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    Crítica: 'Winter Sleep' é mergulho na alma, mas peca por tom solene

    PEDRO BUTCHER
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    18/10/2014 02h12

    Os filmes de Nuri Bilge Ceylan costumam falar de relações de poder, quase sempre com uma abordagem que não prima pela sutileza. "Winter Sleep", que lhe rendeu a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, é seu projeto mais ambicioso nesse sentido.

    No longa, a questão do poder impregna a relação dos personagens nas mais diferentes esferas. E a forma com que Ceylan aprofunda essa questão, ora recorrendo ao mais sutil dos subtextos, ora a diálogos ou situações de teor bastante explícito e cruel, justifica as mais de três horas de projeção.

    Aydin (Haluk Bilginer) é um ator que desistiu da profissão e se recolheu no interior da Turquia, onde cuida de um hotel cravado nas cavernas da Capadócia. Mantém uma coluna no jornal local, enquanto planeja escrever a história do teatro turco, do qual é profundo conhecedor.

    Divulgação
    O ator Haluk Bilginer em cena do filme 'Winter Sleep
    O ator Haluk Bilginer em cena do filme 'Winter Sleep'

    Ele está em crise com sua mulher, Nihal (Melisa Sozën), bem mais jovem, e entra em conflito com a irmã, Necla (Demet Akbag), que mora no hotel. As duas estão em posições fragilizadas: Nihal depende financeiramente de Aydin, enquanto Necla acaba de passar por um divórcio traumático.

    Aydin é incapaz de lidar com as mulheres ao seu redor, mas é ainda mais inábil com o problema de Ismail (Nejat Isler), que mora de aluguel em uma casa que lhe pertence e está sendo ameaçado de despejo por inadimplência.

    Nesse âmbito surgem as situações mais tensas, em que o exercício do poder do protagonista alcança momentos perversos. Ele aceita com um sorriso no rosto, por exemplo, quando o irmão de Ismail obriga seu sobrinho a beijar a mão de Aydin, como forma de pedir perdão por ter atirado uma pedra em seu carro.

    "Winter Sleep" é o mais tchekoviano dos filmes de Ceylan. Apostando na densidade dos personagens e dos diálogos, propõe um mergulho fundo na alma de um ser humano frustrado, como um Tio Vânia da Capadócia, mas ainda mais abismal em sua capacidade de deixar suas frustrações contaminarem o ambiente ao seu redor.

    Ceylan consegue alguns grandes momentos, mas muitas vezes cai num tom excessivamente solene, muito apropriado aos filmes em busca de prêmios.

    "Winter Sleep" é um bom filme, que fique claro, e seu "peso" até justifica a Palma de Ouro —mas o longa-metragem anterior de Ceylan, "Era uma Vez na Anatólia", era mais interessante e surpreendente.

    WINTER SLEEP
    DIREÇÃO Nuri Bilge Ceylan
    PRODUÇÃO Turquia/Alemanha/França, 2014; 16 anos
    MOSTRA sáb. (18), às 15h30, no Cine Belas Artes, R$ 20; dom. (19), às 16h30, no Cinesesc, R$ 20; qua. (22), às 20h30, no Reserva Cultural, R$ 16; sex. (24), às 20h30, no Cine Sabesp, R$ 20
    AVALIAÇÃO bom

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