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    Fotógrafa Nan Goldin traz influente série dos anos 1980 à Bienal de SP

    SILAS MARTÍ
    da Reportagem Local

    10/05/2010 10h45

    Nan Goldin está sozinha em Paris. Já morreram as pessoas que ela amava, motivo que a fez trocar Nova York pela capital francesa, onde mora há dez anos, sem nem falar a língua.

    "Esse não é o melhor lugar para emoções", diz Goldin em entrevista à Folha, por telefone. "Não amo mais ninguém, sou eu e poucos amigos."

    Leia análise da obra de Nan Goldin (só para assinantes)

    Em tudo, a fotógrafa escalada para a Bienal de São Paulo, em setembro, parece estar mais fora do que dentro.

    Suas imagens fundaram um estilo, escancaram momentos íntimos sem pudor nem rodeios --casais na hora do orgasmo, arranhões e tapas no rosto. Mas por mais que ela seja personagem desses dramas movidos a álcool e anfetaminas, seu olhar é de voyeur inconsolável.

    Peter Widing/Reuters
    Texto: U.S. photographer Nan Goldin gestures during a news conference at the Hasselblad Foundation in Gothenburg, Sweden March 8, 2007. Goldin is awarded the 2007 Hasselblad award in photography. NORWAY OUT DENMARK OUT DENMARK OUT REUTERS/Peter Widing/Scanpix (SWEDEN). NO THIRD PARTY SALES. NOT FOR USE BY REUTERS THIRD PARTY DISTRIBUTORS.
    A fotógrafa Nan Goldin, que estará presente na Bienal de SP deste ano

    Na próxima Bienal, parte desse mundo será visto sem sua presença. Seus amigos e amantes, flagrados em Nova York e Berlim nos anos 70 e 80, são heróis da série "Ballad of Sexual Dependency", ou balada da dependência sexual.

    "Não é sobre o underground nova-iorquino nem sobre viciados e prostitutas", afirma Goldin. "É sobre relacionamentos entre homens e mulheres e por que são tão difíceis."

    Ela mesma aparece na cama com o namorado Brian. Mais tarde, ostenta um olho roxo e um machucado na forma de coração. "Amor vem acompanhado de violência e dor", afirma. "É sempre um embate entre a autonomia e a dependência."

    Esse trabalho, exibido pela primeira vez na Bienal do Whitney em 1985, deu o rótulo de artista à fotógrafa que começou retratando travestis em Boston e depois despontou entre punks e drogados do Lower East Side nova-iorquino.

    Enquanto críticos nos Estados Unidos viram na série a "alienação cancerosa que define a alma angustiada da juventude pós-guerra", Goldin afirma ter feito nada mais que um retrato dela e de sua tribo.

    "Não era um grupo marginal, de pessoas isoladas", diz. "Ninguém se importava com nada, nós éramos o mundo, nunca houve uma cena à parte."

    Ganhou outro peso esse registro depois que a Aids levou quase todos os que aparecem nas fotografias. No lugar dessa alma abstrata da juventude pós-guerra, a dor pessoal virou a base do trabalho de Goldin.

    Mesmo o suicídio de sua irmã Barbara, que se deitou nos trilhos de um trem aos 18 anos, virou tema de uma série. "Minha questão é amizade e sobrevivência", diz. "Pergunto como é possível viver depois de perder todos que você ama, meus amigos todos morreram."

    Êxtase e abstinência*

    Ela mostra altos e baixos dessas existências doídas. É fato que Goldin abriu estrada para a geração de fotógrafos que veio depois, como os alemães Juergen Teller e Wolfgang Tillmans, que injetaram hedonismo ímpar nesse tédio rasteiro.

    Mas a raiz de toda a dor na obra da americana está, além de na biografia, na destruição documentada pelo cineasta Larry Clark na série "Tulsa", imagens de garotos viciados nos subúrbios de Oklahoma.

    Vem desse universo o teor visceral das imagens de Goldin. Não há verniz de glamour nem sombra de luxo nos ambientes sujos, na vida doméstica desarranjada, de copos vazios, queimaduras na pele e maquiagem borrada que ela retrata. Não é um diário pessoal com margem para a histeria ou a felicidade.

    Momentos de êxtase são flagrados entre uma e outra crise de abstinência, internações em clínicas de reabilitação. Mas Goldin parece estar sempre de fora. "Vivo uma vida mais solitária do que essa das baladas", afirma. "Fiz isso há 20 anos, mas agora acredito em teorias da conspiração, tento manter os olhos sempre bem abertos."

    De acordo com suas teorias, a arte anda fria demais. Sobraram poucos artistas que ainda têm "glóbulos vermelhos". "Quando ando pelas ruas, as pessoas me olham como se eu fosse uma figura 'cult' que já morreu", conta. "Mas eu não deixo isso mexer comigo."

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