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    Crítica: Carlos Rennó mistura poesia e jornalismo ao falar de música

    THALES DE MENEZES
    EDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"

    28/06/2014 02h18

    Carlos Rennó está nas enciclopédias de música brasileira como letrista de primeiro time e um sucesso estrondoso: "Escrito nas Estrelas", parceria com Arnaldo Black que venceu o Festival do Festivais, na Globo, em 1985, na voz aguda de Tetê Espíndola.

    Sem parar de criar letras, Rennó se dedicou também à imprensa musical nas últimas três décadas, produzindo livros, textos de apresentação e de encartes de discos, e análises para jornais, entre eles a Folha.

    É muito difícil separar o letrista do jornalista na leitura de "O Voo das Palavras Cantadas", livro que reúne parte dessa grande produção analítica de Rennó.

    Antes de uma discussão sobre a relevância de cada texto, fica evidente em qualquer um deles a escrita fluida do autor, poética, que afasta a obra para bem longe dos comentários empolados dedicados à MPB.

    Gabo Morales - 11.dez.2012/Folhapress
    O letrista e jornalista Carlos Rennó em imagem feita em São Paulo, em 2012
    O letrista e jornalista Carlos Rennó em imagem feita em São Paulo, em 2012

    É uma leitura agradável, principalmente quando Rennó se põe a opinar sobre artistas que lhe são caros, como Gilberto Gil e Tom Zé -há vários capítulos para esses dois. Para eles, os textos são mais carinhosos e bonitos.

    No caso de Gil, no entanto, a evidente admiração do autor por ele às vezes chega a atrapalhar. Organizador do livro "Gilberto Gil - Todas as Letras", Rennó perde nos comentários sobre o cantor baiano muito do caráter didático de outros perfis.

    Livro
    O Voo das Palavras Cantadas
    Carlos Rennó
    O Voo das Palavras Cantadas
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    No balanço geral da leitura de "O Voo das Palavras Cantadas", as páginas que reproduzem releases de discos são as menos interessantes.

    Nesses textos destinados a apresentar artistas com necessária exaltação, em alguns deles Rennó ainda consegue driblar a simples bajulação e inserir informações e contextualização. O capítulo sobre o álbum "Samba Raro", de Max de Castro, é bom exemplo.

    Mas Rennó ganha o jogo de vez em capítulos mais "arqueológicos", quando apresenta nomes não tão conhecidos do grande público.

    Destaque para o texto sobre o canto de fossa de Nora Ney (1922-2003), intérprete excepcional jogada no limbo pelas novas gerações, e as páginas que apresentam o compositor Orestes Barbosa (1893-1966).

    Este é um grande autor da MPB do qual as pessoas nunca ouviram falar, mas se encantam aos primeiros acordes de músicas que ele escreveu.

    No caso de Barbosa, a obra-prima é "Chão de Estrelas", popularizada por Silvio Caldas (1908-1998) e reconhecida pelos versos: "Minha vida era um palco iluminado/ eu vivia vestido de dourado/ palhaço das perdidas ilusões...". Nas letras dele que Rennó relaciona, a genialidade de Barbosa arrebata o leitor.

    A relação de Rennó com a música passa pelo poeta, pelo jornalista e pelo historiador. Os três são interessantes.

    O VOO DAS PALAVRAS CANTADAS
    AUTOR Carlos Rennó
    EDITORA Dash
    QUANTO R$ 42 (320 págs.)
    AVALIAÇÃO bom

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