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    Crítica: 'Matusalém de Flores' é livro original que deixa leitor sem fôlego

    OSCAR GAMA FILHO
    ESPECIAL PARA A FOLHA

    07/02/2015 02h23

    Ignorando que está no presente, Carlos Nejar escreveu "Matusalém de Flores" como uma máquina do tempo total –capaz de inventar uma época inexistente– que o levou diretamente às origens do romance. Pelo dom da ubiquidade, a obra data simultaneamente da novela cavaleiresca "Dom Quixote", da Bíblia, do romanceiro medieval e do amanhã. Do hoje, não.

    O leitor fica sem fôlego, como se estivesse diante de um filme em clipes rápidos.

    Qualquer cena é completa e se constitui em uma surpresa sensorial, tal como cada frase sua, pois carrega em si imagens –no sentido literocinematográfico– eletrizantes, surpreendentes, que prendem a leitura à maneira de um filme-romance e que explodem na cara do leitor.

    Ajudou-o nessa tarefa seu personagem Noe Matusalém, que sobrevive desde sempre, ao contrário do Matusalém bíblico, falecido aos 969 anos. Por encanto, talvez por licença poética, prendeu o tempo em uma garrafa de símbolos sem espaço, pois, diz ele, não há tempo sem espaço.

    Paula Giolito/Folhapress
    O escritor Carlos Nejar
    O escritor Carlos Nejar

    Assim, conseguiu não envelhecer e pôde dar sequência às suas façanhas na cidade de Pedra das Flores, juntamente com sua amada Lídia –leia-se Dulcineia– e na companhia de seu fiel cão Crisóstomo –leia-se Sancho Pança.

    O corpo de Noe Matusalém parece ser apenas o cavalo em que o personagem se incorporou, não lhe permitindo tomar cuidado algum com sua saúde ou com seu aspecto físico, nem ao menos envelhecer.

    A monástica ascese de sua triste figura serve somente para cumprir o destino literário. Vivendo em um jogo de palavras, enquanto elas existirem ele estará vivo, pois elas o sustentam. Noe Matusalém é tão ocupado que não tem tempo para envelhecer.

    Dos que foram aprisionados em sua garrafa, o principal símbolo é a palavra. Se Matusalém não morre é porque tem a palavra. Sobreviverá enquanto existirem as palavras.

    Matusalém de Flores
    Carlos Nejar
    livro
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    Qualquer homem vive pelo tempo de suas palavras. As palavras o sustentam mais do que suas carnes. Matusalém não encanece porque virou literatura. Que é a missão de todos nós. Fazer-se literatura, tornar-se literatura.

    Ficou encantado, e o seu encanto subsistirá enquanto houver humanidade. Seu espírito subsistirá porque foi protagonista de um romance completamente original, e suas aventuras heroicas lhe concedem graça e humanidade.

    E viverá sempre enquanto houver lembrança, tal qual o Dom Quixote ou, melhor dizendo, Matusalém de Flores.

    MATUSALÉM DE FLORES
    AUTOR Carlos Nejar
    EDITORA Boitempo
    QUANTO R$ 43 (216 págs.)
    AVALIAÇÃO ótimo

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