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    Crítica: Tradução torna alguns versos de Apollinaire incompreensíveis

    FELIPE FORTUNA
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    31/08/2013 03h22

    Atingido mortalmente, aos 38 anos, pela gripe espanhola, Guillaume Apollinaire (1880-1918) parece bem a expressão de uma produtividade milagrosa.

    Depois de "Álcoois" (1913), livro do seu tempo e livro visionário, nenhum poeta pode praticar mudanças na pontuação e os mais diferentes ritmos sem reconhecer o pioneirismo do autor de poemas como "Zona" e "A Canção do Mal-Amado".

    "Zona" é como um objeto totalizante, no qual se pode vislumbrar o conjunto intenso e diversificado da originalidade e da maturação da obra do poeta.

    "No fim você está cansado deste mundo antigo / Você já viveu o bastante na antiguidade grega e romana (...) Eis aí a poesia esta manhã e para a prosa há os jornais (...) As placas os avisos à maneira dos papagaios gritam / Gosto da graça desta rua industrial", escreveu ele.

    Mário Laranjeira entrega, no centenário do livro, a tradução integral de Apollinaire em versão bilíngue.

    Esforço muito notável, considerando-se as numerosas dificuldades dessa poesia a um só tempo erudita e coloquial, alternando versos muito livres e composições que respeitam métrica e rima.

    RIO VIROU LIVRO

    Mas há de se lamentar, contudo, a ocorrência de problemas de tradução enfim incompreensíveis.

    Na última estrofe do poema "Maria", por exemplo, a palavra "fleuve" (rio) foi traduzida por Laranjeira como "livro" no verso "Le fleuve est pareil à ma peine" (o rio é como a minha dor).

    Em "O Ladrão", há um erro grave quando se traduz a palavra "humide" (úmida) por "humilde" (em francês, humble). Tudo se perde na estrofe, uma vez que os versos "Vois le vases sont pleins d'humides fleurs morales" (literalmente, "vê os vasos estão repletos de úmidas flores morais") se transforma em "Vê os vasos estão plenos de flores morais / E humildes ".

    Em "Zona", muitas das rimas paralelas, que criam musicalidade singular de Apollinaire, não são recriadas em português.

    São numerosos os casos muito questionáveis de escolhas vocabulares, problema que os tradutores confrontam regularmente.

    Mas "Tu es debout devant le zinc d'un bar crapuleux" não poderia jamais ser traduzido por "Estás de pé diante do zinco de um bar mal cuidado".

    O tradutor omite a expressiva repetição da palavra "diante" e, pior ainda, traduz "zinc" por "zinco", quando o seu sentido no verso é de "balcão", justamente "o balcão de um bar acanalhado", e não "mal cuidado".

    FELIPE FORTUNA é poeta e ensaísta, autor de "A Mesma Coisa" (TopBooks).

    ÁLCOOIS
    AUTOR Guillaume Apollinaire
    EDITORA Hedra
    TRADUÇÃO Mário Laranjeira
    QUANTO R$ 47 (348 págs.)
    AVALIAÇÃO regular

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