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    Opinião: James Bond dos livros tem muitos traços de seu autor, Ian Fleming

    DAGOMIR MARQUEZI
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    17/08/2013 03h08

    A reedição no Brasil de três livros de Ian Fleming com aventuras do agente 007 chega para confirmar James Bond como o mais forte e duradouro mito da ficção planetária das últimas seis décadas.

    Na manhã de 15 de janeiro de 1952, Fleming começou a escrever em sua casa da Jamaica um novo livro na sua máquina de escrever Imperial. Seu objetivo já não era pequeno: criar "o romance de espionagem para acabar com todos os romances de espionagem". Foi muito mais longe.

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    Fleming (1908-1964) era neto de banqueiro escocês e filho de um herói de guerra. Nasceu em Londres e começou como correspondente da agência Reuters. Na Segunda Guerra, demonstrou talento em operações de inteligência da Marinha britânica.

    No final da guerra juntou as economias e comprou Goldeneye, sua casa jamaicana. Instalou sua Imperial junto à vista que tinha do mar do Caribe.

    Desde o começo foi difícil separar o criador da criatura. Assim como Fleming, Bond sempre teve desconfiança das mulheres, sempre agiu por conta própria e nunca admitiu abandonar seus prazeres mundanos --jogos, bebidas, cigarros e ovos mexidos pela manhã. Ignorava solenemente os alertas de seus médicos.

    O primeiro livro, "Cassino Royale", é obra típica da Guerra Fria, com um plot sobre a União Soviética controlando sindicatos franceses. Lá está a primeira de uma longa série de cenas de tortura -- envolvendo uma cadeira sem fundo e um limpador de tapetes.

    Ao contrário do que aconteceria nos livros posteriores, o clímax do livro acontece cedo demais. E Bond passa longos capítulos finais martirizado pelo romance com sua primeira paixão, Vesper.

    A identificação com Bond era tão forte que o autor fazia seu herói ter a vida que ele queria ter em hotéis de luxo. Mas sofria também nas mãos dos bandidos -para alguns, sinais pouco sutis de tendência sadomasoquista do autor.

    O sucesso foi aumentando com livros mais sólidos como "Da Rússia, com Amor" (1957) e "O Satânico Dr. No" (1958).

    Em 1961, um ano antes do quase fim do mundo (com a crise EUA X URSS em Cuba), Fleming teve a grande sacada de perceber que um dia a Guerra Fria ia derreter. E lançou "007 contra a Chantagem Atômica", que se tornaria o padrão de livros posteriores.

    Tirou de cena a Smersh soviética e introduziu a Spectre, organização terrorista que quer dominar o mundo e tem como chefe Blofeld, um sujeito neurótico com uma cicatriz na cara e um gato no colo.

    À BEIRA DA MORTE

    Apesar do sucesso, Fleming começou a se cansar da sua criatura e por várias vezes planejou matá-la. Em 1962, tentou revolucionar sua obra lançando uma aventura do ponto de vista de uma mulher, em "O Espião que Me Amava". Foi um tremendo fracasso.

    No ano seguinte, 007 voltou revigorado à velha fórmula em "A Serviço Secreto de Sua Majestade", onde se casava e ficava viúvo em horas (culpa de Blofeld, claro).

    Fleming teve ainda tempo para viajar pelo Japão (que o inspirou no exótico "Só Se Vive Duas Vezes", 1964). Seu último romance foi o meio inacabado "O Homem da Pistola de Ouro" (lançado em 1965). Deixou alguns contos, o melhor deles a improvável love story "The Living Daylights".

    Em 1962, um par de fatores transformou sua série de best-sellers no fenômeno mundial fora de controle. Primeiro, o presidente americano John Kennedy declarou que era seu fã ("Da Rússia, com Amor" foi o último livro que leu antes dos tiros em Dallas).

    Em seguida chegou aos cinemas "Dr. No", o primeiro filme da série, estrelado pelo desconhecido Sean Connery. Fleming não teria qualquer pudor em mostrar seu desprezo pelas adaptações cinematográficas dos seus livros.

    Ele tinha a angústia de qualquer escritor de ser aceito pelo público e pela crítica, que nunca o engoliu.

    Abatido por um infarto em 1964, aos 56 anos, já tinha vendido 30 milhões de livros no mundo. Mas não chegou a compreender a dimensão real do que havia criado.

    Muito menos podia imaginar que seu agente 007 seria retomado por outros escritores, como Kingsley Amis, Raymond Benson e John Gardner (que escreveu mais livros de Bond que o próprio Fleming).

    O próximo autor é William Boyd. "Solo" vai ser lançado com toda a pompa no mês que vem. Se soubesse disso tudo, Ian Fleming provavelmente soltaria um bocejo de tédio.

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