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    Análise: Leitura engajada de José J. Veiga restringiu impacto da obra

    SILVIANO SANTIAGO
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    31/01/2015 02h20

    Na recepção de livros de literatura pode ocorrer equívocos positivos. Elogia-se um romance por razão enganadora que só o tempo será capaz de desmentir. Só ele será capaz de mostrar a obra literária pelas suas reais qualidades. Durante a vigência da ditadura militar instalada em 1964, há dois contistas que foram lidos de maneira equivocada e positiva. Murilo Rubião e José J. Veiga.

    Por um lado, suas coleções de contos são elogiadas porque, apesar das diferenças, eram associadas ao romance jornalístico de José Louzeiro, ou à poesia panfletária de Thiago de Mello.

    Foram julgadas como exemplos de luta contra a opressão do regime militar. Por outro lado, não se percebeu que se distanciavam de Louzeiro e de Thiago (entre outros) pela alta voltagem da linguagem literária. Inscrevem-se em tradição artística de figuras como Carlos Drummond, Kafka e Jorge Luis Borges.

    Eder Chiodetto/Folhapress
    O escritor José J. Veiga em seu escritório no bairro da Glória, Rio de Janeiro
    O escritor José J. Veiga em seu escritório no bairro da Glória, Rio de Janeiro

    Trabalhada à exaustão nos contos de José J. Veiga, a questão da violência arbitrária e rancorosa se transformou em arma para a análise da tortura e da repressão imposta pelo regime. Ponto a favor de "A Usina Atrás do Morro", em particular junto aos que já se interessavam pelos movimentos libertários dos estudantes em Berkeley e Paris.

    A apreciação engajada de Rubião e de Veiga restringia a contribuição de ambos à arte literária e à discussão de questões mais finas que ultrapassam o calendário do combate à ditadura.

    No entanto, o equívoco se revelou positivo: o jovem brasileiro pôde ter acesso a escrita de qualidade excepcional. Por outro lado, a recepção canhestra dos contos restringiu o impacto da obra. Ambos os prosadores sumiram das livrarias no dobrar do século 20. Permaneceu o lugar-comum da leitura, sumiu o gênio do escritor.

    No século 21, Rubião e Veiga esperam recepção à altura de suas obras. No caso de Veiga, sua leitura poderá ser insinuada através das discussões de Michel Foucault e de Gilles Deleuze sobre os descaminhos tortuosos do poder. Algum aprendizado em Nietzsche e em pensadores pós-modernos poderá ser útil.

    Outra vertente de leitura falaria sobre a forma como ele dramatizou a questão da utopia. Seus contos carecem de uma leitura com informação psicanalítica que mostraria como a realização do desejo está amarrada por uma narrativa que não distingue a notação naturalista da notação onírica. Só o sonho equilibra a realidade da dor.

    SILVIANO SANTIAGO é escritor e crítico literário, autor de "Mil Rosas Roubadas" (Cia. das Letras). Esse texto foi composto a partir de uma entrevista à reportagem.

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