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    Análise: Richard Strauss foi mestre no poema sinfônico e na ópera

    SIDNEY MOLINA
    DE CRÍTICO DA FOLHA

    06/09/2014 02h30

    Dó, sol, dó, mi: as notas no trompete, sobre a sustentação grave de contrabaixos, contrafagote e órgão, imitam a série harmônica, a estrutura acústica presente em toda vibração sonora natural.

    Com essa ideia simples, Richard Strauss (1864-1949) –festejado pelos 150 anos de nascimento– evocou as primeiras páginas de "Assim Falou Zaratustra", de Nietzsche (1844-1900).

    Estreada em 1896, a obra foi logo incorporada ao repertório das principais orquestras e já era sucesso quando, em 1968, Stanley Kubrick (1928-99) a encaixou como tema do filme "2001: Uma Odisseia no Espaço".

    "Zaratustra" não integra "Salomé". Faz parte da série de poemas sinfônicos, forma que, ao lado de óperas como a que estreia agora no Municipal, celebrizaram Strauss como derradeiro compositor do romantismo alemão.

    Inspirados em programas explícitos ou tácitos, os poemas sinfônicos são sinfonias em que o músico comenta sonoramente uma história que serve de referência para a composição.

    O gênero remonta a Liszt (1811-86) e não teve continuadores à altura de Strauss. Destinadas a um público apaixonado por literatura, as "sinfonias programáticas" pareciam ser a continuação natural da fusão entre música, filosofia e poesia que Beethoven (1770-1827) propusera na "Nona Sinfonia".

    Marcados por virtuosísticos efeitos orquestrais, os poemas sinfônicos de Strauss foram seguidos por uma sequência de óperas que o tornaram rico e famoso. "Salomé" foi a primeira dessa fase.

    CELEBRIDADES

    O crítico Alex Ross abre o livro "O Resto É Ruído" com uma descrição da apresentação de "Salomé" regida pelo compositor na cidade austríaca de Graz em 1906. Na plateia estavam os principais músicos da época, incluindo Puccini (1858-1924), Mahler (1860-1911) e Schoenberg (1874-1951).

    E não é improvável que Adolf Hitler (1889-1945) —então com 17 anos— também estivesse ali. Anos depois, Strauss teria uma relação ambígua com o nazismo: não foi filiado ao partido, mas aceitou um cargo no regime e compôs e regeu o hino de abertura dos Jogos Olímpicos de 1936.

    Escritas após os 80 anos, "Metarmorphosen" (1945) e "As Quatro Últimas Canções" (1948) são os seus testamentos musicais.

    Strauss foi um regente cultuado. É possível vê-lo atuando em vídeos no YouTube: sério, econômico, preciso e quase sem expressividade corporal ou facial. Mas o som que sai é o oposto: quente, emotivo, cheio de humor.

    *

    OS DOIS STRAUSS
    Compositores não são parentes

    RICHARD STRAUSS (1864-1949)
    Nasceu em Munique, na Alemanha

    Reprodução

    Filho do primeiro trompista da orquestra da Ópera da Corte de Munique, tem entre os poemas sinfônicos suas obras mais famosas, como "Assim Falou Zaratustra" e "Don Juan". Também se destacam óperas como "Salomé" e "O Cavaleiro da Rosa".Ele é um dos elos entre o romantismo e o século 20

    JOHANN STRAUSS II (1825-1899)
    Nasceu em Viena, na Áustria

    Reprodução

    Pertence a família de músicos que popularizaram a valsa em seu país. É filho de Johann Strauss (1804-49) e irmão dos também músicos Josef (1827-70) e Eduard (1835-1916). Entre as obras mais famosas do compositor romântico estão "No Belo Danúbio Azul", "Valsa do Imperador" e a opereta "O Morcego"

    O QUE OS UNE?
    No filme "2001 - Uma Odisseia no Espaço", Stanley Kubrick usa "Assim Falou Zaratustra" no trecho em que primata destrói esqueleto; já "No Belo Danúbio Azul" embala cena das naves

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