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    Diretora Lúcia Murat homenageia amiga guerrilheira em novo filme

    ELEONORA DE LUCENA
    DE SÃO PAULO

    12/06/2013 03h32

    Vera Sílvia Magalhães tinha 21 anos quando ajudou a planejar o sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969. Foi presa e torturada. Saiu do Brasil no ano seguinte, quando ela e outros presos políticos foram libertados em troca do embaixador alemão no país, sequestrado por guerrilheiros.

    Lúcia Murat militou com Vera. As duas se conheceram na época do vestibular para economia. Nascidas em 1948, com diferença de três meses, ficaram amigas. Antes do AI-5, dividiram um apartamento em Copacabana.

    É para homenagear Vera Sílvia que Murat fez "A Memória que me Contam", que estreia nesta sexta-feira, dia 14. No filme, um grupo de ex-guerrilheiros se encontra na sala de espera de um hospital, onde aguarda notícias de uma amiga que agoniza.

    Divulgação
    Simone Spoladore interpreta a ativista Ana em cena do filme "A Memória que me Contam"
    Simone Spoladore interpreta a ativista Ana em cena do filme "A Memória que me Contam"

    Contam histórias da época, falam de suas inquietações atuais, expõem seus filhos. Na trama há um ministro, uma cineasta. A doente, Ana, surge jovem, perpassando o tempo e arriscando balanços de vida.

    Carregando sequelas da tortura, Vera Sílvia morreu em 2007, sem saber dos planos de filmagem da amiga.

    Murat conta que a ideia do longa surgiu bem antes, há 20 anos. "Toda vez que a Vera tinha problema, um câncer, um monte de gente se reunia em torno dela no hospital. Tinha um carisma grande. Lia muito desde os 12 anos, era muito sedutora. Mas o fantasma da tortura a perseguiu a vida toda. A tortura que não passa nunca."

    Também presa e torturada na ditadura, Murat diz que "fazer o filme foi uma maneira de lidar com a perda".

    E acrescenta: "Não quis mostrar um bando de vítimas, o que não significa que não tenhamos sido vítimas da tortura e do assassinato. Quis mostrar pessoas que combateram a ditadura, que tiveram erros. Algumas sobreviveram e estão aí em situações muito diferentes".

    Quando viu "As Invasões Bárbaras" (2003), de Denys Arcand --que também trata de um grupo de amigos que acompanha a agonia de um deles--, Murat reagiu: "O cara roubou minha ideia". Mas seguiu trabalhando a hipótese. O roteiro começou a ser escrito em 2008.

    PERGUNTAS

    Apesar das ligações históricas, a diretora define seu filme como "totalmente ficcional, embora inspirado nas nossas vidas". Nele tem destaque o papel da cineasta que vai homenagear a amiga morta, interpretado por Irene Ravache.

    "É a segunda vez que eu faço ela [a diretora Murat]. A primeira vez foi em 'Que Bom te Ver Viva' (1988)", lembra Ravache, 68. Da mesma geração da diretora, a atriz conta que também vivenciou o drama. "Tive amiga de infância que foi morta pela ditadura."

    Ravache diz que gostou muito do roteiro. "Foi difícil assistir ao filme, me adaptar, entender o formato em que o filme ficou. Eu gostava muito da história mais linear. É uma questão de gosto. Não tenho medo de coisas lineares, simples. Para Lúcia, fazem mais sentido essas subjetividades, sensações, impressões. É um filme ousado, sai dos padrões", opina.

    A atriz conta que preferia o título inicial do filme: "Sala de Espera". "Não é só por ser a sala de espera de um hospital. Acho que a minha geração ainda está esperando. Desde a abertura, minha geração esperava mais. Não esperava essa repetição. Eu me sinto indignada e totalmente traída", desabafa.

    Interpretando a guerrilheira Ana (inspirada em Vera), Simone Spoladore afirma que o mérito do filme é "fazer muitas perguntas". Nascida no ano da Anistia, 1979, ela diz que o tema da ditadura ficou por muito tempo ausente de suas preocupações.

    "Parecia que esse tempo tinha acontecido há 200 anos, de tão distante que eu era disso. Foi com 'O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias' (2006), no qual também era uma guerrilheira, que notei que tinha sido há cinco minutos."

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