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    Evento de cultura pop, Comic Con Experience é sucesso de público em SP

    MARCELO SOARES
    DE SÃO PAULO

    08/12/2014 19h10

    A Comic Con Experience, primeiro megaevento profissional brasileiro reunindo todos os braços da indústria da cultura pop no Brasil, foi um sucesso de público. Ela reuniu todas as gerações de "nerds" e de profissionais do ramo, recebendo cerca de 100 mil pessoas e, para alguns expositores, gerando em quatro dias mais vendas do que novembro inteiro, Black Friday incluída.

    No sábado (6), havia engarrafamento para chegar, longas filas para entrar e preços absurdos para comer (R$ 18 por um cachorro quente?). Mas a organização dentro do SP Expo, a cargo do site Omelete e do estúdio Chiaroscuro, foi eficiente a ponto de ser comparada à das Comic Cons dos Estados Unidos por participantes e expositores.

    "Era um público apaixonado por cultura pop, que nunca teve acesso a um evento à altura de sua paixão", diz Érico Borgo, editor do Omelete. Ninguém sabia o tamanho que o evento poderia tomar —segundo Borgo, a lógica usada foi a do filme "Campo dos Sonhos" (1989), a do "construa e eles virão". E vieram.

    Estavam lá desde os fãs de quadrinhos que tomavam café vendo seus heróis na tampa de margarina, há 30 anos, até os pequenos fãs de desenhos animados que só agora descobriram que os personagens também podiam ser lidos. Estavam lá os cosplayers, fãs que preparam fantasias muito detalhadas de seus personagens favoritos, e os que têm calos nos dedos de tanto jogar videogame.

    Estavam lá artistas veteranos, como o modesto Jose Luis García-López, cujos desenhos tornaram-se versões tão definitivas dos heróis DC que estavam nas tampas de margarina em 1980 e estampam camisetas até hoje.

    Também estavam brasileiros, como o gaúcho Daniel HDR, que desenhava a turma inteira na escola Plácido de Castro em 1990 e hoje colabora com algumas séries da DC Comics. Estavam lá artistas independentes, como Flávio Soares, que acaba de publicar "A Vida com Logan" pela editora Marsupial, do Rio de Janeiro.

    Atores como Jason Momoa, de "Game of Thrones", faziam questão de cumprimentar o público pelos corredores, deixando os seguranças malucos.

    Max Prinz, 37, veio de Porto Alegre com a mulher, Rejane, e o enteado Gabriel, 12. Leitor de quadrinhos desde a infância, Prinz finalmente viu García-López de perto. Já Gabriel não continha o entusiasmo ao tirar fotos com os cosplayers fantasiados como seus personagens favoritos dos quadrinhos, dos games e da TV.

    Num evento desse porte, os nichos ganham status de cultura de massa graças à capilaridade da internet. Quem tem tempo para ouvir podcasts, programas semanais em áudio em que fãs de alguma coisa falam durante uma hora sobre a vida, o universo e tudo mais? Aparentemente, muita gente.

    Eduardo Sales Filho, do podcast "Papo de Gordo", não conseguia caminhar por mais de dois minutos sem que alguém pedisse para tirar uma foto. Mas os rockstars do podcast nerd são mesmo os de "O Jovem Nerd". Quando Azaghal e seus colegas sobem ao palco e gritam "lambda, lambda, lambda", a multidão ao redor responde a plenos pulmões.

    Para que o evento tivesse o tamanho que teve, mesmo num cenário econômico de aperto de cinto, várias estrelas entraram em conjunção.

    Primeiro, muitos fãs de quadrinhos e games que liam gibi escondido nos anos 1980 cresceram e tornaram-se profissionais dos mais variados ramos. Especialmente em mês de décimo-terceiro, não acham nada absurdo abrir a carteira para levar para casa um encadernado em capa dura das histórias que fizeram sua alegria na infância, um desenho feito a pedido por seus artistas favoritos ou uma estátua dos seus heróis.

    Os expositores precisaram repor os estoques por diversas vezes. Desenhistas que autografavam material ficaram sem originais para vender já na sexta-feira, porque a demanda foi muito maior do que a esperada. O cartunista João Montanaro, da Folha, levou de casa pôsteres seus de jazz para autografar.

    Segundo, "nerd" deixou de ser xingamento, pelo menos desde o sucesso do seriado "The Big Bang Theory". Até as mulheres dos que se escondiam há duas décadas vão junto, curtem, têm alguma curiosidade. Algumas podem até retomar depois a conversa séria sobre o espaço ocupado pelas tranqueiras do marido na estante, mas se divertem.

    "A mudança veio graças à internet, que mostrou às pessoas que nerd é legal, que não precisa se esconder", disse Borgo. "O cara que lia 'X-Men' escondido na escola hoje é o cara que sabe tudo o que os caras legais têm curiosidade de saber por causa dos filmes", afirma.

    Terceiro, anos de experiência na porta do metrô Liberdade aos domingos deram origem a uma leva de cosplayers extremamente caprichosos, cujas fantasias faziam parecer que muitas Arlequinas e Coringas haviam conseguido escapulir diretamente das páginas dos quadrinhos. Mesmo com o calor de sábado e domingo, Batmans e Darth Vaders ostentavam quentes roupas negras com capuz ou capacete, visando apenas o prazer de posar para os celulares dos curiosos ou, quem sabe, até um prêmio no concurso.

    "Os cosplayers são os grandes animadores do evento e o Brasil tem campeões mundiais de cosplay, que não tinham onde mostrar sua arte", disse Borgo. Levando em conta esse público especial, o evento ouviu os principais cosplayers do Brasil e criou espaços dedicados a eles, como um camarim.

    Sobretudo, a CCXP chegou num momento em que todas as manifestações da cultura pop derivam de certa maneira dos quadrinhos. Hoje, os populares gibis são o departamento de pesquisa e desenvolvimento de corporações como a Disney (dona da Marvel Comics) e a Warner (dona da DC Comics), gerando ideias para filmes, séries e games que movimentam centenas de milhões de dólares todo ano.

    Três anos depois de comprar a Marvel, a Disney anunciou o projeto de animação "Operação Big Hero", pela primeira vez produzido pelo estúdio do Mickey e baseado em quadrinhos da casa do Homem-Aranha. Do lado da DC Comics, séries de quadrinhos são lançadas com tentáculos nos games, e séries de TV são criadas com base em personagens de quadrinhos e acabam gerando gibis próprios.

    Ano que vem tem mais. E será maior. Segundo Borgo, vários artistas e agentes lhe disseram que não sabiam se viriam ao Brasil porque não conheciam o mercado, e sendo a primeira edição de uma convenção não sabiam se valeria a pena.

    Todos os que vieram —representando dos quadrinhos da Marvel aos seriados da BBC— disseram que buscarão trazer estrelas ainda mais chamativas.

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