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    Prestes a cair para a Série C, só sobrou a fé para a torcida da Portuguesa

    ALEX SABINO
    DE SÃO PAULO

    12/10/2014 02h00

    São 20h50 de terça-feira (7), mas parece madrugada na rua Azurita. O silêncio só é quebrado pela conversa de três policiais ao lado de uma viatura, faróis acessos para diminuir a escuridão.

    A não ser por oito torcedores do Vasco bebendo cerveja, não há qualquer referência a futebol ao lado do estádio do Canindé. É onde, uma hora depois, a Portuguesa vai entrar em campo pelo Campeonato Brasileiro da Série B.

    Anita Alves do Nascimento Preto, 62, é dona de bar na Azurita desde os tempos em que era casada com um português torcedor da Lusa. "A Portuguesa quer me matar de fome. Não tem nada. Eu só abro o bar porque estou por aqui. Tem gente que desistiu. O moço do espetinho nem veio hoje. Eu fico de teimosa", afirma.

    Até aquela hora, ela tinha vendido apenas duas cervejas. O garçom do tradicional restaurante Galinhada do Bahia, mãos nos bolsos, apenas observa a cena.

    "Vasco!"

    Os oito vascaínos acenam para o ônibus que traz os jogadores cariocas. Nem tentam se aproximar do veículo. Por via das dúvidas, são vigiados por 12 policiais.

    "Clima de velório, né? Nem parece que vai ter jogo", observa, agasalho da seleção de Portugal, o auxiliar administrativo Gustavo Paulo Moreira Barbosa, 32, antes de soltar um palavrão amaldiçoando a CBF.

    Do outro lado do muro, dentro do Canindé, o cenário não é muito diferente. A Portuguesa está abandonada à própria sorte. Os bares e restaurantes dentro do clube sofrem com a falta de movimento.

    A média de público, em casa, é de 1.125 pessoas na Série B. Para tentar atrair gente, o preço do ingresso em algumas partidas foi reduzido para R$ 10. Sem grande sucesso. Em confrontos com Boa Esporte, Bragantino, Avaí, Oeste, Paraná, América-MG, Sampaio Correa e Atlético-GO foram menos de mil entradas vendidas.

    Contra o Vasco, a promoção não vale. A arquibancada custa R$ 40, com a diretoria de olho no dinheiro da torcida carioca. Foi o melhor público que o Canindé viu na Segunda Divisão de 2014: 3.062 pagantes. Mais de dois mil vascaínos.

    "Para nós, que estamos aqui toda a semana, poderia ser mais barato, não é?", se queixa o comerciante Carlos Manuel Nascimento, 43, o Carlão. "Manuel com 'u', viu? Manoel com 'o' não é português", ressalta.

    Não que ele precise se preocupar em pagar. Os integrantes dos Leões da Fabulosa, a única torcida organizada da Portuguesa, recebem uma cota de ingressos. Assim com os departamentos de futebol feminino e categorias de base. Não há conta quanto a isso, mas sem os cartões verdes com o escudo do clube escrito "vale ingresso", o estádio ficaria ainda mais deserto.

    "Quer ver o jogo? Espera aí...", diz um dos diretores dos Leões. Instantes depois, ele volta com um cartão para a reportagem da Folha.

    "Não precisa"

    "Faço questão. Pega este vale e vamos com a gente na arquibancada", insiste.

    A sede da organizada é cedida pela Lusa na via Pascoal Ranieri, uma rua sem saída, como parece ser a situação do próprio clube que ruma, a passos largos, para a Série C. Lanterna do torneio, está a 12 pontos de escapar da zona de rebaixamento a nove rodadas do fim.

    "Eu acho que vai reagir", acredita Wagner Luis Silva, 50, o Pelota. Com orgulho, ele aponta para o filho, o Pelotinha, um dos nove torcedores adolescente que formam a bateria da torcida que vai entrar no Canindé para o jogo.

    A declaração de otimismo encontra reações de raiva e divertimento nos amigos. Na roda da conversa, a conta é que o time precisa de dez vitórias. Isso antes mesmo de enfrentar o Vasco. Pelota descarta as opiniões contrárias.

    "O que sobra para nós se não for a fé?"

    A pergunta faz todos se calarem.

    O CAMINHO DA QUEDA

    Há menos de um ano, não era preciso falar em fé. A Portuguesa havia terminado o Campeonato Brasileiro em 11º, colocação honrosa para equipe que se mantinha na elite aos trancos e barrancos, com orçamento inferior ao dos rivais.

    A escalação irregular de Héverton, que levou à perda de quatro pontos, fez o time ser rebaixado. O que, em um primeiro momento, mobilizou todos os que gostam do clube a tentarem mudar a situação. Protesto fechou a Avenida Paulista, em São Paulo.

    O que poderia ser o momento de virada na história da Lusa virou depressão. A queda para a Série B foi confirmada em meio a uma enxurrada de ações na Justiça contra a decisão do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva, uma sigla que, a acreditar pelas reclamações da torcida lusitana, é dirigida pelo diabo em pessoa). Por medo de ser preso e descumprir uma ordem judicial, o presidente Ilídio Lico mandou os jogadores saírem de campo no meio do confronto com o Joinville, na primeira rodada. A equipe foi multada e declarada derrotada na partida..

    A Portuguesa começou espiral de queda que faz seus torcedores questionarem o futuro.

    As despesas são de R$ 1,4 milhão por mês e receita é de R$ 700 ml. A diretoria conseguiu patrocínio da DL Tablet por R$ 1,2 milhão parcelados mensalmente. Sem dinheiro, Lico pediu adiantamento de receita do contrato e o valor caiu para R$ 800 mil.

    Para ajudar a aliviar o caixa, a Federação Paulista de Futebol adiantou R$ 2,3 milhões de receitas dos próximos estaduais. O dinheiro já foi gasto no pagamento de débitos de curto prazo.

    A Portuguesa já teve cinco técnicos neste ano. Guto Ferreira, Argel Fucks, Marcelo Veiga e Silas passaram pelo comando da equipe antes do retorno de Vágner Benazzi, com duas passagens anteriores pelo Canindé. Para evitar a queda, os diretores lhe prometeram prêmio de R$ 1 milhão. Pela situação atual, poderiam ter prometido R$ 1 bilhão que daria na mesma.

    O elenco tem 48 jogadores. Em conversa com conselheiros, Benazzi disse que metade não tem condições técnicas de permanecer. Quer trabalhar apenas com 24 nomes. Isso vai se tornar um problema porque há casos de atletas que não interessam mais e têm contratos que vão além de 2015. A cartolagem os tem chamado e oferecido dinheiro para rescindir, pagando menos do que receberiam cumprindo o que foi estabelecido no acordo.

    A dívida da Portuguesa gira na casa dos R$ 100 milhões. Do total, R$ 25 milhões são de ações trabalhistas da advogada Gislaine Nunes. A diretoria de futebol já esteve nas mãos de Claudio Santiago e Fernando Barril antes de Benazzi pedir o retorno de Luis Iaúca, que estava no clube até o ano passado.

    A venda de Luís Ricardo para o São Paulo, sem anuência da empresa LA Sports, dona de 20% do lateral, pode fazer o clube ter de pagar indenização de R$ 17 milhões.

    Estressado, no meio da campanha vexatória, o presidente viajou para Portugal. Quando foi eleito, no final de 2013, a vaga na Série A estava assegurada. Ao tomar posse, o rebaixamento era realidade. Pressionado por todos os lados, administrando um clube sem dinheiro, ele confessou a amigos ter pensado em largar tudo. Não teve coragem de fazê-lo. Mesmo com sua família não aceitando que ele continue no cargo.

    "Você não queria estar no meu lugar, meu filho. Nem eu queria, para dizer a verdade", disse Lico à Folha, no meio da confusão envolvendo Héverton, um dos jogadores que entrou com ação trabalhista contra a Lusa.

    A responsabilidade pela escalação irregular do jogador é alvo de investigação do Ministério Público. Apesar de muito barulho feito pelo procurador Roberto Senise, não há nenhuma conclusão. A sindicância interna no clube também ainda não puniu ninguém. Convocado, o ex-presidente Manuel da Lupa, nome maldito entre vários torcedores, ainda não apareceu para se defender.

    O TIME QUE VAI SER O CAMPEÃO

    No bar dentro da sede dos Leões da Fabulosa, o assunto poderia ser a crise financeira. A indigência técnica da equipe. As arquibancadas desertas em dias de jogos. O abandono da sede social. A cartolagem... Não faltariam temas.

    Entre uma cerveja e outra e com a parede forrada de pôsteres do que eles mesmos chamam de "tempos de glórias", as 20 e poucas pessoas jogam conversa fora, falam sobre a vida e fazem brincadeiras de velhos amigos que se encontram à noite, uma vez a cada 15 dias, com o pretexto de assistir a um jogo de futebol.

    Carlão aponta para a imagem de Dener na parede, o menino que sintetizou, nos 23 anos em que viveu, tudo o que representa a Portuguesa. O potencial não aproveitado, os lampejos de alegria, a falta de consistência. Ele morreu em 1994, vítima de acidente de carro. Seu filho jogava nas categorias de base da Lusa, mas abandonou o futebol e hoje vive na mesma Vila Ede, zona norte da capital, que o pai cresceu.

    "O Dener me deu uma camisa da Portuguesa. Fui ao enterro dele vestido com ela", diz Carlão, a voz embargada. "Jogava demais. Craque. Pena que era tão louco."

    Na hora de ir para o estádio, as luzes são apagadas. A porta da sede é baixada enquanto os últimos torcedores sem R$ 40 no bolso tentam conseguir um vale ingresso. No curto caminho para a entrada do Canindé, eles vão caminhando, rindo e se divertindo. Tiram sarro de quem se assusta com as bombas e fogos de artifício. Sabem que, em poucos minutos, a alegria vai dar lugar à raiva. Muita raiva. Um senso de frustração, injustiça e de sentimento do que poderia ter sido.

    Se o argentino Javier Castrilli não tivesse marcado dois pênaltis para o Corinthians na semifinal do Paulista de 1998. Se o chute de Aílton, do Grêmio, fosse para fora na decisão do Brasileiro de 1996. Se Héverton não tivesse sido escalado.

    Se o clube beneficiado não fosse o Fluminense, do Rio de Janeiro, cidade onde fica o STJD.

    Se a Portuguesa ainda estivesse na Série A...

    Derrota diante do Vasco e, no último sábado (11), contra o América-MG, deixou a Portuguesa perto do rebaixamento para a Série C. Equipe é lanterna na Segunda Divisão|

    "Fácil é torcer pelo Corinthians. Paixão é torcer pela Portuguesa. Isso aqui é paixão. Não ganha nada, nunca é campeão, vive uma crise atrás da outra. Fiéis somos nós. A Portuguesa é diferente de todos os outros", diz o gerente de vendas Marcelo Vieira Cabral, 38, conselheiro da Lusa e presidente dos Leões da Fabulosa.

    Como todos esperavam, a arquibancada está vazia. Torcedores xingam a Rede Globo, os adversários, a arbitragem, os próprios jogadores da Portuguesa e Vágner Benazzi. Não necessariamente nessa ordem.

    Os cerca de 40 integrantes da organizada ficam atrás do gol e começam a bater bumbo. "Olê, olê, eu sou da Lusa de coração, eu sou do time que vai ser o campeão..."

    Se pensam na ironia disso tudo, não está claro. Porque uma das poucas coisas certas no momento é que a Portuguesa não será campeã.

    A crise é tão séria que conselheiros falam nos bastidores, pedindo para não serem identificados, que o futebol do clube pode fechar em 2015. Há proposta do Audax para uma parceria de jogadores e administração do departamento profissional. Ainda não há resposta. Por enquanto, está no mesmo patamar do projeto de vender o terreno do Canindé para a construção de prédios e outro estádio para o clube. É apenas conversa que muitos sonham que se torne realidade.

    Em 90 minutos, a Portuguesa não consegue criar nenhuma chance para marcar. Também jogando mal e sem se esforçar, o Vasco vence por 1 a 0. Neste sábado (11), nova derrota. Em Belo Horizonte, a Lusa perdeu por 3 a 1 para o América-MG.

    "Se acabar, pode ter certeza que no último dia de vida da Portuguesa estarei aqui. E outros também estarão. E se acabar, não vou torcer por mais ninguém", desabafa Cabral.

    Na saída do estádio, dona Anita está na mesma cadeira de antes, olhando o pequeno público passar por ela.

    "Como foi a noite, dona Anita?"

    "Ruim. A Portuguesa quer matar todo mundo de fome."

    Em 2015, a realidade do clube deverá ser a Série C, onde será mais difícil ainda conseguir patrocinador e a visibilidade na mídia será próxima de zero. Mesmo para um time acostumado a problemas, será um mergulho no desconhecido.

    "Fé, meu amigo. O jeito é ter fé", insiste Pelota. "No fim de tudo, torcer pela Portuguesa é um dom".

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