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    Engenheiro relata como convive com esquizofrenia após quatro surtos

    CLÁUDIA COLLUCCI
    da Folha de S.Paulo

    08/06/2009 13h43

    Em um dos surtos de esquizofrenia, o engenheiro José Alberto Orsi, 41, acreditou que estava sendo monitorado por agentes da FBI [a polícia federal dos EUA] e da CIA [agência de inteligência norte-americana]. Em outro, imaginou ser Adão e se jogou nu em uma piscina. Depois, achou que era a reencarnação de Jesus Cristo.

    Foram seis anos de sintomas, quatro surtos psicóticos e seis internações em clínicas psiquiátricas no Brasil e nos Estados Unidos até receber o diagnóstico de transtorno esquizoafetivo -uma doença que associa a esquizofrenia e o distúrbio bipolar.

    Há oito anos, Orsi mantém a doença sob controle com o uso de medicamentos (antipsicótico, antidepressivo e estabilizador de humor).

    Eduardo Knapp/Folha Imagem
    José Alberto Orsi conta como convive com a doença após 4 surtos; ele dirige associação de familiares e portadores de esquizofrenia
    José Alberto Orsi conta como convive com a doença após 4 surtos; ele dirige associação de familiares e portadores de esquizofrenia

    É diretor da Abre (uma associação de amigos, familiares e portadores de esquizofrenia), acaba de vencer um concurso nacional de pintura -com 500 participantes- e planeja voltar a estudar. Dessa vez, o engenheiro quer cursar psicanálise.

    Filho de portador de esquizofrenia, Orsi não imaginava que herdaria a mesma doença paterna. Na adolescência, época em que o transtorno costuma se manifestar, a mãe, por precaução, o levou para uma avaliação psiquiátrica, mas nada de errado foi diagnosticado.

    Aos 17 anos, ele foi aprovado no vestibular de engenharia civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, formou-se e logo começou a trabalhar na área.

    Em 1995, aos 28 anos, quando atuava na obra do edifício Plaza Centenário, conhecido como Robocop, na zona sul de São Paulo, teve uma primeira crise. Na época, ela foi atribuída à depressão.

    "Na realidade, foi o primeiro sinal da esquizofrenia. Estava namorando sério uma garota, tinha um bom emprego. Achava que era um predestinado, que a qualquer momento aconteceria alguma coisa mágica que me levaria para os Estados Unidos ou para a Europa. Mas aí fui transferido para uma obra de shopping em Santo André. Fiquei deprimido, com síndrome do pânico", conta.

    Mudança de país

    Com o uso dos antidepressivos, ganhou peso -cerca de 20 quilos em dois meses. Depois de uma licença médica, ele decidiu sair do emprego e se mudou para o Mississippi (EUA) para estudar inglês.

    Quatro meses depois, obteve o certificado do Toefl (exame que avalia a escrita, a leitura e a habilidade oral em inglês) e ingressou na Universidade do Mississippi, onde começou a fazer mestrado.

    A metodologia rígida de uma professora americana e uma nota D, na disciplina de marketing, foram o gatilho que desencadeou o primeiro surto psicótico. "Tinha delírios, alucinações visuais e auditivas, de que estava sendo monitorado, conversava telepaticamente com a TV. Achava que pessoas da CIA e do FBI me monitoravam e que iriam me contratar."

    Um dia, no auge do surto, ele acreditou que fosse Adão. "Tirei a roupa, pulei na piscina e fiquei esperando pelas Evas. Fui internado por duas semanas em uma clínica psiquiátrica."

    A irmã o levou para morar em Miami. Em julho de 1998, os delírios voltaram. "Achava que fosse a reencarnação de Jesus Cristo. Fazia uma série de associações improváveis que, para mim, eram verossímeis." Foi quando recebeu o primeiro diagnóstico de esquizofrenia.

    Orsi voltou ao Brasil, passou por consultas em vários psiquiatras, mas diz que nenhum deles confirmou o diagnóstico recebido nos EUA.

    Em janeiro de 1999, ele voltou ao Mississipi para terminar o mestrado e, logo depois, conseguiu um emprego na Microsoft, em Seattle, como tradutor.

    "Eu me sentia no topo do mundo. Havia parado de tomar a medicação por conta própria, não acreditava que tivesse esquizofrenia. O emprego na Microsoft elevou minha autoestima, ganhava bem, tinha um carro do ano, morava em um condomínio legal. Mas, por conta de um desentendimento com uma colega de trabalho, pedi para sair."

    Em dezembro de 1999, decidiu voltar para Miami. Surtou no meio do caminho, no quarto de um hotel, em Montana. "Voltaram os delírios, as alucinações. Achava que havia uma bomba no hotel, saí correndo, peguei o carro no meio da nevasca. Parei 200 metros depois, achando que estava encurralado. Chamaram a polícia."

    Levado para uma delegacia, Orsi foi transferido para um hotel, mas os delírios voltaram. "Comecei a gritar e me removeram para uma clínica. Lá, decidi que não tinha mais condições de ficar nos EUA."

    Último surto

    Já no Brasil, o engenheiro foi novamente internado por duas semanas e teve, finalmente, o diagnóstico fechado para esquizoafetividade. Em maio de 2001, viveu o último surto e a última internação psiquiátrica.

    Desde então, faz terapia ocupacional e segue à risca o tratamento medicamentoso -situação que apenas 50% dos portadores de esquizofrenia conseguem manter.

    Segundo o psiquiatra Helio Elkis, do Instituto de Psiquiatria da USP, sem tratamento, 88% dos doentes têm recaídas (surtos). O não controle do surto leva o paciente à degeneração mais rapidamente.

    "Pouca gente sabe e consegue entender que a esquizofrenia é uma doença degenerativa, como o Alzheimer. Cada surto significa perda de neurônios e declínio mais rápido do paciente. Quanto mais surtos, maior a perda das funções psíquicas", diz o médico.

    Apesar de a doença estar controlada, Orsi diz que se angustia quando pensa nas perdas que sofreu em razão da esquizofrenia. "A doença provocou um tsunami na minha vida. Perdi muita coisa, inclusive, penso eu, um pouco da minha cognição. Minha memória é muito fraca, tenho dificuldade de raciocínio e concentração."

    Ainda assim, desde 2005 ele diz que "retomou as rédeas da sua vida." No final de 2006, foi contratado pela Abre. Ele se autointitula um "consultor de saúde mental". "Participo de grupos de acolhimento e oriento portadores de esquizofrenia sobre seus direitos."

    Orsi mora com a mãe, em um apartamento na região dos Jardins, em São Paulo. Deseja encontrar uma companheira, mas filhos não estão nos seus planos. "Não quero ter filhos, tenho muito medo de gerar filhos com esquizofrenia."

    A doença é multifatorial, mas também tem um componente genético. Segundo especialistas, se um dos pais sofrer de esquizofrenia, o risco de gerar um filho com a doença é de entre 10% e 20%.

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