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    "Uma bailarina nunca confessa a idade", diz Ana Botafogo

    AMANDA QUEIRÓS
    DE SÃO PAULO

    24/09/2011 08h05

    Ana Botafogo já perdeu as contas de quantas sapatilhas calçou. Afinal, são 35 anos de carreira, 30 deles vividos dentro do Theatro Municipal do Rio, onde ocupa até hoje o posto de primeira-bailarina.

    A marca é invejável para qualquer dançarino clássico. Em geral, o virtuosismo exigido pela técnica e a constante repetição provocam lesões que encurtam a carreira.

    Ana, no entanto, conseguiu manter-se sempre no palco --e é nele que resolveu comemorar a data. Após passar por Curitiba, ela chega este fim de semana a São Paulo, onde dança "Marguerite e Armand" (1963), de Frederick Ashton (1904-1988).

    É a primeira vez que a peça, baseada em "A Dama das Camélias", de Alexandre Dumas (1824-1895), é dançada no país desde a turnê que a dupla Margot Fonteyn (1919-1991) e Rudolf Nureyev (1938-1993) fez por aqui em 1967. Na trilha, composições do húngaro Franz Liszt (1811-1886) são tocadas ao vivo pelo argentino Iván Rutkauskas.

    Letícia Moreira/Folhapress
    A bailarina Ana Botafogo ensaia no Estúdio Cisne Negro, na Vila Mariana
    A bailarina Ana Botafogo ensaia no Estúdio Cisne Negro, na Vila Mariana

    "Eu tinha pensado já há alguns anos neste personagem, que é bom para esse meu momento, de bailarina mais madura, e que eu nunca tinha feito", afirma à Folha.

    Na trama, a cortesã Marguerite se apaixona pelo jovem Armand, mas abre mão do romance para não comprometer a reputação do amado. Nos anos 1960, o papel revitalizou a carreira de Fonteyn ao colocá-la ao lado do então astro em ascensão Nureyev, 20 anos mais novo.

    A diferença de idade é ainda maior no caso de Ana. Por aqui, seu partner é o argentino Federico Fernandez, do Teatro Colón, de Buenos Aires. Ele tem 25. Ela, 56 (número que não revela nunca: "uma bailarina nunca confessa a idade", diz, sorrindo).

    Para ela, o segredo da longevidade artística está na disciplina. "Nunca tive um machucado que tenha me tirado muito tempo da cena. Além disso, balé é repetição, é ensaio, ensaio, ensaio, é estar sempre com a musculatura trabalhada. Só isso me sustentou até hoje", afirma.

    O papel de Marguerite se opõe às mocinhas virginais com que Ana se consagrou no Municipal do Rio. Hoje em dia, ela pede para não integrar produções de balés como "Coppelia" ou "Giselle". Tenta também convencer seus chefes a não fazer mais a Fada Açucarada, personagem da montagem natalina anual de "O Quebra-Nozes".

    "Não me ressinto de não dançar mais esses papéis. Acho que já fiz tanta coisa que preciso agora dar abertura aos mais jovens."

    Apesar de estar em momento de comemoração, Ana já cogita abandonar os palcos. No entanto, não precisa uma data para isso. "Antigamente, quando me perguntavam isso, eu dizia estava no auge da carreira. Agora não. Eu tenho uma carreira muito longa e, graças a Deus, estou superbem. Então é assim: eu queria muito parar bem, feliz e dançando", diz.

    MARGUERITE E ARMAND
    QUANDO hoje, às 21h, e amanhã, às 18h
    ONDE teatro Alfa (r. Bento Branco de Andrade Filho, 722, tel. 0/xx/11/5693-4000)
    QUANTO de R$ 40 a R$ 100
    CLASSIFICAÇÃO livre

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