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    Crítica: "Aqui" é um acontecimento extraordinário na dramaturgia

    LUIZ FERNANDO RAMOS
    CRÍTICO DA FOLHA

    02/10/2012 05h03

    Dramática trans-humana. "Aqui", primeira peça escrita por Martina Sohn Fischer, é um acontecimento extraordinário na dramaturgia brasileira contemporânea.

    Catarinense de 19 anos se destaca com texto montado pelo Club Noir

    Sua estrutura aberta, claramente avessa à tradição do drama de narrativas concatenadas, combina-se com uma força e contundência poética raras para criar uma obra desde já antológica.

    A jovem dramaturga pode ser considerada a herdeira mais brilhante do projeto de renovação radical do teatro no país empreendido por Roberto Alvim. O dramaturgo e encenador, ao lado da atriz Juliana Galdino, vem, há alguns anos, irrigando a cena paulistana com espetáculos impactantes, apresentados em seu pequeno espaço, o Club Noir, sempre lotado.

    Além dessa notável produção, ele vem oferecendo oficinas de dramaturgia por todo país, propondo "novos modos de habitação da linguagem" aos seus aprendizes. "Aqui" é fruto dessa demanda e, ao lado de outras cinco peças, foi publicada, junto com livro do próprio Alvim, na coleção "Dramáticas do Transumano" (ed. 7 Letras; R$ 45; 136 págs.).

    Julieta Bacchin/Divulgação
    A atriz Gabriela Ramos em cena de "Aqui". dirigida por Juliana Galdino no Club Noir
    A atriz Gabriela Ramos em cena de "Aqui". dirigida por Juliana Galdino no Club Noir

    A peça tem características singulares, ainda que possa ser aproximada de uma tradição antidramática que inclui nomes como Gertrude Stein (1874-1946) e Samuel Beckett (1906-1989). Martina Fischer divide seu texto em oito "tempos", autônomos entre si, mas tendo em comum a enunciação de vozes que falam de diversas perspectivas.

    Entre elas, a de corpos em decomposição, dissolvidos na terra como pó, ou feitos de material estranho ao ser humano, como o vidro. O que assombra é o discurso polifônico e vital, que realiza a possibilidade de consciências operantes em anatomias para além de humanas. Na busca de condições transitórias, Fischer crava sua pena em regiões inexploradas.

    Claro que, numa dramaturgia sem personagens nomeados ou referências apaziguadoras, qualquer "leitura" é provisória, e a palavra-chave, como diria Beckett, é "talvez". A encenação que Juliana Galdino propõe no Club Noir, consistente na exploração das diversas vozes implícitas no texto, é a primeira de muitas que ele aceitará.

    Criação cuja matéria prima é a linguagem, "Aqui" confirma que a renovação da cena passa sempre por revoluções internas da poesia dramática. A peça impressiona pela juventude da autora e pelo clarão que provoca na cena brasileira atual. Mais do que qualquer voz de sua geração, Fischer, de fato, projeta novos modos de humanidade.

    AQUI
    QUANDO de terça (2) a qui., às 21h; última semana
    ONDE Club Noir (r. Augusta, 331; tel. 0/xx/11/3255-8448)
    QUANTO grátis
    CLASSIFICAÇÃO 16 anos
    AVALIAÇÃO ótimo

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