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    Marieta Severo e Andréa Beltrão estreiam "As Centenárias" em SP

    LUCAS NEVES
    da Folha de S.Paulo

    09/04/2009 08h38

    Carpideiras são, por extensão, atrizes: entoam suas incelências (cantos fúnebres) e derramam seu pranto velórios afora para instigar a catarse coletiva --e, vá lá, amaciar a "passagem" do morto.

    Às atrizes de ofício, por sua vez, cabe sondar os fantasmas de quem ainda persevera por aqui, nos palcos da vida.

    Choronas e intérpretes cruzam caminhos em "As Centenárias", peça de Newton Moreno ("Agreste") que estreia amanhã em São Paulo, depois de um ano e meio de sucesso no Rio, onde colheu boas críticas e três prêmios Shell.

    Em cena, Marieta Severo e Andréa Beltrão encarnam Socorro e Zaninha, carpideiras da região do Cariri que rememoram episódios insólitos de suas "carreiras" enquanto esperam a chegada do defunto da vez.

    Das lembranças, elas pinçam o caso do coronel que cisma em matar sua amante infiel pela segunda vez, o do caixão de mil e uma utilidades e o do velório da mãe de Lampião, que quase lhes rende um emprego fixo no bando do cangaceiro.

    No passado também reside a história que oferece um contraponto dramático ao tom predominantemente jocoso da peça: a do esforço de Zaninha e Socorro em enganar a "patroa", determinada a levar consigo o filho da primeira.

    "A maternidade frustrada, que não pode se realizar, é um dos grandes temas do espetáculo", aponta Marieta. As carpideiras talvez encontrem um alento para esse instinto materno tolhido no próprio trato com os mortos, sugere Moreno:

    "O ritual de cantar para dormir, para 'fazer a passagem' lembra as cantigas de ninar. E os cuidados com o morto, como lavá-lo e trocá-lo, aproximam o caixão de um berço".

    Ele escreveu o texto de "As Centenárias" por encomenda das atrizes, que queriam distância do "universo neurótico" (expressão de Marieta) de "Sonata de Outono" --as duas atuaram na adaptação do filme homônimo de Ingmar Bergman (1918-2007).

    Com carta branca para criar, promoveu a protagonistas as carpideiras que apareciam no segundo plano de dois de seus trabalhos anteriores, também ambientados no Nordeste.

    Luto

    As situações vividas por elas têm ecos da biografia do autor. "Entrou uma lembrança do velório do meu avô. Queria sentir onde a morte me alcançava, em que ponto começava o meu luto", diz Moreno.

    Guga Melgar/Divulgação
    Marieta Severo e Andréa Beltrão em As Choronas 550
    Marieta Severo e Andréa Beltrão vivem Socorro e Zaninha em "As Centenárias", que estreia em SP

    O luto dos personagens seria dividido entre Marieta, Andréa e um casal de atores que se revezaria nos papéis secundários. Até que "bateu um olho grande", como diz Andréa, e as duas atrizes resolveram acumular todo o trabalho --com a exceção da Mulher de Luto, vivida por Sávio Moll.

    O jeito encontrado pelo diretor Aderbal Freire-Filho para atender ao desejo das atrizes foi muni-las de mamulengos, os fantoches nordestinos. Assim, elas puderam dar voz, simultaneamente, a uma carpideira e a uma figura coadjuvante.

    Uma das marcas do diretor, a encenação "aeróbica", que demanda muito do físico dos atores, volta a aparecer aqui. "É uma loucura. Elas terminam o espetáculo com os pés no gelo. Marieta se queixa todo dia, diz que agora vai fazer uma peça em uma sala e com um copinho de uísque na mão", brinca ele.

    Fora do palco, o lamento de Marieta tem por alvo o projeto de reformulação da Lei Rouanet, que prevê o fim do veto ao uso do "mérito artístico" como critério de avaliação dos projetos que buscam incentivo. "Esse é um terreno perigoso. Como se vai julgar o que pode resultar num bom projeto artístico?", indaga ela, coproprietária (ao lado de Andréa) do teatro Poeira, no Rio.

    AS CENTENÁRIAS
    Quando: estreia amanhã; sex., às 21h30, sáb., às 21h, dom., às 17h; até 28/6
    Onde: teatro Raul Cortez (r. dr. Plínio Barreto, 285, Bela Vista, tel. 0/xx/11/ 2198-7701)
    Quanto: R$ 80 (sex. e dom.) e R$ 90 (sáb.)
    Classificação: não indicada

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