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    "A 'Paris Review' mudou menos que o mundo", diz editor da revista

    FABIO VICTOR
    DE SÃO PAULO

    31/03/2012 07h31

    Entrevistado da primeira edição da revista literária "The Paris Review", em 1953, o escritor e crítico britânico E.M. Foster é questionado se escreve todo dia ou somente quando está inspirado.

    "A segunda opção", diz. "Mas o ato de escrever me inspira. É uma sensação boa..."

    Tal sensação é o que há 59 anos alimenta a "Paris Review", que chegou neste mês à edição de número 200.

    Fundada por um grupo de americanos em Paris, quando a cidade ainda era o refúgio favorito de escritores dos EUA, a "PR" tornou-se a principal revista literária americana e uma das mais tradicionais e influentes do mundo.

    Revelou nomes como Philip Roth e V. S. Naipaul e é famosa por entrevistas memoráveis em que autores consagrados cometem inconfidências literárias.

    Divulgação
    O editor da revista literária "Paris Review", Lorin Stein
    O editor da revista literária "Paris Review", Lorin Stein

    Além de Foster, o número 1 apresentava prosadores, entre eles o cofundador Peter Matthiessen, e poetas, incluídos Robert Bly e George Steiner.

    Mais extensa, a edição 200 tem configuração semelhante: poesia, prosa, grandes entrevistas (Bret Easton Ellis e Terry Southern), ensaios.

    "Diria que a revista mudou menos do que o mundo em torno dela", disse à Folha o atual editor, Lorin Stein.

    É dele a ingrata missão de suceder a George Plimpton, o lendário cofundador da "PR" e editor da revista por 50 anos, de 1953 até sua morte, em 2003.

    "Era o homem mais charmoso que eu ou qualquer pessoa jamais conheceu", afirma Stein, que é somente o terceiro na função em 59 anos. Da morte de Plimpton até 2010, quando ele assumiu, o posto foi ocupado pelo jornalista Philip Gourevitch.

    Vindo de uma passagem exitosa como editor na Farrar, Straus and Giroux, onde cuidou de autores como Jonathan Franzen (que, depois, enfim falaria à "PR", já sob a gestão do amigo), Jeffrey Eugenides e Roberto Bolaño, Stein é apontado pelo mercado editorial nova-iorquino como o nome certo para manter (alguns diriam recuperar) o prestígio da revista.

    Parte da aposta se deve ao perfil hedonista do novo editor: bom de copo, fumante, "cool", boa pinta, elegante e definido em reportagem recente do "New York Times" como o "novo festeiro da 'Paris Review'".

    Sim, pois, muito graças a Plimpton, editar a trimestral "PR" traz consigo um indissociável papel social.

    "George estabeleceu um padrão muito alto como anfitrião. Suas festas (e elas eram muitas) incluíam todo mundo, de Norman Mailer e Mario Puzo a Jackie Kennedy", lembra Stein.

    Leia a seguir a entrevista, realizada por e-mail.

    *

    Duzentas edições depois, o que distingue a "Paris Review" publicada em 1953 daquela editada pelo sr hoje?

    Lorin Stein - Diria que a revista mudou menos do que o mundo em torno dela. Continuamos publicando sob a mesma fórmula básica: contos, poemas e ensaios --sempre com ênfase em novas descobertas-- e entrevistas aprofundadas com escritores que compõem o cânone de nosso tempo.

    Por que a "Paris Review", uma revista americana, foi fundada em Paris?

    Foi fundada em Paris pelo que poderíamos chamar de um acidente histórico --vários dos nossos fundadores tinham servido no Exército e estavam em Paris no GI Bill [lei americana para auxiliar veteranos da Segunda Guerra]. Havia muitas revistas de língua inglesa em Paris na época. Vários escritores jovens americanos se mudaram para paris nos anos 1950, por razões econômicas, por paixão à cultura francesa e para estarem juntos. Além disso, alguns diriam, por uma obsessão com a "geração peerdida" --Hemingway, Fitzgerald etc-- que glorificara Paris desde os anos 1920.

    Quais o sr considera as entrevistas mais memoráveis da história da revista? Dentre elas, poderia destacar trechos que considera memoráveis?

    Há vários trechos muito famosos nas entrevistas da "PR", como quando Hemingway diz a George [Plimpton] que o dom mais importante do escritor é "um detector de merda, embutido e à prova de choque". Ou quando Nabokov afirmou que que tratava seus personagens como "escravos". Ou quando Borges confessou que chorava com filmes de gângsters. O meu preferido talvez seja um trecho do romancista inglês Henry Green, entrevistado por Terry Southern in 1958 --mas receio que é impublicável num jornal de família.

    Eu gostaria muito de saber que trecho é esse --se eu concluir que é muito pesado para a família brasileira, fique tranquilo que eu não o publico.

    O trecho não é somente muito obsceno, mas também requer bastante contextualização. É preciso, por exemplo, conhecer o romance "Loving" [de Henry Green], que é um clássico aqui e, desconfio, menos conhecido no Brasil. É preciso também considerar o peso que têm questões de sexualidade e classe na Inglaterra. Aqui está: "Tive a ideia de [escrever] 'Loving' de um funcionário dos bombeiros durante a guerra. Ele estava servindo comigo, e me contou que certa vez perguntou ao mordomo mais velho que era seu superior do que o veterano mais gostava no mundo. A resposta foi: 'Deitar na cama numa manhã de verão, com a janela aberta, ouvindo os sinos da igreja, comendo torradas com dedos de xoxota.' O livro me veio na hora".

    A "PR" revelou vários escritores importantes, como Philip Roth, V. S. Naipaul etc. Na opinião do sr, quais escritores contemporâneos revelados recentemente pela revista serão reconhecidos internacionalmente daqui a muitos anos?

    Esse é sempre um jogo perigoso. Adoro nossos jovens escritores mais ou menos igualmente e, como disse o pregador, "a corrida nem sempre é dos mais velozes nem a batalha é sempre ganha pelos mais fortes; mas tempo e oportunidade aparecem para todos". Salientaria, no entanto, que nosso editor do Sul, John Jeremiah Sullivan, foi recentemente apontado pela revista "Time" como "o melhor escritor de sua geração" e que publicamos a primeira história longa de David Foster Wallace, e as novelas do surpreendente sul-africano Damon Galgut --todos escritores de uma safra mais recente do que aqueles que você menciona.

    Quais escritores vivos o sr gostaria de ver entrevistados pela "PR"? Por que eles não foram entrevistados até hoje?

    Por razões melhor conhecidas por eles próprios, Elmore Leonard continua dizendo não, assim como Cormac McCarthy e John Berger. Isso é motivo de tristeza para mim. Também J.K. Rowling, que mais do que qualquer escritor atual mudou a forma com que nós no mundo anglo-americano pensamos a ficção.

    Quais as diferenças de perfil entre o sr, Philip Gourevitch and George Plimpton [os outros dois editores da PR]? Como essas diferenças aparecem nas páginas da revista?

    George era um aristocrata inato, um traquinas angelical, um playboy glamoroso e o homem mais charmoso que eu ou qualquer pessoa jamais conheceu. Philip é um dos mais brilhante jornalistas --e um dos grandes estilistas da prosa-- de nosso tempo. Quanto a mim, eu fico insone à noite preocupado com contos. Mas suspeito que eles faziam o mesmo.

    Parece que o papel social do editor da "PR" é quase tão importante quanto suas habilidades de editor. É isso mesmo? Por quê?

    George estabeleceu um padrão muito alto como anfitrião. Suas festas (e elas eram muitas) incluíam todo mundo de Norman Mailer e Mario Puzo a Jackie Kennedy. Lembro de ter conhecido o arcebispo Paul Moore, vestido com sua batina, na casa de George --e de correr para minha casa para chamar minha mãe. Aquelas festas conferiam uma mística à "Review", atraindo anunciantes, publicidade e jovens como eu. Parece-me que há maneiras mais chatas de se tocar uma revista. Festas continuam a fazer parte do nosso jeito, mas hoje em dia eu diria que somos abundantes em escritores, críticos e artistas e relativamente escassos em cardeais.

    Como as novas tecnologias e a revolução digital afetam a edição da "PR"?

    Vendemos online todas as nossas novas assinaturas. Também iniciamos uma revista online --um tipo de jornal cultural-- chamada "The Paris Review Daily", que tem 50 mil leitores por semana. Temos cerca de 200 mil seguidores no Twiter. E, naturalmente, a ficção, ensaios e poemas que publicamos geralmente tratam da vida na Era do Monitor. Somos realistas. E acreditamos na santidade da página.

    O que o sr destacaria na edição nº 200? O que significou para o sr fazer esta edição histórica?

    Parece-me que as duas entrevistas --uma 'quente' com Bret Easton Ellis, outra uma entrevista perdida de 1967 com um velho Terry Southern-- formam uma parelha histórica. Cada uma é provocativa à maneira de sua época. Os poemas de Frederick Seidel (um dos nossos primeiros editores em Paris) merecem, humildemente sugiro, ser traduzidos para o português. E o grande ensaio experimental sobre a história da escrita, de J.J. Sullivan, representa um novo caminho em seu trabalho. As histórias dão uma boa amostra da variedade de estilos dos atuais escritores americanos: da crua e inconstante primeira pessoa de Matt Sumell, à destreza olímpica de Lorrie Moore e à ironia bernardiana de David Means... Mas, se eu continuar, vou mencionar a edição inteira. Não tenho favoritos.

    Carolina Daffara/Editoria de Arte

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