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    Com silêncio, filme mostra repressão a homossexuais no Marrocos

    DIOGO BERCITO
    DE JERUSALÉM

    20/09/2013 03h26

    Ao decidir adaptar sua obra "Salvation Army" ao cinema, anos depois de escrevê-la, o autor marroquino Abdellah Taia, 40, preferiu não reler o livro. "Esqueci-me totalmente do texto", conta à Folha. O projeto do filme era produzir uma adaptação "infiel".

    Taia escreveu, assim, um roteiro a partir não dos episódios, mas da ideia da obra --incluir um jovem gay em uma família pobre marroquina e assistir à sua disfunção. Essa é a história de sua vida.

    O filme "Salvation Army" foi exibido em Veneza, neste mês, e viaja à Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro próximo.

    Divulgação
    O escritor marroquino Abdellah Taia, autor de 'Salvation Army'
    O escritor marroquino Abdellah Taia, autor de 'Salvation Army'

    A amnésia voluntária, afirma Taia, é um imperativo trazido pela convicção de que a linguagem do livro é distinta daquela do filme. "Na literatura, a história é construída a partir de uma voz que diz 'eu'. No cinema, são imagens, e você tem de ser preciso, enquanto no texto a inconsciência é dominante."

    A quase ausência de diálogos no filme é motivada pela percepção social de que, em sociedades como a marroquina, "tudo é feito, mas nada é falado".

    Assim como sua infância, em que --entre nove irmãos-- Taia teve de manter para si a descoberta de sua sexualidade. "Eu fui estuprado pelo silêncio imposto a mim", afirma o escritor. Assim como o protagonista, também chamado Abdellah.

    "Apesar de todos perceberem que ele é gay, não permitem que seja", afirma. "Como todos no Marrocos, ele tem de ser esperto para lidar com estratos sociais."

    A estratégia inclui todo o tipo de segredo e de mentira, em um exaustivo jogo social. "É uma maneira perversa de lidar com a realidade. Você rapidamente se cansa de gastar tanta energia escondendo as coisas. Você, no final, quer alguma coisa boa."

    ÍCONE

    Taia é considerado o primeiro escritor abertamente gay no Marrocos. Ele tornou-se, a partir de uma obra biográfica e sincera, um ícone entre os autores árabes.

    Quando questionado a respeito da reação de sua família ao ver-se retratada nas obras como elemento repressor, principalmente o irmão pelo qual nutria atração sexual e intelectual na infância, Taia desconsidera a possibilidade de censurar-se.

    "Não me importa. O que escrevo é sobre mim. Pertence a mim. Não é escandaloso, para mim", diz. "Eles não me ajudaram, e houve um tempo em que precisei de proteção. Agora, eles não podem me dizer o que fazer."

    A primeira hora do filme se passa no Marrocos. Os 23 minutos restantes, em Genebra, para onde Abdellah se muda. "É quando vemos as consequências do que ocorreu com ele", diz. "As pessoas o enxergam como imigrante, como objeto sexual. Ele tem de reinventar a sua liberdade."

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