• Cotidiano

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    BR-101 divide facções, e morador fica sitiado em 'fronteira' na Grande Natal

    THIAGO AMÂNCIO
    BRUNO SANTOS
    ENVIADOS ESPECIAIS A NATAL

    07/01/2018 02h00

    Os dois lados do trecho da rodovia BR-101 que dá acesso à zona norte de Natal apresentam um cenário homogêneo, com calçadas movimentadas e comércios com fachadas pichadas. Mas há uma diferença fundamental: cada lado da pista é dominado por facções rivais do crime organizado. A recomendação por ali é não cruzar a "fronteira".

    A via divide a capital potiguar do município de São Gonçalo do Amarante. Do lado oeste, no bairro de Jardim Lola, são abundantes as pichações com alusões ao Sindicato do Crime do RN (que se identifica pelas iniciais RN ou pelos números 18-14, em alusão à posição das letras no alfabeto). O crime se concentra, segundo moradores, na favela Baixa da Coruja.

    Do outro lado, no bairro de Igapó, onde passa a linha do trem, surgem inscrições que remetem à facção paulista PCC, como a sigla da quadrilha, os números 15-3-3 ou o símbolo do Yin-yang, que o grupo criminoso adotou.

    O tráfico de drogas naquela área é concentrado nas favelas da Beira Rio e do Mosquito, próximas à área de mangue do rio Potengi. Uma comerciante que não quis se identificar conta que evita dizer que é do lado oeste do conflito quando tem que cruzar a pista para tarefas cotidianas, como comprar peixe. Além disso, ela diz que é normal traficantes mandarem recados aos comerciantes do lado oposto, como fechar as portas mais cedo quando preveem conflitos.

    Dono de uma padaria na região, José de Arimateia, 62, confirma o toque de recolher. "Falam: 'Fecha mais cedo que hoje a gente invade e vai ter chuva'. Chuva de bala. Mas eu não fecho não. Deve ser por isso que me assaltam tanto. Já fui roubado aqui não sei quantas vezes. Ano passado, graças a Deus, só duas."

    E a população é que fica atrás das grades, como as do comércio de Arimateia, predominantes nas lojas e pequenas casas da região.

    As facções protagonizaram a matança na Penitenciária de Alcaçuz, há um ano, que terminou com 26 mortos. "Eles até que diminuíram os assaltos aqui, para evitar a polícia. O problema é quando vem gente do outro lado. Aí a bala come mesmo", diz um homem, do lado leste, que se identifica como Nivaldo.

    CONFRONTO

    Na noite de 29 de dezembro, aproveitando a greve das polícias civil e militar do Estado que já dura 20 dias e colocou o Estado em situação de emergência na segurança pública, membros do Sindicato cruzaram a "fronteira" e tentaram tomar a favela do Mosquito. As Forças Armadas haviam chegado na capital naquela noite e, em confronto com os bandidos, frustraram a ação.

    Um morador da região que é mecânico de um ferro-velho na entrada do Mosquito conta que se escondeu no banheiro até o amanhecer.

    Ele diz que o episódio tornou o local ainda mais perigoso. Até o ano passado, a principal rixa por ali era entre as torcidas do ABC e do América, os times locais.

    Via de regra, se uma pessoa não tem envolvimento com o crime, afirmam os moradores, dificilmente será abordada na rua, sobretudo durante o dia -a não ser que entre em alguma favela. A noite, a história é outra. Um senhor que vive em Igapó há 36 anos conta que os vizinhos evitam ficar na rua após as 21h por temer a violência.

    Raniere Cesar, 31, nasceu e cresceu na Beira Rio. Mas se mudou há dois anos para poucas ruas acima. "A mulher estava com medo, tive que sair." Ele toca um projeto social com 150 crianças e jovens de 6 a 18 anos na comunidade. Entre as ações, está um time de futebol, o Beira Rio Futebol Clube. "Às vezes eles vão jogar do outro lado e ficam meio assim Mas jogam. Chegaram até a pensar em trocar de nome, para evitar associação."

    Outro membro do projeto que prefere não se identificar morou por 24 anos na comunidade, mas saiu há quatro. Já faz um ano que nem volta mais. Ele lembra que, quando chegou, o local era bem pobre, com casas de pau a pique, e os crimes eram raros.

    Ao longo dos anos, ele perdeu a conta de quantos amigos perdeu por causa da criminalidade crescente.

    Por outro lado, Cesar defende a comunidade onde passou a maior parte da vida. "É um local muito discriminado, há muitas pessoas de bem. Mas também há muitas que não são de boa índole", diz. "Eu não volto mais, não quero me arriscar".

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