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    Crítica: Filme 'Faroeste Caboclo' atrela-se demais à música

    INÁCIO ARAUJO
    CRÍTICO DA FOLHA

    29/05/2013 03h14

    Do ponto de vista estrito do roteiro, "Faroeste Caboclo" propõe-se como ilustração fiel, quase literal, da música de Renato Russo. Lá está o menino pobre, que começa por matar o assassino do pai e depois chega a Brasília, onde logo se torna traficante.

    Traficante ou não, chamará a atenção de uma garota rica e travará com um traficante playboy (branco e bem de vida) duelo pelo controle das drogas em um círculo e, ao mesmo tempo (ou sobretudo), pelas atenções da garota --o traficante playboy não se conforma que ela goste do menino pobre e preto.

    O fato de o roteiro prender-se estritamente à música poderá, talvez, contentar os fãs de Renato Russo, mas tem o inconveniente de ser previsível demais.

    Divulgação
    César Troncoso (esq.) e Fabricio Boliveira em cena do filme "Faroeste Caboclo"
    César Troncoso (esq.) e Fabricio Boliveira em cena do filme "Faroeste Caboclo"

    Mesmo quem não tenha ouvido, jamais, a música sabe quais os próximos passos do filme: ele cumpre determinadas convenções à risca.

    Assim, nos damos conta de que, entre o pobre e o rico, o negro e o branco, é sempre o primeiro que terá suas razões privilegiadas.

    DESGASTES

    Isso nos remete a um momento do cinema brasileiro (a ditadura e mesmo após o seu final, tudo que antecede, a rigor, "Cidade de Deus") em que a preocupação social era central. Não é que essas preocupações tenham se tornado caducas: é que ficaram desgastadas pelo uso.

    Ao relançá-las, "Faroeste" busca Brasília como cenário, e esse é provavelmente o seu maior acerto. Primeiro, porque esse faroeste metafórico nos remeterá em linha reta ao bangue-bangue nacional, que tem naquela cidade a sua capital.

    Segundo, porque carrega a indagação sobre o que é, afinal, Brasília. Que cidade misteriosa é essa onde tudo parece vir do exterior? Ou que, reformulando, parece não ter existência própria senão como lugar vazio?

    Brasília: capital do país (Plano Piloto) e terra de ninguém (cidades-satélites): dois mundos que se comunicam por intermédio das drogas, que promovem certa igualdade nesse terreno de desigualdades.

    Ali, pretos e brancos, pobres e ricos coabitam. Esse olhar sobre a cidade é que fornece o material mais interessante a um filme que aparece sob certo aspecto atrelado demais ao momento da música (entre os anos 1970 e 1980).

    FAROESTE CABOCLO
    DIRETOR René Sampaio
    PRODUÇÃO Brasil, 2013
    ONDE Estreia nesta quinta-feira (30); pré-estreia quarta (29) em Espaço Itaú de Cinema Augusta e Pompeia, Cinespaço The Square Granja Vianna, Cinemark SP Market e outros
    CLASSIFICAÇÃO 14 anos
    AVALIAÇÃO regular

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