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    Estudantes invadem e trancam escola em ato contra fechamentos em SP

    SIDNEY GONÇALVES DO CARMO
    FELIPE SOUZA
    JULIANA GRAGNANI
    DE SÃO PAULO

    10/11/2015 12h30 - Atualizado às 01h07

    Cem adolescentes chegaram cedo à escola, quase às 7h. Faltava pouco para a aula, mas eles não estavam ali para estudar. Não nesta terça (10). Entraram e trancaram os portões com correntes e cadeados. A partir de então, o colégio estava ocupado.

    O objetivo do protesto dos estudantes da escola estadual Fernão Dias Paes, em Pinheiros (zona oeste de SP), era reagir à feita pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) nas escolas da rede.

    Ao todo, 94 unidades deixarão de funcionar para dar lugar a atividades como creche e ensino técnico; 754 passarão a atender apenas um de três ciclos de ensino (fundamental 1 e 2 e médio).

    A Fernão Dias Paes terá só o nível médio a partir de 2016. Segundo a secretaria de Educação, 213 alunos do fundamental serão transferidos para a escola Godofredo Furtado, a cerca de 1,5 km.

    "Queremos ser ouvidos, e esse foi o jeito que conseguimos. Ninguém ouve a gente porque somos adolescentes", disse Lizantra Lima, 15, do primeiro ano do ensino médio.

    Além da reorganização das escolas, os alunos reclamavam também da estrutura: chão esburacado e banheiro sem vaso sanitário, diziam.

    Na noite anterior, movimento semelhante havia começado na escola estadual Diadema, na cidade de mesmo nome na Grande SP.

    "Eles [os alunos] chegaram e comunicaram que não iam sair da escola. Como havia menores de idade, passamos a noite com eles e telefonamos para os pais para buscá-los", disse Liane Baybr, dirigente regional de ensino.

    No dia seguinte, a entrada para as aulas da manhã foi liberada e, às 13h desta terça, menos de dez dos manifestantes continuavam no local.

    Já na Fernão Dias Paes, os jovens não quiseram sair. Tinham levado comida e água e diziam ter autorização dos pais para ficar no colégio por "bastante tempo", até o governo mandar algum representante que os ouvisse.

    Infográfico: Mudanças na educação

    POLÍCIA E CONFUSÃO

    Primeiro chegou a Polícia Militar, em oito carros. A escola foi cercada. Ninguém conseguia entrar. Outros alunos, pais, professores e membros de sindicatos ficaram de fora.

    A diretora, que fez boletim de ocorrência por dano ao patrimônio, já havia sido retirada pelos jovens logo cedo, segundo Rosangela Valim, dirigente de ensino da região.

    "Somos a favor de todas as manifestações e as consideramos legítimas. [Mas] Esse grupo não quer diálogo e está prejudicando os alunos", disse.

    Às 16h, a PM tentou levar duas garotas à delegacia para que elas participassem do registro do boletim de ocorrência. Estudantes e pais pediram que elas fossem liberadas –o que acabou ocorrendo–, e houve tumulto. A polícia usou cassetetes.

    Para cansar os alunos, a água do colégio então foi cortada. Mesmo assim, em assembleia, eles decidiram passar a noite lá. Minutos depois, a água voltou.

    Por volta das 20h, cerca de cem estudantes continuavam dentro do colégio. Mãe de um deles, Rosália Jesus dos Santos tentou entregar comida ao filho. Levou um saco com pão, requeijão, iogurte, escova de dente e pasta, mas os policiais impediram que ela jogasse os mantimentos para o outro lado do portão.

    Rosália disse que não sabia do protesto até o filho, de 17 anos, ligar avisando. "Na cabeça deles, o protesto resolve, mas eu não sei se resolve, não...", lamentou.

    Sem detalhar, a polícia informou que havia cinco adultos junto com os adolescentes na escola, inclusive gente que não trabalha ali.

    Do lado de fora, pessoas ligadas a movimentos sociais, como o MPL (Movimento Passe Livre) e MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) chegaram por volta de 20h para uma vigília. Barracas e colchões foram colocados na rua.

    OUTRO LADO

    A secretaria estadual afirmou que a escola estadual Fernão Dias vai atender apenas alunos do ensino médio a partir de 2016. Hoje, há cerca de 213 alunos do ensino fundamental que serão migrados para a escola Goldofredo Furtado, a cerca de 1,5 km da escola atual. A pasta não confirma a mudança de alunos do ensino fundamental do período da tarde.

    A dirigente regional do centro-oeste, Rosangela Aparecida de Almeida Valim, afirmou que uma parte dos alunos com camisetas da escola invadiram o local e retiraram a diretora e sua equipe por volta das 7h. Ela disse ainda que há alunos de outros colégios, inclusive de ensino particulares, e outras pessoas que nem sequer são estudantes participando do protesto.

    Sobre a reclamação dos alunos de que não foram ouvidos pela dirigente, ela afirmou que houve um encontro na última quinta (5) no qual foi explicado como seria o processo de reorganização dos ciclos e para onde os alunos seriam transferidos.

    Valim confirmou que a diretora da escola registrou um boletim de ocorrência contra danificação do patrimônio público. "Somos a favor de todas as manifestações e as consideramos legítimas. Só que vivemos em um estado democrático de direito e que precisa ser respeitado. Esse grupo que ocupa o local não quer diálogo conosco e estão prejudicando os alunos", disse a dirigente.

    Colaborou MARLENE BERGAMO

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