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    Rio de Janeiro

    Artista viva mais cara do país, Beatriz Milhazes marca 30 anos de carreira com retrospectiva

    SILAS MARTÍ
    ENVIADO ESPECIAL AO RIO

    27/08/2013 03h08

    "Tudo começou porque adoro amarelo. Ouro amarelo." Beatriz Milhazes está no café do Paço Imperial, no Rio, e deixa ver as mãos carregadas de anéis dourados.

    No andar de cima, é a cor dominante na tempestade de penduricalhos na obra que abre nesta semana a mostra da artista mais cara do país.

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    Suas correntes pendem do teto cheias de adornos de carro alegórico, mandalas e flores e que mergulham uma sala da antiga residência da realeza portuguesa num baile de formas congelado no espaço.

    De cores estridentes, as obras feéricas de Milhazes há tempos viraram símbolo da arte contemporânea brasileira no mercado global.

    São uma síntese da alegria do Carnaval recapturada com uma plasticidade tão reluzente quanto o ouro que adorna os dedos da artista.

    Essa extravagância também há tempos deixou de ser só conceitual. Milhazes bateu duas vezes --e detém ainda-- o recorde em leilões internacionais como a artista viva mais cara do país.

    Uma obra foi arrematada no ano passado em Nova York por R$ 4,9 milhões, quatro anos depois que outra tela saíra por R$ 2,6 milhões.

    Enquanto a crítica ainda diverge sobre sua obra, entre ataques a certa frivolidade e a exaltação de suas cores, seus preços seguem em alta.

    Mas, caros ou não, seus trabalhos turbinaram um debate sobre o que seria a brasilidade na arte em tempos de globalização e artistas de hábitos cada vez mais nômades.

    Milhazes, aliás, tem galerias em São Paulo, Berlim, Londres e Nova York. Mas construiu toda a sua obra --ao longo das últimas três décadas-- com os dois pés muito bem plantados no Rio.

    Olhando a praia de Botafogo, a caminho de seu ateliê que ocupa três casas inteiras aos pés do Corcovado, Milhazes fala da "beleza exagerada e barroca" de sua cidade.

    "Sou uma carnavalesca conceitual", diz a artista. "Queria usar o Rio e esses elementos do Carnaval na minha pintura, unir dois mundos, de alta e baixa cultura."

    Erudito e popular se encontram na obra da artista, numa matriz geométrica que poucos reconhecem. Tudo, por mais festivo que seja, segue uma ordem prévia na composição, a serviço de um equilíbrio plástico robusto, que lembra anseios dos concretistas e neoconcretistas.

    "Não existe nada de espontâneo no meu trabalho", afirma. "Crio ordens e uso um método rigoroso. Adoro os artistas geométricos, mas não poderia só fazer quadrados e círculos pela vida inteira."

    Nesse ponto, ela se define uma "artista geométrica" sem contradizer a ideia de se enquadrar entre carnavalescos.

    PROVOCAÇÃO E RUÍDO

    "Seu trabalho é uma exceção na arte brasileira", diz Frédéric Paul, francês que organiza a retrospectiva da artista no Rio. "Ela se afasta do construtivismo, mas ao mesmo tempo incorpora as curvas de Le Corbusier, vai às escolas de samba. Ela assume com provocação esse ruído que vemos em seu trabalho."

    No caso, é um ruído que passa pelo barroco. Entre flores, círculos e listras, Milhazes injeta frisos das igrejas mineiras, arabescos e fragmentos da iconografia cristã, de santos à figura da Virgem.

    Coincidência ou não, é um flerte parecido com o movimento que surge nas obras de Adriana Varejão, a segunda artista mais cara do país --sinal de que a herança colonial contraposta à rigidez geométrica pode render bons frutos.

    "Gosto de toda essa exuberância, da voluptuosidade e também de certa melancolia no barroco", resume Milhazes. "É tudo uma atmosfera."

    BEATRIZ MILHAZES
    QUANDO abre 29/8; de ter. a dom., das 12h às 18h; até 27/10
    ONDE Paço Imperial (pça. 15 de Novembro, 48, Rio, tel. 0/xx/21/2215-2622)
    QUANTO grátis

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