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    Livro "As Idades de Lulu" permanece atual após mais de duas décadas

    DE SÃO PAULO

    28/11/2015 02h00

    AS IDADES DE LULU

    No prefácio à nova edição na Espanha, inteiramente revista, de "As Idades de Lulu" -publicada 15 anos depois do sucesso de estreia, em 1989, e da versão muito discutida para o cinema, por Bigas Luna-, a autora demonstra alguma surpresa por seu romance atrair interesse de novos leitores e não ter se tornado datado.

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    Ao lermos hoje as aventuras eróticas e amorosas dessa fascinante personagem de 15 anos, seduzida por Pablo, amigo de seu irmão, e as confrontarmos com a sacanagem gourmet —clichê e machista— de "Cinquenta Tons de Cinza", fica evidente a atualidade do romance da espanhola Almudena Grandes.

    O processo de formação sexual da ninfeta Lulu é mais bruto, transgressor, selvagem, ousado e literariamente melhor resolvido que o pastiche blasé de E.L. James e seus brinquedinhos de sex shop.

    Almudena começou a escrever "As Idades de Lulu" aos 27 anos, quando fazia textos por encomenda para sobreviver. Descartou tudo que tinha produzido, exceto as primeiras páginas dessa narrativa vertiginosa e quase jornalística. (REYNALDO DAMAZIO)

    AUTOR: Almudena Grandes
    TRADUÇÃO: Luis Carlos Cabral
    EDITORA: Bertrand Brasil
    QUANTO: R$ 35 (252 págs.) e R$ 24 (e-book)
    AVALIAÇÃO: bom

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    A LINHA AZUL

    É, dona Ingrid, sair da não-ficção para a ficção não é mole não. Bem que eu desconfiei quando vi o "blurb" da "Paris Match" elogiando o primeiro romance da autora de "Não Há Silêncio que Não Termine" —memórias dos seis anos em que a ex-candidata à presidência da Colômbia passou sob as armas das Farc. Afinal, "Lembra os livros de Isabel Allende" não é convite dos mais tentadores...

    Vamos lá: na Argentina dos anos 1970, Julia descobre que tem o dom de prever o futuro —entre outras percepções extrassensoriais— e se apaixona pelo militante antiditadura Theo. Ambos são presos e torturados; fogem e se reencontram anos depois.

    A mistura de realismo mágico com panfletos políticos não caiu bem. E, feliz ou infelizmente, a maior tortura que o leitor verá no livro é em relação à linguagem, crivada de clichês; os personagens são óbvios e as descrições, mais doces que doce de batata-doce. (RONALDO BRESSANE)

    AUTOR: Ingrid Betancourt
    TRADUÇÃO: Julia da Rosa Simões
    EDITORA: Alfaguara
    QUANTO: R$ 44,90 (280 págs.) e R$ 29,90 (e-book)
    AVALIAÇÃO: ruim

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    O NEGOCIANTE DE INÍCIOS DE ROMANCE

    A influência artística e literária age por irradiação. Um músico, pintor ou escritor não precisa beber diretamente numa fonte para ser influenciado por ela. A premissa sensacional desse romance, por exemplo, é puro Philip K. Dick, tendo o romeno Matéi Visniec lido ou não as bizarrices paranoicas do autor ianque.

    Quase ninguém sabe, mas existe uma agência literária secreta que há décadas vem influenciando a ficção mundial. De que maneira? Sussurrando no ouvido de escritores promissores, mas ainda mal orientados, a frase que mudará para sempre sua vida. Sussurraram no ouvido de Melville o início de "Moby Dick"; no de Kafka, o início de "O Processo"; no de Camus, o de "O Estrangeiro" e assim por diante. H.G. Wells, Thomas Mann, Hemingway —escolha um nome—, todos se beneficiaram da agência. Será que Machado, Rosa e Clarice também?

    Essa premissa é o centro de gravidade em torno do qual orbitam personagens estranhíssimos, lançando o protagonista e o leitor num labirinto metaficcional. (NELSON DE OLIVEIRA)

    AUTOR: Matéi Visniec
    TRADUÇÃO: Tanty Ungureanu
    EDITORA: É Realizações
    QUANTO: R$ 59,90 (384 págs.)
    AVALIAÇÃO: muito bom

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    TRAZ TEU AMOR PRA MIM E OUTROS CONTOS

    Essa é daquelas edições do tipo cremosa-e-crocante, perfeita pra presentear: fininha, bem ilustrada, fonte grande, arte classuda, tradução esperta e na capa um par de medalhões de aura maldita. Bukowski e Crumb se juntaram, entre 1975 e 1984, nesta tríplice parceria: "Traz Teu Amor pra Mim", "Não Tem Negócio" e "Bop Bop Contra Aquela Cortina".

    O primeiro conto, tão engraçado quanto patético -mistura em que Buk era mestre-, conta a visita do amante à amada numa clínica para doentes mentais. O segundo enquadra Manny Hyman, comediante de stand-up absolutamente sem graça, em noite azarada em Las Vegas —a imagem de Manny ao espelho, mexendo na língua viscosa por conta do alcoolismo, é um dos retratos que Crumb fez de Bukowski.

    O terceiro nem é dos melhores do velho beberrão, mas vale pelo registro memorialístico da adolescência —quando começou a beber, fumar, furtar, frequentar prostitutas e exercer sua indomável iconoclastia. (RB)

    AUTOR: Charles Bukowski
    ILUSTRAÇÕES: Robert Crumb
    TRADUÇÃO: Joca Reiners Terron
    EDITORA: Livros da Raposa Vermelha
    QUANTO: R$ 29,90 (64 págs.)
    AVALIAÇÃO: muito bom

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    O DIA DO GAFANHOTO E OUTROS TEXTOS

    Quando começou a elaborar sua novela mais famosa, o roteirista novaiorquino Nathanael West vivia, como seu protagonista, o pintor Tod Hackett, em quartinhos no Hollywood Boulevard, onde conheceu aspirantes ao sonho do "star system" -atrizes prostitutas, palhaços fracassados, cretinos fundamentais como Homer Simpson (sim, o original), que desandam para o crime. "Seus personagens perambulam em um mundo destroçado por um caos econômico absoluto e pela esperança em dias melhores, pela fantasia de sucesso ou de recuperação diante do existencialmente irreparável", escreve Alcebíades Diniz no posfácio à bela reedição de "O Dia do Gafanhoto e Outros Textos" (que inclui quatro contos, dois ensaios e o poema "Queimem as Cidades").

    Nesse painel das misérias humanas que vivem a Depressão dos EUA sob o "sonho americano", West recorre à bíblica parábola da praga dos gafanhotos para dar sua visão da nascente -e autodevoradora- sociedade do espetáculo. Há, nessa obra seminal da literatura norte-americana do século 20, a confluência da tragédia grega com a experimentação das vanguardas dos anos 1920, em especial o surrealismo, que surge pela força visual da narrativa -em destaque, o apocalíptico final. (RB)

    AUTOR: Nathaniel West
    TRADUÇÃO: Alcebíades Diniz
    EDITORA: Carambaia
    QUANTO: R$ 87,90 (346 págs.)
    AVALIAÇÃO: ótimo

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    ROSA CANDIDA

    O que seu nome tem de impronunciável, sua escrita tem de deliciosa: vale a pena se deixar embriagar pelas cores, pelos odores e pelas delicadezas dessa narrativa da islandesa Audur Ava Ólafsdóttir.

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    O livro que fez dela uma celebridade literária internacional -traduzido em mais de 20 línguas- é um "romance de formação" sobre um jovem apaixonado pelas flores, especialmente por essa variedade rara de rosa de oito pétalas -amor em comum com a mãe que acabou de perder num trágico acidente.

    Aturdido, ele deixa o pai quase octogenário, o gêmeo autista e a filha recém-nascida de uma relação sexual casual, e sai do país para trabalhar no jardim de um mosteiro. Segue-se um processo de autodescoberta que o fará florescer de menino em homem. (CAIO LIUDVIK)

    AUTOR: Audur Ava Ólafsdóttir
    TRADUÇÃO: André Telles
    EDITORA: Alfaguara
    QUANTO: R$ 44,90 (304 págs.) e R$ 29,90 (e-book)
    AVALIAÇÃO: ótimo

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