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    Corrupção no futebol

    Corrupção na Fifa cresceu junto com as verbas de TV das Copas do Mundo

    EDUARDO GERAQUE
    DE SÃO PAULO

    09/12/2017 02h00

    A Copa do Mundo de 2002 representou um marco para o futebol brasileiro dentro de campo pela conquista do pentacampeonato. Fora dele, a competição teve uma repercussão histórica para os cofres da Fifa.

    Há 15 anos, as receitas de televisão do primeiro mundial disputado na Ásia passaram dos US$ 782 milhões, o que representou um aumento de 466% em relação à Copa da França, em 1998.

    De acordo com um estudo feito pela BDO Brasil, a entidade máxima do futebol viu um salto de 10.000% de 1982 a 2010 na arrecadação apenas com o dinheiro vindo das grandes cadeias de televisão.

    "A Fifa arrecadou bilhões de dólares em seus ciclos de Copa do Mundo. Ela não paga impostos na Suíça e nem em outros lugares. Apenas recentemente passou a publicar relatórios financeiros um pouco mais completos", diz Bruce Bean, professor de Direito da Universidade do Estado de Michigan (EUA).

    De acordo com o especialista em grandes conglomerados mundiais, a tentativa da Fifa de exibir transparência ainda não tem dado certo.

    "As grandes empresas de auditoria financeira deixaram de servir a entidade por causa da falta de informações fidedignas do órgão", afirma Bean à Folha.

    Para o estudioso, a corrupção começou a impregnar o futebol em 1974, a partir do Mundial da Alemanha.

    "Exatamente quando teve início a cobertura televisiva das Copas e os grandes patrocinadores comerciais passaram a ser atraídos pelo futebol", diz Bean.

    O grande novelo da corrupção na Fifa começou a se desenrolar em 2001, com a quebra da ISL, gigante do marketing esportivo mundial sediada na Suíça.

    A empresa, segundo investigações das autoridades suíças, pagava propina para dirigentes, como o ex-presidente da Fifa João Havelange (1916-2016) e Ricardo Teixeira, mandatário da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) até 2012. Com isso, ela obtinha vantagens na compra dos direitos de TV.

    FIFAGATE

    Outra investigação, dessa vez nos Estados Unidos, em 2015, tornou réus nove executivos da Fifa, entre eles os ex-presidentes da Concacaf (Confederação das Américas do Norte e Central), Conmebol, que representa as federações da América do Sul, e da CBF, José Maria Marin.

    De acordo com as acusações, que englobam ações de suborno, fraudes e de lavagem de dinheiro, cartolas receberam pagamentos ilegais, que começaram em 1991 e atingiram duas gerações de dirigentes e executivos, que movimentaram mais de US$ 150 milhões.

    Parte desse dinheiro foi pago para obtenção de vantagens por empresas para terem os direitos de transmissão de partidas das eliminatórias do Mundial.

    "Nós temos evidências robustas de que a Fifa não mudou sua estrutura de verdade após as investigações de 2015. A entidade continua se isentando de fazer uma significativa prestação de contas", afirma Bruce Bean.

    Números oficiais da Fifa informam que entre 2011 e 2014 70% dos US$ 5,7 bilhões, receita total da federação, vieram da venda dos direitos de TV. A maior parte desse bolo vem da Copa do Mundo.

    "É normal as pessoas pensarem que hoje há mais corrupção. Mas, até onde sabemos, não há provas de que isso seja verdade", disse à Folha o pesquisador alemão Wolfgang Maennig.

    Professor na Universidade de Hamburgo e ex-remador olímpico, Maennig é um dos estudiosos dos megaeventos esportivos.

    "Os casos de corrupção na Olimpíada existem desde a Era Antiga. Hoje, eles são mais divulgados", diz o pesquisador de Hamburgo, para quem por volta de apenas 5% das ações são descobertas pelas investigações.

    Entre os chavões de "mais transparência" e tomar decisões de forma mais democrática, como "escolher as sedes dos grandes eventos pelo voto aberto", o pesquisador alemão defende uma remuneração justa aos executivos.

    "Pague salários decentes. Principalmente para aqueles que tiveram uma carreira limpa em seus esportes", afirma.

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