GCM com a PM
    Dependentes deixam pertences em rua da cracolândia (centro) onde houve ação da GCM com a PM

    Na noite de segunda (31), para socorrer uma usuária de drogas em trabalho de parto, uma kombi faz zigue-zague entre carros da polícia na cracolândia, enquanto agentes de saúde tentam abrir espaço em uma rua do centro de São Paulo repleta de viciados que fogem das bombas de gás lançadas por homens da GCM (Guarda Civil Metropolitana).

    O embate que transformou a região em um cenário de guerra foi o ápice da recente escalada de tensão entre agentes de segurança e usuários.

    O estopim para o confronto são as barracas montadas em meio à concentração de dependentes. Guardas e policiais são orientados a retirá-las, mas há resistência, e essas estruturas têm aumentado nas últimas semanas. É debaixo delas onde acontece o tráfico e o uso do crack.

    Para facilitar a instalação delas nas ruas e praças do centro, os viciados adaptam paus e lonas presas a grades que podem ser montadas novamente de forma mais rápida.

    Os usuários hoje se concentram ao lado da estação de trem Júlio Prestes, a poucos metros de onde funcionava a antiga cracolândia.

    A atual estrutura do tráfico, porém, é bem mais frágil. Após a ação policial do final de maio que prendeu traficantes e desobstruiu algumas vias, não há mais, por exemplo, uma feira de drogas a céu aberto nem traficantes armados no meio das ruas.

    Entretanto, nas últimas semanas, a reportagem da Folha observou e ouviu relatos sobre a tentativa do tráfico de retomar ao menos uma parte do terreno perdido nos últimos três meses na região.

    Por exemplo: a venda fiado de crack para os usuários que moram na cracolândia foi retomada, num sinal de que o tráfico conseguiu fazer caixa e reconquistar essa clientela.

    Cronologia

    21.mai - Polícia realiza operação e desfaz 'feira de drogas' na r. Helvetia; usuários se espalham

    24.mai - Nova cracolândia surge na pça. Princesa Isabel; prefeitura passa a fazer limpeza diária para evitar barracas

    14.jun - Ação de limpeza da praça gera confronto com a GCM

    21.jun - Usuários migram para a al. Cleveland, mas movimento é menor do que a feira de drogas inicial

    31.jul - Ação da GCM para dispersão de dependentes acaba novamente em confusão

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    Outro exemplo é o oferecimento de um crack de melhor qualidade, para atender gente de maior poder aquisitivo que sai de diferentes áreas da cidade apenas para comprar e consumir a droga naquele ponto do centro da capital.

    Segundo uma usuária, sob o temor de câmeras de monitoramento espalhadas por todos os cantos, inclusive com drones, os traficantes não ficam mais no meio do fluxo de viciados, e quem negocia a droga na cracolândia são alguns usuários, em troca de sustentar o seu próprio vício.

    TENSÃO

    A repressão e o combate direto ao tráfico é de responsabilidade do governo Geraldo Alckmin (PSDB), por meio das polícias Civil e Militar.

    A gestão de João Doria (PSDB) atua em parceria com as corporações por meio da GCM, que se mantém fixa na região, tanto para proteger os agentes sociais e de saúde que lidam diretamente com os dependentes como para coibir a montagem de barracos.

    "Toda vez que um [usuário] levantar uma barraca, um GCM [guarda civil metropolitano] vai abaixá-la", disse o prefeito tucano nesta terça-feira.

    A remoção de materiais como pedaços de pau e lonas é feita rotineiramente duas vezes por dia durante ações de limpeza por agentes da prefeitura e guardas municipais.

    No fim da tarde de segunda, guardas-civis mandaram usuários desmontarem as barracas, armadas após a limpeza. Irritados, eles se negaram e atearam fogo nas lonas. A GCM invadiu o fluxo e reagiu com bombas de gás lacrimogêneo e gás de pimenta.

    Mais cedo, durante a rotina de limpeza, uma usuária foi revistada, e os policiais tentaram levá-la presa. Foi quando os demais integrantes do fluxo reagiram e começaram a jogar pedras.
    Nesta terça-feira (1º), a tensão se intensificou e agentes de saúde foram informados que haveria tolerância zero por parte da polícia.

    Diante da iminência do confronto, alguns levaram frascos com vinagre para o trabalho –com a crença de que isso reduziria os efeitos do gás lacrimogêneo.

    Na madrugada, uma barricada foi montada e os usuários se armaram com coquetéis molotov, pedras e paus.

    O arsenal foi usado contra a força tática da GCM, que os obrigou a recuar com uso de bombas de efeito moral.

    Comerciantes da região abaixaram as portas após boatos de que haveria arrastão na região. Um cadeirante passou mal e precisou ser socorrido pelos agentes de saúde.

    REFORÇO POLICIAL

    Questionada sobre as recentes tentativas do tráfico de drogas de montar barracas na cracolândia, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que o policiamento continua reforçado para combater os traficantes e impedir que se instale um novo fluxo de comercialização de drogas na região da cracolândia, no centro da capital paulista.

    A pasta do governo Geraldo Alckmin (PSDB) também informou que 313 pessoas foram presas ou apreendidas por envolvimento com tráfico na região de 21 de maio até a última segunda-feira (31) e que as polícias apreenderam 287 quilos de diversas drogas, simulacros, facas, balanças de precisão, além de R$ 119 mil em dinheiro. A área conta com 212 policiais, diz a secretaria.

    COMPLEMENTO

    A gestão João Doria (PSDB) disse, por meio de nota, que a função da Guarda Civil Metropolitana é complementar a segurança pública.

    Para isso, diz realizar monitoramento da cracolândia com drones, um ônibus de vigilância e uma base comunitária.

    É papel da GCM também fazer a segurança dos agentes de saúde, assistentes sociais e funcionários da zeladoria que atuam no local, de acordo com a administração.

    Em entrevista à rádio Bandeirantes, nesta terça-feira (1), Doria disse que ações como a realizada pela GCM na segunda-feira serão constantes.

    O prefeito se referiu às estruturas montadas pelos usuários como "shoppings do crime", em alusão à feira de drogas que ocorria na rua Helvétia antes da ação da polícia em 21 de maio.
    "São elas que ajudam o tráfico a se estabelecer no local", afirmou Doria na entrevista à rádio.

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