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    Mick Jagger ganhou cocaína como presente de casamento, diz jornalista; veja trecho do livro

    da Folha Online

    13/07/2009 14h31

    Descontentes pelo excesso de impostos cobrados pelo governo da Inglaterra, em 1971 os Rolling Stones decidem deixar o país e mudar para o sul da França, onde ficariam hospedados em uma mansão chamada Villa Nellcote. O objetivo era gravar um disco, rodar em turnê pelos Estados Unidos e, com isso, ganhar dinheiro para saldar as dívidas da banda. Deu certo. O resultado do exílio é considerado um dos melhores feitos dos Stones: o álbum "Exile on Main St.". Apesar da improvisação que envolveu sua criação, em um porão quente, sujo e apertado, ele traz composições que revelam o grupo no auge da carreira.

    O jornalista norte-americano Robert Greenfield viu de perto a atmosfera dos bastidores em que a banda criou o álbum. Na época, sob a premissa de entrevistar Keith Richards para a revista "Rolling Stone", ele conviveu com os roqueiros durante dez dias na mansão da Riviera Francesa e tudo o que testemunhou por lá rendeu material suficiente para o livro "Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones" (Jorge zahar, 2008).

    Greenfiled relata o ambiente tomado pelo consumo diário de drogas pesadas como a heroína e a cocaína, no qual a banda criou "Exile on Main St.", e a persistência em um modo de vida que um pouco antes havia vitimado grandes figuras do rock and roll como Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison. A decisão de Mick Jagger em se casar e a consequente resistência da banda --que considerava o matrimônio o cúmulo da caretice-- assim como o tumultuado dia do casamento também são detalhados ao leitor.

    Leia trecho do livro abaixo, no dia em que se comemora o Dia Mundial do Rock. A data é festejada desde o dia 13 de julho de 1985, quando foi realizado o concerto musical Live Aid, em Londres.

    Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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    Por que será que a decisão de Mick Jagger de se casar com Bianca tem tanta importância no desenrolar das coisas? Engraçado você perguntar. O casamento de Mick é importante porque anuncia ao mundo que uma geração que por tanto tempo discordou das regras habituais de comportamento não está apenas envelhecendo -na verdade, está se entregando. É importante porque em um desses livros imensos que relatam, dia a dia, os eventos que mereceram ser noticiados nos anos 1970, o casamento de Mick é o único fato relacionado ao rock digno de nota nos dois primeiros anos da década. Acima de tudo, é importante porque o casamento de Mick abre o mais profundo abismo até então entre ele e Keith.

    Divulgação
    Rolling Stones consumiam drogas pesadas durante criação de álbum
    Rolling Stones consumiam drogas pesadas durante criação de álbum

    Olhe para isso do ponto de vista de Keith. Não é para você se casar, cara. Isso é o que eles fazem - todas essas pessoas caretas e chatas que vivem no mundo convencional. Tudo bem, Bill Wyman foi casado, mas ele largou a esposa e agora mora com Astrid. Charlie Watts se casou anos atrás em um cartório, mas Charlie é assim mesmo, não é tanto um filho rebelde dos anos 1960, e sim um jazzista bacana dos anos 1950 que sempre seguiu a idiossincrasia do seu próprio ritmo.

    Marianne Faithfull estava grávida do filho de Mick, mas ele nunca se casou com ela. Paul McCartney jamais se casou com Jane Asher. Eric Clapton nunca se casou com Alice Ormsby-Gore. Brian Jones pode ter tido sete filhos ilegítimos, dando a mais de um dos garotos o nome "Julian", em homenagem ao grande Cannonball Adderley, mas também não se casou. Nem uma única vez. Na época em que Brian e Anita estavam juntos, nenhum dos dois um dia considerou a questão a sério. Era careta demais, convencional demais, absolutamente burguês.

    Keith jamais se casou com Anita, mas Marlon é seu filho e eles o amam da mesma forma que o amariam se a união deles tivesse sido legitimada pelo Estado e pela Igreja. Mas em St. Tropez, no mês de maio, Michael Philip Jagger está prestes a se casar com Bianca, a moça de olhos negros e sensuais, de boca cruel e insolente, sempre bonita de se ver, seja sob um amplo chapéu à Daisy Buchanan com a aba da frente abotoada para trás ou com uma brilhante echarpe iridescente com uma pena de pavão, sentada calmamente nos bastidores do palco enquanto o caos absoluto transcorre ao seu redor, segurando nas mãos a longa piteira de marfim na qual fuma seus cigarros.

    Tudo bem, Bianca é uma mulher deslumbrante, linda de morrer e impossível de controlar, mas não é nem um pouco rock 'n' roll, está muito mais interessada em todas as sutilezas da etiqueta social que Mick já domina há muito tempo. Além disso, ninguém pode ignorar a evidente semelhança física entre os dois. Como escreveria Marianne Faithfull mais tarde, "... em maio de 1971, Mick afinal cedeu ao seu narcisismo e se casou... consigo mesmo!".

    Embora a opinião de Marianne possa ter sido ligeiramente influenciada por uma pontada de ciúmes, a mídia logo transforma a decisão de Mick de se casar em uma declaração pública de que sua vida como artista que faz o que bem entender sem se importar com o que as pessoas vão pensar está oficialmente terminada. E apesar do que Keith possa sentir a respeito de tudo isso, não há nada que possa fazer além de aceitar a oferta de Mick para ser o padrinho e chegar pontualmente no casamento com todos os demais convidados.

    Sob a tutela do Abbé Lucien Baud, o pastor da Igreja de St. Anne, em St. Tropez, Mick passou o último mês estudando o catolicismo para que ele e Bianca possam se casar no altar após uma cerimônia civil na prefeitura da cidade. Por razões que só ele conhece, Mick espera até o primeiro ensaio dos Stones na França, em 5 de maio, para contar seus planos à banda. Um dia antes do casamento, como se a idéia tivesse acabado de lhe ocorrer, Mick liga por acaso para Bill Wyman e o convida para a recepção, acompanhado de Astrid. Como não foi convidado para nenhuma das cerimônias, Bill está um pouco chateado. Enquanto isso, Astrid e Rose Taylor compram uma bicicleta com dois selins como presente de casamento para o casal.

    Embora a princípio Mick só queira ver amigos próximos na recepção, 75 convidados embarcam em um vôo fretado da Dan Air Comet e viajam de Londres para o casamento. Entre eles, Nicky Hopkins e sua mulher Linda, os pais de Mick, Eva e Basil Jagger, Paul e Linda McCartney, Ringo e Maureen Starr. Paul e Ringo, que na época não estavam se falando, sentam-se em extremos opostos do avião, acompanhados pelo diretor de cinema Roger Vadim, do fotógrafo Lord Patrick Litchfield, de Eric Clapton e Alice Ormsby-Gore, de Ronnie Lane, Ian MacLaglan, Kenney Jones, Ronnie Wood, Marshall Chess, Jimmy Miller, Glyn Johns, Stephen Stills e das cantoras Doris Troy e P.P. Arnold. Referindo-se a esse vôo, Anna Menzies, do escritório dos Stones, diria posteriormente: "Se tivesse caído, a indústria da música teria acabado."

    Como sempre, Tony Espanhol se junta ao passeio. Ao telefone, Mick lhe pediu que trouxesse três gramas de pó da Inglaterra. "Sem isso não vou agüentar esta." Alistando um amigo para servir de mula, Tony faz com que a mercadoria chegue até Mick no Hotel Bibylos, em St. Tropez, depois que (ao menos é o que conta Tony) Keith e Anita se apossaram do estoque pessoal que ele mantinha. Tendo em vista o extravagante presente de casamento comprado por Tommy Weber, Tony também pode ter mentido neste ponto, mas é realmente difícil imaginar por qual outro motivo ele estaria no avião.

    Segundo Tony, o próprio noivo está um tanto pensativo ao considerar as núpcias que se aproximam: "Esta porra não vale toda a trabalheira que dá", teria dito Mick. Ele parece estar se referindo à briga furiosa que teve com Bianca por causa do acordo pré-nupcial que ele insistiu que ela assinasse, de modo que, se um dia decidirem se separar, ela não tenha direito a 50% de tudo que ele possui, conforme a lei francesa. Depois de uma boa dose de discussão, ela por fim concorda.

    Ainda que Mick acredite que fez o máximo possível para manter o casamento em segredo, os tablóides ingleses já sabem do evento e vieram em massa para a cobertura. Antes que o vôo fretado parta do aeroporto de Gatwick, os repórteres entrevistam todas as pessoas que encontram, entre elas Tony Espanhol. Como uma matilha de cães em uma caça à raposa, querem saber tudo sobre aquele que será o casamento pop do ano, para não dizer da década.

    Embora a cerimônia civil esteja marcada para começar às quatro da tarde, tanto o noivo como a noiva se atrasam, dando assim ao prefeito de St. Tropez, Marius Estezan, bastante tempo para conceder entrevistas e posar para a horda de jornalistas presentes na prefeitura. Passam-se 20 minutos. Quando Les Perrin, o velho e sofrido assessor de imprensa dos Stones, liga para Mick no Hotel Bibylos a fim de lhe descrever a cena, Mick grita: "Livre-se deles! Se essa multidão toda estiver aí, não caso."

    Com a ajuda de Jerry Pompili, o antigo gerente do Fillmore East que começou a trabalhar com os Stones durante a turnê de despedida da Inglaterra, e do assistente pessoal de Mick, Alan Dunn, que começou a trabalhar na estrada com Dusty Springfield e agora cuida da logística dos Stones sempre que eles estão em turnê, Perrin tenta esvaziar o salão. Para seu profundo desapontamento, logo fica sabendo que, como estão na França e a cerimônia está ocorrendo em um edifício público, a lei determina que todos têm o direito de estar ali. Para agravar a situação, o prefeito Estezan anuncia: "Se a noiva e o noivo não estiverem aqui até as quatro e meia, vou embora e não haverá casamento." Perrin telefona para Mick e dá a notícia. Ele responde: "Puta merda! Quem dera eu nunca tivesse dito que ia me casar."

    Mick e Bianca afinal chegam à prefeitura, sendo então saudados por mais de 100 fotógrafos, repórteres e câmeras que brigam pelos melhores lugares sob o calor escaldante para tentar registrar aquele momento. A cena é absolutamente insana. Os flashes são disparados e os jornalistas gritam, fazendo perguntas a Mick e Bianca em diversas línguas.

    Segundo Tony Espanhol, Mick murmura: "Que se foda. Não vou seguir com isto." Para delírio dos fotógrafos, Bianca começa a chorar. Perrin, que parece um tanto arrebatado com a situação, que exige alguma espécie de resgate emocional, sussurra na orelha de Mick que ele precisa ir em frente e terminar a cerimônia de uma vez por todas. Mick diz aos fotógrafos que tirem fotografias e depois os deixem em paz. "Eles tiraram as fotos", conta Tony Espanhol, "mas acabaram ficando ali assim mesmo."

    Com um aprumado chapéu de abas brancas adornado com botões de rosas e um terninho branco, feito por Tommy Nutter, que revela um decote estonteante, Bianca entra na prefeitura e assina o registro como "Bianca Rose Perez-Mora". Ela escreve que tem 26 anos, apesar de ter dito a Mick oito meses antes, quando se conheceram, que ainda não fizera 21.

    Depois que os noivos entram, Jerry Pompili assume uma posição em frente à porta de entrada da prefeitura, ao lado do delegado de St. Tropez, um homem magro e careca que Pompili descreveria mais tarde como "um sósia do ator francês Jean Louis Trintignant". É só nesse momento que o padrinho chega à cerimônia. Por razões que só ele conhece, Keith usa calça preta justa e uma blusa de jérsei sob jaqueta militar verde. "Keith veio subindo até a porta", relembra Pompili, "e o delegado o segurou. Estavam ali em pé estrangulando um ao outro e gritando, cada um na sua língua. Tive que separá-los. O policial não fazia idéia de quem seria aquele cara. Você conhece o Keith. Ele parecia estar a caminho de um show."

    Quando finalmente consegue entrar no edifício, Keith senta-se ao lado da noiva, acompanhado por Anita e Marlon, assim como da atriz Nathalie Delon, ex-mulher do astro Alain Delon, e de Roger Vadim, que são amigos de Bianca dos tempos que ela passou em Paris com Eddie Barclay. Agora que o padrinho está presente, o casamento pode começar. O prefeito realiza a cerimônia civil e então chega o momento de todos partirem para a igreja de St. Anne, onde Bianca entrará acompanhada por lorde de Litchfield ao som da música-tema de Love Story. Tommy Weber também está presente, com seus dois filhos de oito e seis anos de idade, Jake e Charlie.

    Embora Anita diga posteriormente a John Perry que Tommy Weber foi ao sul da França com "um monte de gente" e que contou ter "dirigido até lá" em um trailer cigano roubado quatro meses antes, no Festival de Glastonbury, do cantor inglês de música folk Donovan, Weber não tinha absolutamente nada a ver com essa história - ele viajou de avião de Londres até Nice, passando pela Irlanda. Ainda que, neste ponto da vida, Weber tenha apenas um ligeiro contato social com a cocaína, traz com ele, como presente de casamento, cerca de meio quilo do pó branco escondido em bolsinhas de dinheiro presas aos corpos dos dois filhos pequenos.

    Ainda que esse comportamento possa ser visto como abuso infantil hoje em dia, essa trama rende a Tommy Weber respeito ilimitado entre todos os presentes em Nellcote que são adeptos dessa droga. Além disso, favorece bastante as boas-vindas que Tommy recebe e ajuda a estender a sua permanência. Trinta e cinco anos depois, seu filho Jake lembraria que não temeu nem um pouco por si nem pelo irmão, pois sabia que não seriam revistados ao passar pela alfândega francesa. Em vez disso, estava preocupado com o pai, que, para ele, estava apenas "fazendo um favor a um amigo". Na cerimônia civil, os dois são postos como pajens.

    Apesar de o padre Lucien Bauddemostrar irritação por causa das roupas de Bianca, que chegam a expor os mamilos, ele consegue realizar a cerimônia mantendo seus valores religiosos intactos. E diz: "Vocês disseram acreditar que a juventude busca a felicidade, um ideal e a fé. Acredito que também os estejam buscando, e espero que os encontrem hoje, com seu casamento. Mas quando se trata de uma personalidade como Mick Jagger, não se pode esperar ter privacidade no casamento." Jamais foram ditas palavras mais verdadeiras. Antes de o dia terminar, Keith já terá brigado quatro vezes tentando comparecer às núpcias de seu melhor amigo.

    Por julgar que a Igreja é "indefensável", Jerry Pompili permanece do lado de fora como um soldado em guarda, cobrindo a porta de entrada para que as pessoas não entrem enquanto a cerimônia é realizada. Quando Mick e Bianca saem da igreja, Pompili e Alan Dunn escoltam o alegre casal até um Bentley que os espera, estacionado na rua a cerca de 50 metros. Determinados a conseguir a fotografia que lhes dará fama mundial, os paparazzi avançam em direção ao carro, amontoando-se o mais perto que conseguem. Abrindo caminho com os cotovelos, eles esbarram, empurram e praguejam.

    Como literalmente não é capaz de abrir a porta do Bentley para a noiva e o noivo, Pompili empurra um fotógrafo italiano para o lado. O fotógrafo vai à forra e o atinge com a câmera na cabeça. Com sangue escorrendo pelo rosto, Pompili agarra o agressor e o joga com tanta força contra o pára-lama do Bentley que chega a amassá-lo. O carro então acelera. Agora que as cerimônias oficiais do dia terminaram, a festa pode começar.

    No Café des Arts, cerca de mil pessoas, Brigitte Bardot entre elas, estão prontas para celebrar. Ainda coberto de sangue, Pompili está organizando a festa quando Keith o agarra e diz: "Beleza, vamos dar uma grande canja no palco. Veja se consegue envolver todo mundo nisto." Considerando-se os talentos presentes na festa, aquele poderia ser o encontro supremo das superestrelas do rock inglês, reunidas em um único palco para comemorar o casamento da mais famosa de todas as superestrelas do rock inglês.

    Deixando Keith em sua área privativa na sacada, Pompili parte para reunir os músicos. Naturalmente, todos os convocados dizem que ficarão muito felizes em se juntarem a Keith no palco. Quando volta para dar a boa notícia a Keith, Pompili descobre que o padrinho está dormindo profundamente. Keith desmaiou. Pela primeira vez na história dos Rolling Stones, o show acontece sem ele.

    Depois que Terry Reid toca algumas músicas, Mick sobe ao palco para cantar com Doris Tray, P.P. Arnold, Stills e outros. A noite avança, Basil e Eva Jagger vão embora sem sequer entregarem o presente que trouxeram para o filho. Nem um pouco contente com o modo como foi ignorada por seu marido, Bianca volta sozinha para o Hotel Bibylos. Em algum momento durante a noite, Keith Moon entra pela janela da suíte dos noivos. Tempos depois, Bianca dirá: "Meu casamento terminou no dia em que começou."

    *

    "Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones"
    Autor: Robert Greenfield
    Editora: Jorge Zahar Editor
    Páginas: 236
    Quanto: R$ 39,90
    Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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