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    Mick Rock, fotógrafo de ícones da música pop, ganha mostra em SP

    GAÍA PASSARELLI
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    24/02/2014 03h38

    "Nunca me considerei privilegiado", conta Mick Rock, que fotografou Lou Reed em seu primeiro show solo, Debbie Harry no auge da beleza, Iggy Pop torcendo a coluna para trás durante um show. "Era tudo muito orgânico. A fotografia apareceu na minha vida e tomou conta."

    Sua coleção de imagens pode ser famosa pelo que tem dos anos 1970, mas o londrino Mick Rock, 65, não vive do passado. Acabou de fazer a capa da banda americana de rock Black Lips e segue fotografando Lady Gaga, Karen O e Janelle Monáe.

    Parte do seu acervo, com foco nos anos 1970 e 80, será visto pela primeira vez no Brasil em março. A mostra será realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som).

    Rock virá para a abertura da exposição. Aproveitando a retrospectiva sobre David Bowie no MIS, irá falar com o público sobre os trabalhos que fizeram juntos. Rock dirigiu alguns de seus primeiros clipes, como "The Jean Genie" e "Life on Mars?".

    "Era algo totalmente intuitivo, feito de forma muito rápida. Na época, esses vídeos quase não foram vistos", conta. "David sempre foi muito aberto a possibilidades, encoraja as ideias dos outros. Ele provê a inspiração e daí em diante é com você."

    Rock considera Bowie a pessoa mais fotogênica que já fotografou (ao lado de Debbie Harry) e a parceria entre os dois nunca acabou. "Estamos trabalhando num livro sobre Bowie que a [editora] Taschen lançará como edição limitada em outubro."

    A carreira de Rock na fotografia começou por acaso. "Estava numa viagem de LSD, peguei a câmera de um amigo e comecei a clicar", conta. "Passei a fotografar amigos e um dia uma banda me ofereceu um troco. Achei incrível que pudesse ganhar enquanto me divertia."

    Nestes tempos em que todo mundo é fotógrafo, a única dica que tem a oferecer é: "Mergulhe em suas obsessões. É a melhor forma de atrair atenção. Não considere o retorno material, ele pode vir ou não". E sua obsessão atual, quem seria? "Gostaria muito de fotografar o Bruno Mars, adoro a persona glam dele."

    MOSTRA MICK ROCK
    QUANDO abre em 28/3; de ter. a sex., das 12h às 21h; sáb., das 11h às 21h; dom. e feriados, das 11h às 20h; até 20/4
    ONDE MIS, av. Europa, 158, tel. (11) 2117-4777
    QUANTO grátis

    *

    Confira abaixo a íntegra da entrevista com o fotógrafo Mick Rock.

    Folha - Você desfrutou de uma posição privilegiada no meio musical. Como isso aconteceu?
    Mick Rock - Nunca me vi como um privilegiado. Foi tudo muito orgânico. É como disse na introdução do meu livro "Exposed": a fotografia aconteceu na minha vida. Ela apareceu, conquistou um espaço, dominou o resto. Claro que as relações pessoais com muitos de meus primeiros fotografados ajudou. Syd Barrett, David Bowie, Lou Reed, Iggy Pop e Freddie Mercury, em especial.

    Existe algo como o segredo de uma foto icônica? O seu segredo seria a intimidade que reparte com o mundo dos artistas que fotografa?
    Só sei que gosto de algo quando vejo. É um processo intuitivo e apenas o tempo é capaz de decidir se uma imagem é ou não icônica. Eu sempre segui meus instintos e de alguma forma essas coisas me ajudaram. É totalmente não cerebral.

    Você pode ter ficado famoso por fotografias que fez no passado, mas tem uma carreira longa e muito produtiva. Qual é seu trabalho mais recente?
    Eu acabei de fotografar para uma campanha on-line na Europa, que será lançada em algumas semanas, usando uma câmera nova da Nikon. Eles queriam imagens minhas usando a câmera. Também fiz a capa de uma banda norte-americana que adoro, o Black Lips, que deve ser lançada em breve. Estou trabalhando junto com David Bowie em uma edição limitada de um livro sobre sua carreira, que será lançada em outubro pela [editora alemã] Taschen. Há um documentário sobre a minha vida em produção e uma série sobre mim sendo preparada para um canal de TV a cabo nos EUA. Tem mais, mas prefiro não me gabar.

    Algumas de suas fotografias podem ter parecido chocantes —Bowie como Ziggy Stardust, Iggy Pop retorcido no palco —, mas apenas porque seus objetos eram pessoas que estavam chocando o mundo na época. O que é necessário para chocar o público hoje?
    Eu circulei em torno de pessoas e assuntos que eram bastante chocantes na década de 1970 e não vejo nada que possa causar a mesma sensação no entretenimento atual. Tudo parece reciclado. Não acho que nada possa se equiparar à energia que vinha de Bowie, Iggy Pop e Lou Reed anos atrás. Muita gente se sentiu ameaçada por eles, o que eles fizeram foi adiantar muito do que os punks fariam anos depois. E por mais que ela se esforce, eu não acho que alguém possa se sentir honestamente ameaçado pela Miley Cyrus. Ela é só uma moça trabalhando alguns problemas pessoais em público.

    Você não trabalha apenas com músicos, mas com modelos e personalidades. Como escolhe quem fotografar? Quem gostaria de fotografar?
    Às vezes eu procuro alguém para fotografar, outras vezes é o fotografado que me escolhe. Sempre foi assim. Minha vida tem um ritmo próprio, apenas sigo em frente. E me divirto, claro! Eu gostaria muito de fotografar o Bruno Mars. Ele seria perfeito, é um talento soberbo. Ouvi dizer que ele foi o imitador mais jovem do Elvis no mundo. Dá pra notar.

    Eu li que você gosta de fotografar a Janelle Monáe. O que você admira nela? Como vocês se conheceram?
    Uma jovem brilhante. Inacreditavelmente talentosa. Eu a conheci em Los Angeles, na inauguração de um hotel, há uns três anos. Primeiro fizemos uma sessão de retratos. Depois a fotografei durante o show. A inteligência, a presença de espírito, o foco que ela mantém mesmo com a pressão da mídia... Ela demonstra um entendimento muito intuitivo, muito profundo, da energia que é capaz de gerar. É uma em um milhão.

    Você tem alguma imagem favorita entre as que vêm ao Brasil para a exposição?
    Essa é uma pergunta difícil. Claro que agora, quando estou respondendo a entrevista, não tenho certeza de quais imagens estarão no local, ainda que certamente várias das minhas fotografias clássicas estejam lá. De certa forma, eu amo todas. Depende do dia do mês! Mas há uma imagem em particular do Syd Barrett que não é muito conhecida e de que eu gosto muito. Eu chamo de 'Indecision' [indecisão]. Ela parece captar o dilema de Syd naquela época de sua vida. Era 1969 e ele estava gravando seu primeiro disco solo, "The Madcap Laughs", para o qual eu fotografei a imagem da capa. Seguir em frente ou parar! É claro que ele decidiu parar. Ele já tinha deixado a banda que tinha fundado e inspirado, o Pink Floyd. Syd foi um amigo e meu primeiro grande personagem. Não tenho certeza de que teria sido um fotógrafo de rock sem a inspiração que ele injetou naquelas primeiras sessões. Eu era um estudante em Cambridge, com apenas 20 anos de idade, e tinha feito apenas um punhado de fotografias. Syd era maravilhoso.

    Mick Rock/Divulgação
    Syd Barrett na foto intitulada "Indecision", do fotógrafo Mick Rock, em 1969
    Syd Barrett na foto intitulada "Indecision", do fotógrafo Mick Rock, em 1969

    Você lembra de onde veio a frase "the man who shot the seventies" [o homem que clicou os anos 70]?
    Eu lembro que foi um jornalista inglês, na época em que meu primeiro livro estava sendo publicado, em 1995. "A Photographic Record" [um registo fotográfico] tinha prefácio escrito pelo Lou Reed e saiu apenas no Reino Unido. O repórter estava resenhando o livro para um jornal grande, o "The Daily Telegraph", essa foi a chamada e pegou! Quando a fotografia clássica de rock começou a entrar no mercado editorial, nas galerias de arte, o interesse cresceu muito. No final dos anos 1990, os jornalistas começaram a bater na minha porta e a usar a frase, que se tornou um tipo de slogan meu. Mas é claro que a frase é um pouco enganosa. É verdade que eu trabalhei com mais bandas e artistas do que as pessoas sabem, mas passei muito longe de fotografar todo mundo. Não tenho fotos do Yes, Electric Light Orchestra, Allman Brothers, Carpenters, Cars, Fleetwood Mac etc. Minhas lentes estavam focadas no que era moderno nos anos 70: as cenas glam e punk.

    Você começou a fotografar bandas quando ainda estava na faculdade. Que tipo de conselho pode dar para quem está começando agora, estudantes de fotografia que queiram entrar no mundo da fotografia de bandas?
    Não posso oferecer nenhum tipo de conselho preciso. Não planejei me tornar fotógrafo, nunca tive essa ambição. Eu estava numa viagem de ácido enquanto estudava em Cambridge, peguei a câmera de um amigo e comecei a clicar. Isso me deixou excitado e comecei a fotografar amigos e namoradas. Até que um dia uma banda me ofereceu £5 (o que seria uns US$ 8 hoje, mas ainda assim era uma uma boa proposta na época) para fazer fotos deles. Pensei, "nossa, posso ganhar dinheiro e me divertir!". Tudo que posso dizer é: siga suas obsessões. Persiga-as sem descanso. Quanto mais você for atrás, mais atenção vai atrair. Você tem que estar na cena. Não pense em recompensa material, isso pode vir ou não. Apenas adapte-se e siga em frente.

    Sobre David Bowie, que atualmente é objeto de uma grande exposição do MIS: como vocês se conheceram? Qual for sua primeira impressão dele?
    No começo de 1972, um amigo, editor de uma revista underground londrina, me deu uma porção de discos promocionais que ganhava de gravadoras. Entre eles estava o "Hunky Dory". Eu não sabia quem Bowie era, mas fiquei de joelhos com o disco, especialmente com "Life on Mars?". Toquei e toquei até que o disco riscou e eu tive que comprar um novo. Na época, eu fazia entrevistas para algumas revistas musicais e tirava fotos para ilustrar. Eu gostava de fazer isso (tenho formação em línguas modernas pela Universidade de Cambridge, afinal de contas!) e ganhava algum dinheiro. Então fui até um show de Bowie para fazer umas fotos. Nos conhecemos no backstage antes do show, havia umas 400 pessoas na plateia e eu fiquei totalmente bestificado. Ele era puro magnetismo. Uns dias depois, apareci para fazer uma entrevista na sua casa, perto de Londres, e descobrimos que tínhamos muitos gostos em comum: Syd Barrett, Andy Warhol, o Velvet Underground. Nossa amizade começou ali. Durante dois anos eu fotografei Bowie como Ziggy Stardust em todo tipo de situação. Há 12 anos, nós assinamos juntos um belo livro em edição limitada para a Genesis Publications, chamado "Moonage Daydream", que esgotou rapidamente. Esse ano nós estamos fazendo outro, para a Taschen. Tenho mais de 6.000 fotos de Bowie como Ziggy Stardust.

    Como é fotografar Bowie? O quando de controle/liberdade ele impõe ou permite?
    É rápido. David é muito aberto a possibilidades. Ele nunca tenta impor ideias, sempre encoraja os outros. Ele provê a inspiração na forma de sua pessoa e daí em diante, é com você. Bowie ama o novo e não demora em absorver isso em seus gostos. Um artista espantoso, com uma carreira sem precedentes, não há ninguém parecido no mundo moderno. Um artista verdadeiramente abrangente.

    Quando foi a última sessão de fotos que fizeram juntos?
    Foi em 2002. Ele quase não fez fotos depois disso. Tenho imagens ótimas dessa sessão, algumas podem até estar na exposição em São Paulo, mas poucas foram publicadas.

    Mick Rock/Divulgação
    David Bowie em ensaio para o fotógrafo Mick Rock, em 2002
    David Bowie em ensaio para o fotógrafo Mick Rock, em 2002

    Você dirigiu vários videoclipes de Bowie, numa época em que ninguém estava explorando esse formato. Eles se tornaram clássicos. Que lembranças você tem dessas sessões? Que tipo de referências estava usando? Você continuou dirigindo clipes depois?
    Lembro que eles foram feitos de forma muito rápida e sem nenhuma verba. Tirando "Jean Genie", todos os vídeos foram feitos em menos de um dia. "John, I'm Only Dancing" e "Jean Genie" foram editados em um dia, mas para "Life on Mars?" e "Space Oddity" eu tive o luxo de contar com dois dias de edição! Foi realmente um caso de "necessidade é a mãe da invenção". Eu tinha imagens de Bowie feitas em nossas primeiras sessões juntos e de vez em quando ele me perguntava o que achava sobre fazer um vídeo para o lançamento de um single específico. Eu agarrava a oportunidade e bolava a logística o mais rápido possível, sempre em menos de 48 horas. Minha referência era sempre o próprio David, me aproveitava de sua personalidade, das circunstâncias e às vezes de alguma parte das letras. Não havia nenhum tipo de conceito, não havia tempo ou dinheiro para desenvolver algo assim. Era totalmente instintivo/intuitivo. Na época, esses vídeos quase não foram vistos, não havia onde ver. Nós fizemos porque queríamos fazer, para nos divertir, porque para nós era importante, mesmo que quase ninguém concordasse com isso. É claro que eu tinha uma das grandes personalidades de todos os tempos na frente da câmera e todo tempo do mundo para trabalhar com ele. Há cerca de 18 anos, quando o mundo começou a se interessar por esses vídeos antigos, David, em sua característica generosidade, me deu o controle de copyrights do aspecto visual desses vídeos. Deus o abençoe por isso! Através dos anos eu fiz outros vídeos esporadicamente, para Paul McCartney, Kinks e Ace Frehley, do Kiss. Mas eu sou um fotógrafo, eu gosto do clique. Não gosto muito do parar e começar que é o processo de fazer vídeos, ainda que às vezes acabe caindo nessa.

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