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    Negócios sociais voltados à primeira infância são lacuna no mercado

    OLÍVIA FREITAS
    DE SÃO PAULO

    22/07/2015 16h23

    O artista plástico Roni Hirsch, 37, criou, no ano passado, o Erê Lab, um negócio que pretende transformar o espaço público para as crianças de até dez anos.

    Seu modelo de negócio social prevê criação, desenvolvimento, fabricação e instalação de mobiliário urbano lúdico, como objetos que simulam uma casinha na árvore ou um grande labirinto. Os brinquedos são planejados para casas, quintais, praças e espaços públicos das cidades.

    O projeto nasceu com o objetivo de que as crianças se apropriem da cidade desde pequenas.

    Motivado pelas manifestações de junho de 2013, quando se deu conta que a sociedade precisa de cidadania, Hirsch resolveu empreender. "Precisamos incentivar nossas crianças para ter experiências em suas cidades que vão transformá-las em bons cidadãos no futuro. Para que elas se apropriem desse território para si", explica.

    Com design próprio, o Erê Lab usa madeiras certificadas e trabalha para influenciar políticas públicas voltadas ao direito das crianças ao espaço comum a todos os cidadãos.

    O projeto mantém um fundo social no qual destina 10% das vendas para iniciativas privadas à compra de objetos para instalação em comunidades carentes.

    Iniciativas como esta demonstram que negócios socais voltados à primeira infância são uma das apostas diante de um cenário de crise econômica e da lacuna de investimento governamental e do próprio terceiro setor.

    É o que mostra análise da Artemisia, organização de fomento de negócios sociais de impacto, em parceria com a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, voltada à promoção do desenvolvimento da primeira infância, e o Instituto Alana, que atua na área de educação, comunicação e advogacy.

    Segundo os especialistas, a primeira infância, período que vai da gestação aos seis anos de idade, é uma das áreas que apresenta grande potencial de crescimento no país.

    A faixa etária que possui 20,9 milhões de crianças (10,2% da população brasileira) concentra apenas 10,5% dos investimentos públicos destinados à educação, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), de 2013.

    "Percebemos que existe claramente uma demanda para preparo dos pais, por um sistema de aprendizagem mais barato e de maternidade com parto humanizado", exemplifica Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia. "É uma série de necessidade para a baixa renda, que hoje as políticas públicas não estão sendo suficientes."

    Programas de apoio a gestantes e mães e ações voltadas para ganho de autonomia e segurança durante a gravidez e após o parto são nichos e lacunas no setor de negócios sociais destacados no mapeamento.

    Para a fase até os seis anos de idade, as oportunidades de elaboração de um negócio social destacadas no mapeamento são de criação de pequenos centros de permanência, educação e recreação, que podem ser por períodos determinados ou de tempo integral.

    Para fomentar start-ups da área, a Artemisia recebeu 291 inscritos em seu programa de aceleração.

    No mapeamento, outro nicho identificado é a ausência de projetos voltados às famílias de baixa renda, pois a maioria dos existentes dialoga com as classes alta e média.

    "Existe uma demanda muita grande por creches, só em São Paulo são 110 mil crianças esperando vaga. A baixa renda está disposta a pagar [para ter o filho matriculado]", diz Maure.

    CRECHE SEGURA

    De olho nesse mercado, surgiu o o projeto Creche Segura, com foco em profissionais de creches. A empresa atua na capacitação em primeiros socorros e prevenção de acidentes. O objetivo é realizar um pronto atendimento seguro, diminuir o risco de acidentes, promover a preservação da vida e saúde da criança e diminuir o índice de mortalidade apresentado nos acidentes em creches e escolinhas.

    A ideia do projeto nasceu quando a enfermeira Letícia Tapia, 33, foi convidada por uma amiga a dar um curso de primeiros-socorros na creche na qual matriculara seu filho. Enxergando potencial de mercado, Letícia foi estudar o setor e convidou o irmão e biomédico Leandro Spina, 28, e a enfermeira Najla Kern, 28, para fundar o negócio em 2014.

    "Infelizmente, as creches não são obrigadas a notificar acidentes, mas sabemos, por números de atendimentos hospitalares, que tem um alto índice de acidentes na primeira infância. Queremos diminuir esses dados", afirma Letícia.

    A partir de agosto o Creche Segura passará também a capacitar educadores de creches públicas da cidade de São Paulo por meio de parceira.

    FUNDAMENTOS

    Para Eduardo Marino, gerente de programas da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, os futuros empreendedores precisam entender os fundamentos para o desenvolvimento infantil, como questões emocionais, motoras e cognitivas.

    "A primeira infância é um negócio rentável, mas temos um mercado mal preparado. Se o empreendedor consegue desenvolver um bom modelo pedagógico, tem a possibilidade de trabalhar para os municípios", avalia Marino.

    Para a Artemísia, mesmo diante da crise, empreender nesse setor pode representar uma grande oportunidade. "A primeira infância é uma área que tem grandes necessidades e problemas e onde tem isso, vira negócio", afirma Maure. "A crise faz parte do próprio fenômeno de empreender."

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