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    Longa "O Fundamentalista Relutante" capta estranhamentos de paquistanês nos EUA

    FRED KAPLAN
    DO "NEW YORK TIMES"

    26/04/2013 19h43

    Parece incrível que "O Fundamentalista Relutante", o romance best-seller de Mohsin Hamid, de 2007, pudesse ser transformado em um filme. Primeiro, por causa de sua estrutura narrativa. Um rapaz cumprimenta um turista americano em um café na cidade paquistanesa de Lahore e começa a contar a história de sua vida. Esse é o livro inteiro; não ficamos sabendo nada sobre o americano ou qualquer outra pessoa.

    Mas o rapaz, Changez Khan, é um paquistanês radical barbado, um tipo nada simpático para as telas americanas. Finalmente, conforme a história se desenrola, crescem as pistas de que ele pode ser um terrorista e o americano, um espião que pretende matá-lo, embora isto permaneça ambíguo --uma
    característica literária difícil de captar no cinema.

    No entanto, o filme vai estrear em todo o mundo até julho, e é dirigido e coescrito por Mira Nair, o que também pode parecer uma escolha estranha - "uma diretora indiana fazendo um filme paquistanês nos Estados Unidos", como ela coloca.

    Muitos dos filmes que Nair fez ao longo dos anos - "Um Casamento à Indiana", "Nome de Família", "Mississippi Masala" - foram sobre pessoas divididas entre duas culturas e duas pátrias, que sentem que elas têm de escolher.

    Seu último, estrelado por Riz Ahmed como Changez e Liev Schreiber como o americano, recebeu críticas mistas ou positivas quando estreou no Festival de Cinema de Veneza em agosto passado.

    Hamid é muito parecido com o personagem principal de seu livro. Ambos nasceram e foram criados em Lahore; ambos deixaram o lar para estudar na Universidade Princeton em Nova Jersey, depois conseguiram empregos em firmas de consultoria em Nova York. Ambos se sentiam plenamente assimilados como americanos.

    Um ponto de virada, na ficção e na vida, veio com os atentados de 11 de Setembro. Changez é assediado por causa de sua aparência asiática meridional. Alienado de sua nova pátria, ele reafirma sua identidade e rejeita sua profissão, que envolve fechar empresas quando elas não cumprem os "fundamentos" do mercado. Então ele volta para casa, onde é tentado por um tipo diferente de fundamentalismo.

    A cena mais notória da novela é quando Changez lembra o momento em que assistiu ao colapso das Torres Gêmeas. "Eu sorri", ele diz ao americano.
    Hamid enfatizou que essa não foi absolutamente sua reação aos atentados terroristas, mas que ele a havia visto em outras pessoas. Ele tinha se mudado para Londres um mês antes dos ataques e estava em uma academia quando o noticiário mostrou a primeira torre desmoronando.

    "Olhei ao redor", disse, "e vi que algumas pessoas estavam sorrindo. Não eram pessoas parecidas comigo; eram brancas. Durante dias eu vi isso se repetir --pessoas felizes, brincando. Quando mencionei o sofrimento humano para essas pessoas, algumas disseram estar envergonhadas pelo modo como se sentiam. Foi o simbolismo do ato que lhes agradou."

    Ele pretendia voltar para Nova York um ano depois, "mas meus pais e meus amigos daquela parte do mundo teriam tido muito mais dificuldade para me visitar". Então ficou em Londres até 2010, quando ele, sua mulher e filha se mudaram de volta para Lahore.

    "A maior diferença entre Changez e mim", disse Hamid, "é que ele sente que tem de escolher um dos dois --o Paquistão ou os EUA. Eu profundamente não me sentia dessa maneira. Sinto-me completamente híbrido, americano e paquistanês, tudo misturado. Muitas pessoas dizem: 'Proteja-nos dessa contaminação'. Mas sou um apoiador entusiástico dessa contaminação. Sem ela, pessoas como eu não conseguem existir. Não quero escolher um lado."

    Para Nair, "a beleza de viver em dois ou três lugares é que sua visão de mundo é obrigada a se expandir. Quando você vive só aqui, é uma conversa unilateral com o resto do mundo. Eu quis mostrar os dois lados. A novela de Mohsin me deu a estrutura para isso".

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