• Ilustrada

    Thursday, 27-Jan-2022 03:11:37 -03

    Crítica: Cotidiano banal e infeliz rege prosa pessimista de Tchékhov

    MARCIO AQUILES
    CRÍTICO DA FOLHA

    08/03/2014 03h22

    A novela "Três Anos", publicada originalmente em 1895, segue um modelo similar ao que Tchékhov (1860-1904) utiliza em seus contos.

    A prosa do autor russo costuma retratar cenas da vida cotidiana, em que não existem heróis ou acontecimentos grandiosos.

    Pelo contrário, tem-se personagens descontentes inseridos em uma realidade ordinária. Isso ocorre, em parte, pelo esgotamento das formas narrativas tradicionais na segunda metade do século 19.

    Claudia Kfouri

    Com têmpera investigativa, o narrador descreve o interior de seus personagens, sem estabelecer julgamentos sobre suas índoles.

    Como afirma o próprio escritor em uma carta enviada a um editor em 1890, um ano antes dos primeiros esboços da novela: "A minha função é apenas mostrar como eles [personagens] são".

    Em seu drama realista, a doença, a morte, o abandono e a indiferença dominam todas as conjunturas ficcionais.

    A morbidez do início já diz tudo. Nina, a irmã do protagonista Láptiev, está com câncer, perdera três filhos no parto e tem um marido que divide com outra mulher ao saber de todos.

    O prenúncio da infelicidade como regra geral também aparece nas primeiras páginas, quando os criados identificam na copa uma série de sinais desfavoráveis —um espelho quebrado, um rato saindo do sapato de Nina.

    Nesse contexto negativo, a novela tem como eixo a discussão sobre o significado do amor. Láptiev, apaixonado, pede Iúlia em casamento.

    Ela recusa por não compartilhar de seus sentimentos, mas depois aceita o pedido por motivos fúteis, como o medo de ficar sozinha.

    Nos três anos de união, ambos vivem existências medíocres, massacrados pelo peso de suas escolhas.

    Em certo ponto, em uma discussão sobre arte, Iúlia ridiculariza enredos passionais em um mundo onde pessoas "martirizadas por privações [...] têm nojo de ler tudo isso".

    Na narrativa cheia de referências autobiográficas, há vários trechos como esse, que ilustram um pouco a concepção estética do mestre russo.

    TRÊS ANOS
    AUTOR Anton Tchékhov
    TRADUÇÃO Denise Sales
    EDITORA 34
    QUANTO R$ 38 (160 págs.)
    AVALIAÇÃO ótimo

    Fale com a Redação - leitor@grupofolha.com.br

    Problemas no aplicativo? - novasplataformas@grupofolha.com.br

    Publicidade

    Folha de S.Paulo 2022