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    Livros de José J. Veiga ganham reedição

    ALVARO COSTA E SILVA
    COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

    31/01/2015 02h25

    A certa altura de "A Hora dos Ruminantes", de José J. Veiga, o discreto narrador em terceira pessoa faz um comentário à maneira de ditado popular:

    "A fala de cada um devia ser dada em metros quando ele nasce. Assim quem falasse à toa ia desperdiçando metragem, um belo dia abria a boca e só saía vento".

    A obra de Veiga –que começa a ser relançada nesta segunda-feira (2/2), quando o escritor completaria 100 anos– tem a mesma preocupação: ser direta, simples, coloquial, não jogando fora o tempo do leitor ao contar uma história quase sempre lúdica.

    Eder Chiodetto/Folhapress
    O escritor José J. Veiga [J.Veiga] em seu escritório no bairro da Glória, Rio de Janeiro
    O escritor José J. Veiga [J.Veiga] em seu escritório no bairro da Glória, Rio de Janeiro

    O projeto da Companhia das Letras inicia com dois títulos. "Os Cavalinhos de Platiplanto" e "A Hora dos Ruminantes" reaparecem em edições caprichadas, com prefácios-ensaios de Silviano Santiago e Antonio Arnoni Prado, respectivamente.

    Editado em 1959 após uma mãozinha do amigo Guimarães Rosa –que também sugeriu o J (de Jacintho, nome materno) no meio da assinatura do autor– o conjunto de 12 contos de "Os Cavalinhos de Platiplanto" traz reminiscências ou sonhos, a maioria da infância, narrados sob a ótica particular de personagens do interior do Brasil.

    O livro apareceu quando Veiga já havia completado 44 anos. Formou-se em direito sem jamais ter exercido a profissão: era jornalista, tendo passado de 1945 a 1950 no serviço brasileiro da BBC de Londres como locutor e comentarista, e trabalhado por 20 anos como redator-tradutor nas "Seleções do Reader's Digest".

    Uma trajetória surpreendente para quem nascera na pequena fazenda Morro Grande, na divisa dos municípios de Pirenópolis e Corumbá, em Goiás, e aprendera a ler em casa, com a mãe.

    Seu pai era pedreiro. A infância, que retratou no primeiro livro, passou à beira de rios e brincando em quintais com bichos e árvores.

    SEGUNDO LIVRO

    Mais tarde, o escritor admitiu que a maior influência em sua maneira despojada de escrever veio de um professor de Goiás Velho, Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, autor do "Dicionário Analógico da Língua Portuguesa", que "ensinava gramática rindo dos gramáticos".

    Com o êxito de prêmio (o Fábio Prado) e crítica pela coletânea, Veiga enfrentou a síndrome do segundo livro. Levou oito anos para publicá-lo, e mais de dez versões para escrevê-lo. O resultado encantou leitores, que em 1966 esgotaram nove edições de "A Hora dos Ruminantes".

    Muitos enxergaram na novela de pouco mais de 100 páginas –na qual um lugarejo sofre com a chegada de homens misteriosos e depois com a ocupação dos espaços por cachorros e bois– uma alegoria política do país sob o regime militar recém-instaurado.

    Antonio Arnoni Prado propõe outra interpretação: "Nem alegoria nem fábula: manifestação pura e simples do estranho puro, com recorte original que se enriquece de uma vivência profunda com os temas do Brasil desconhecido e cheio de surpresas", diz o professor de literatura da Unicamp.

    Entre as décadas de 1970 a 1990, Veiga foi autor dos mais adotados nos ensinos fundamental e médio. Na época, Veiga era associado à moda do realismo mágico. Arnoni Prado discorda:

    "A estranheza do matuto não é realismo mágico. É antes uma afirmação espontânea de uma sociedade primitiva em que os limites são dados pela rotina de um mundo fechado, uma cultura tão perdida quanto os rincões em que está confinada", afirma ele.

    Parte de sua obra –composta por mais de 15 títulos– foi publicada nos Estados Unidos, México, Inglaterra, França, Espanha, Suécia, Dinamarca e Noruega.

    Em 1997, ganhou, pelo conjunto da obra, o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, mas, apesar dos convites, recusou sempre vestir o fardão: "Acho ridículo". Morreu em 1999.

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    A Hora dos Ruminantes
    José J. Veiga
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    PRÓXIMOS

    Para setembro, a editora Companhia das Letras promete a reedição de "Sombras de Reis Barbudos" (1972), que aprofunda mais o clima de opressão narrado na novela anterior. A apresentação será de Luiz Roncari.

    Em fevereiro do ano que vem deve chegar às livrarias, com prefácio de José Castello, "De Jogos e Festas" (1980), que reúne dois contos longos em que o autor experimenta novos caminhos: o primeiro é uma história policial e o segundo, sobre cangaceiros.

    Em "De Jogos e Festas" aparece outra frase a confirmar o estilo do escritor: "A suposta necessidade de falar quando não se tem o que dizer é a grande responsável pelas bobagens que se diz no mundo".

    A HORA DOS RUMINANTES
    AUTOR José J. Veiga
    EDITORA Companhia das Letras
    QUANTO R$ 34,90 (152 págs.)

    OS CAVALINHOS DE PLATIPLANTO
    QUANTO R$ 34,90 (160 págs.)

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