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    Guitarrista Wayne Kramer fala sobre a cidade de Detroit

    IVAN FINOTTI
    da Folha de S.Paulo

    14/12/2008 08h59

    Wayne Kramer cresceu em uma cidade chamada Detroit, onde fabricavam-se carros, havia abundância de empregos e moravam 1,7 milhões de pessoas. Trinta anos depois, menos de 1 milhão de moradores resiste à fantástica queda da indústria automobilística.

    Wayne Kramer não é um deles. Após alcançar o respeito com sua banda cult MC5, o guitarrista morou em Londres, Nova York e está em Los Angeles há mais de 15 anos.

    "Em 1979, saí de lá. Havia muita violência, armas, drogas, maus elementos e nada de trabalho para músicos. Não havia mais trabalho para ninguém", contou à Folha, por telefone.

    Leia a entrevista a seguir.

    Folha - Além do nome do grupo --os "Cinco de Motor City"--, como o MC5 foi influenciado pelo entorno socioeconômico de Detroit?

    Wayne Kramer - Durante a Segunda Guerra, Detroit foi um centro bélico de fabricação de tanques, jipes, caminhões, aviões etc. Com o fim da guerra, essa grande capacidade industrial foi transformada para a economia dos tempos de paz.

    Reprodução
    Fábrica da Ford em Detroit, nos anos 1930; colapso na indústria automobilística trouxe desafios para a cidade americana
    Fábrica da Ford em Detroit, nos anos 1930; colapso na indústria automobilística trouxe desafios para a cidade americana

    Passou-se a fabricar muitos automóveis ali. O lado bom é que se criou um clima positivo, de muito trabalho. Soldados podiam voltar da guerra e conseguir um bom emprego ali. Pessoas podiam vir de outros Estados, muitos brancos e negros do sul vieram.

    Um homem podia criar uma família, ter um carro, talvez dois, pagar seguro-saúde, mandar seus filhos para a escola e tirar férias. Era o sonho americano, e ele fez sentido por algum tempo.

    Havia abundância em Detroit nos anos 50 e 60, e isso permitiu que garotos como eu tivessem uma guitarra elétrica.

    Folha - Esse era o lado bom. E o ruim?

    Kramer -A indústria automobilística queria vender carros, estava no negócio pelo lucro. Por isso, conspirou com a indústria da borracha e com as companhias de petróleo para destruir o sistema de transporte existente. Os EUA tinham uma grande malha ferroviária, grandes sistemas de bondes nas cidades --como ainda há em São Francisco. Muitos deles eram elétricos, não poluentes.

    Mas as Big Three [Três Grandes: GM, Ford e Chrysler], as indústrias de pneu e as Sete Irmãs [Esso, Shell, Texaco e outras companhias de petróleo] compraram esses sistemas e os destruíram para que pudessem vender mais carros. "Veja os Estados Unidos em seu Chevrolet" era o anúncio da época.

    Tudo isso funcionou até que a primeira crise do petróleo acabou com a festa.

    Folha - Vocês ou os pais de vocês trabalhavam na indústria automobilística?

    Kramer -Sim, os pais de todos os membros da banda trabalhavam em empresas relacionadas à indústria automobilística de Detroit. Tudo vem dos empregos. Emprego é a chave; é a cola que mantém a sociedade unida. E, quando os empregos começaram a ir embora de Detroit, a sociedade começou a ruir.

    Folha - Em 1969, quando o MC5 lançou seu primeiro álbum, Detroit ainda funcionava bem, certo?

    Kramer - Sim, você podia comprar das Três Grandes esportivos de 400 cavalos. A gasolina custava US$ 0,35 o galão.

    Folha - Mas vocês já criticavam...

    Kramer -Sim, porque, com as grandes empresas, apareceram os sindicatos. Cresci numa cidade e numa época em que os sindicatos eram vistos como nossos líderes.

    Era a época da Guerra do Vietnã, e começamos a aplicar os princípios do sindicalismo à nossa frustração com os caminhos que o país seguia.

    Quando vi como as grandes companhias faziam as coisas, como a polícia agia, como o governo tratava os assuntos, eu não podia ficar quieto.

    Folha - Como vocês se colocavam ao lado de bandas de sucesso que não eram tão políticas, como Byrds ou Doors?

    Kramer -Bem, todos nós queríamos fazer sucesso. O MC5 queria fazer sucesso, mas nós também queríamos falar sobre o mundo em que realmente vivíamos, e não sobre um mundo idílico. Estava mais interessado em cantar sobre o que realmente acontecia. Era como fazer canções sindicais.

    Folha - Quando você era adolescente, a cidade era dividida em guetos sociais ou raciais?

    Kramer - Detroit era muito bem integrada. Cresci com amigos negros. Não percebia que em outras cidades dos EUA os brancos viviam num bairro e os negros em outro.

    Só vi isso quando comecei a viajar com a banda, aos 19 anos.

    Folha - Como o colapso desse sistema em Detroit afeta o imaginário do norte-americano médio?

    Kramer - Há uma espécie de confusão. Hoje, o americano não pode pagar por casa, seguro-saúde, carro e férias, como seu pai pôde. Ele está pensando no que deu errado. Há um pouco de incredulidade no ar.

    Folha - E hoje qual é sua ligação com a cidade?

    Kramer - Detroit ainda é meu lar espiritual e cultural. Minhas raízes estão lá. Mas é uma nova cidade. Quando cresci, havia 1,7 milhão de pessoas lá. E agora está abaixo de 1 milhão.
    É um lugar radicalmente diferente, uma cidade de pequena para média. Um lugar difícil de viver, mesmo para quem tem a pele grossa como eu.

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