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    Domenico Lancellotti se lança em carreira solo com "Cine Privê"

    MARCUS PRETO
    DE SÃO PAULO

    30/03/2011 10h13

    Como legítimo artista independente desta geração, em que a música só se constrói em esquemas colaborativos, Domenico Lancellotti --ou simplesmente Domenico, como ele costuma assinar-- ergueu sua história trabalhando em grupo.

    Em grupo de quatro, na seminal Mulheres q Dizem Sim, banda formada ainda nos anos 1990 com os músicos Pedro Sá, Mauricio Pacheco e Palito. Em grupo de três, no +2, projeto que dividiu com Kassin e Moreno Veloso. E até em grupos de 20, na big band tropicalista Orquestra Imperial, ainda na ativa.

    Só agora, aos 38 anos, parte para o risco, para a solidão de ver apenas seu nome assinado em uma capa de disco. Lança na próxima semana "Cine Privê" --álbum que já contém, no título, esse conceito de individualidade.

    O trabalho lhe custou três anos e foi feito entre as últimas apresentações do +2, que se dissolve depois de uma década, os bem-sucedidos bailes da Orquestra e as turnês de Adriana Calcanhotto, de quem é baterista.

    A demora, diz, se deve menos ao trabalho paralelo e mais à procura de um tema que amarrasse as canções.

    "Fiz várias até ter as que entrariam no disco", conta. "Queria que ele tivesse uma unidade de LP: com lado A e lado B bem definidos. Ou como um roteiro de cinema mesmo, já que construo sons pensando em imagens."

    No texto de apresentação do álbum, o músico e artista plástico Romulo Fróes indica relações entre o som e as imagens que Domenico constrói, "a trilha sonora de um filme que não existe".

    Domenico também já atuou no campo das artes plásticas. Foi assistente do carioca Luiz Zerbini.

    Por isso, prefere manter os "defeitos de fabricação" no álbum. "De um tempo pra cá, a manipulação de computador mata a música. A tendência é neguinho consertar tudo. Não gosto", diz. "No futuro, pretendo ser lembrado como 'o baterista que errava'."

    Daryan Dornelles/Folhapress
    O cantor Domenico na rua em que mora, no bairro de Santa Teresa, no Rio
    O cantor Domenico Lancellotti, que lança primeiro álbum solo, na rua em que mora, no bairro de Santa Teresa (RJ)

    AMIGOS

    Filho do compositor Ivor Lancellotti --autor de "Abandono", clássico gravado por Roberto Carlos-- Domenico cresceu ouvindo os sambas, canções e boleros que seu pai gostava. "Rock não entrava em casa de jeito nenhum."

    Até que foi à escola.

    "Fiz só até a oitava série, mas foi tempo suficiente pra conhecer meus amigos", diz.

    Entre eles estão o guitarrista Pedro Sá e Moreno Veloso.

    "Pedro me apresentou o rock, Jimi Hendrix. Moreno mostrou uma MPB que não tocava em casa. A primeira vez que ouvi o 'Racional' [do Tim Maia] foi na casa do Moreno. Caetano tinha o LP. Minha vida inteira mudou."

    Vieram as bandas.

    Ainda que pouco lembrada hoje, a Mulheres q Dizem Sim acabaria por influenciar de forma decisiva artistas importantes na virada da década, como Los Hermanos.

    Com um único álbum lançado, em 1996, a banda apontava para a cena roqueira carioca o caminho da fusão de gêneros que depois se tornaria regra no mercado.

    "Nossa geração era assim de uma forma orgânica", diz. "Nunca ninguém pensou que estava misturando nada. Fazia espontaneamente, sem embasamento teórico."

    O +2 seguiu essa trilha, evidenciando ainda o compositor Moreno e o produtor Kassin, um dos mais atuantes no mercado hoje.

    E a Orquestra Imperial foi a principal responsável por trazer os bailes de gafieira, gênero considerado antiquado naquele 2002 de sua estreia, para a Zona Sul do Rio --e depois para São Paulo.

    Agora é com ele. Só.

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