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    Crítica: Filme argentino 'Tese Sobre um Homicídio' envolve com trama intrigante

    INÁCIO ARAUJO
    CRÍTICO DA FOLHA

    26/07/2013 03h25

    Em "Tese sobre um Homicídio", filme de Hernán Goldfrid que estreia nesta sexta-feira (26), estamos bem na tradição argentina (mais literária do que cinematográfica) do mistério policial em que um fator intelectual intervém fortemente. No caso, envolve o professor de direito Roberto Bermudez (Ricardo Darín), que tem seu curso acompanhado pelo aluno Gonzalo (Alberto Ammann).

    Jovem e atrevido, Gonzalo apresenta logo de cara sua ousada tese: a sociedade só investiga os crimes na medida em que eles sejam nocivos ao poder. E conclui: quantas borboletas são mortas todos os dias sem que ninguém se importe com isso?

    A ideia parece mais absurda do que é, já que pouco depois uma jovem aparece morta, em frente à sala em que Bermudez dá aulas. É intrigante. E fica bem mais intrigante quando, ao visitar o legista, Bermudez descobre que a moça levava no pescoço um colar com um broche em que se percebe o desenho de uma... borboleta.

    Divulgação
    Calu Rivero e Ricardo Darín em cena do filme argentino 'Tese sobre um Homicídio'
    Calu Rivero e Ricardo Darín em cena do filme argentino 'Tese sobre um Homicídio'

    Desde então Bermudez sabe que o criminoso só pode ser seu aluno. Mas como prová-lo? Estamos diante, talvez, de um crime perfeito. Ou seriam dois crimes?

    DESAFIO

    Pois o verdadeiro objetivo de Gonzalo é lançar um desafio ao professor: será ele capaz de investigar esse crime? Será capaz de passar da teoria à prática com a desenvoltura (e a vaidade) com que apregoa seu saber jurídico?

    Eis o que de fato está em questão: o desafio do discípulo ao mestre. Não estamos longe, como se pode ver, de Hitchcock em "Festim Diabólico": em ambos os casos, o assassinato é uma questão de disputa intelectual.

    Uma diferença, porém, é notável (do ponto de vista da intriga, pois esteticamente não têm nada a ver): Gonzalo estabelece de cara uma vantagem importante sobre o mestre, que não espera ser contestado dessa forma. Bermudez é levado pela obsessão de desmascarar o discípulo atrevido. E a obsessão pode destruí-lo.

    Na verdade, levamos essa dúvida o tempo todo: conseguirá ele dominar sua obsessão? Mas não só ela. Entra aí a habilidade de Goldfrid em dominar também o espectador.

    No decorrer do filme, nos perguntamos se Bermudez é conduzido pela obsessão ou pela lógica. Essa questão levará a outras, como: estamos diante de um crime perfeito ou conseguirá o professor desmascarar o criminoso? E ainda: será que o assassino é mesmo Gonzalo ou ele se aproveita da situação para provocar Bermudez?

    Lançar e sustentar essas dúvidas não são virtudes menores, e "Tese" se desempenha adequadamente nesse aspecto. Talvez a evolução psicológica dos personagens (Bermudez, em particular) seja menos interessante (ou profunda) do que parece a Goldfrid. O que não impede seu filme de ser um agradável "noir" moderno.

    TESE SOBRE UM HOMICÍDIO
    DIREÇÃO Hernán Goldfrid
    PRODUÇÃO Argentina, 2013
    ONDE Iguatemi Cinemark, Kinoplex Itaim e circuito
    CLASSIFICAÇÃO 14 anos
    AVALIAÇÃO bom

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