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    Contardo Calligaris estreia no teatro com "O Homem da Tarja Preta"

    LUCAS NEVES
    da Folha de S.Paulo

    18/03/2009 09h56

    A crise de identidade, mote do psicanalista e colunista da Folha Contardo Calligaris, 60, em sua estreia como dramaturgo, estava na raiz do texto que primeiro o atraiu ao teatro.

    Aos 18 anos, em Milão, ele acompanhou os ensaios de uma montagem de "O Jardim das Cerejeiras", de Anton Tchecov (1860-1904), flagrante da derrocada financeira e de valores da aristocracia rural russa no começo do século 20.

    Leonardo Wen/Folha Imagem
    O ator Ricardo Bittencourt em ensaio da peça "O Homem da Tarja Preta", de Calligaris
    O ator Ricardo Bittencourt em ensaio da peça "O Homem da Tarja Preta", de Calligaris

    Calligaris substitui a aflição de uma classe pela angústia de um sujeito comum em "O Homem da Tarja Preta", que estreia hoje (para convidados), em São Paulo.

    Se os russos batalhavam contra a perda de prestígio, o Ricardo (interpretado por Ricardo Bittencourt) de agora se digladia com seus desejos.

    Casado e pai de duas crianças, ele vira noites no escritório de sua casa, conectado a chats em que assume máscaras femininas para dar vazão a desejos represados.

    Ao longo da madrugada insone em que transcorre a ação, o personagem retraça seu histórico sexual e tenta montar o quebra-cabeça da própria libido. Lembranças das "explicações" dadas por analistas para suas taras pontuam o testemunho, no que parece uma longa sessão de autopsicanálise.

    Homem trágico

    "O que ocorre hoje é que os grandes estereótipos em torno dos quais a masculinidade se estruturou, como o papel de provedor, entraram em crise. Por que características o homem contemporâneo se reconhece?", indaga Calligaris, para logo completar:

    "A feminilidade se reconhece por dar à luz. Já a posição do homem é mais trágica e perigosa. Talvez matar seja sua particularidade, aquilo de que se vale para ser levado a sério", sugere, citando os atiradores, sempre do sexo masculino, que fazem chacinas em escolas/universidades, como ocorreu há uma semana, na Alemanha.

    Para Calligaris, a orientação sexual de Ricardo importa menos do que a sua dúvida quanto ao que seja a real masculinidade, o papel que se espera que um homem desempenhe:

    "No fundo, a sua vontade é viver normalmente com a mulher e os filhos. Ele se força a ser a puta da internet [seu apelido no chat é CrossDresserPutaSubSP] para ser alguém, ter uma segunda identidade. Precisa dessa coisa louca", observa.

    Na direção, Bete Coelho diz que tentou "namorá-los [autor e ator]". "Busquei me aproximar deles, ver por seus olhos, mais do que emprestar um olhar feminino.

    Saber que existem essas possibilidades de fantasia para o homem e questões tão ou mais complexas do que as femininas amplia a percepção --e a paciência com eles", brinca.

    O HOMEM DA TARJA PRETA
    Quando: estreia hoje (para convidados); qui. e sex., às 21h; até 19/6
    Onde: teatro Eva Herz (na Livraria Cultura do Conjunto Nacional - av. Paulista, 2.073, tel. 0/xx/11/3170-4059)
    Quanto: R$ 20
    Classificação: não indicada a menores de 16 anos

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