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    Crítica: Longa sobre o sertão é pacote de efeitos para impressionar

    CÁSSIO STARLING CARLOS
    CRÍTICO DA FOLHA

    27/02/2015 02h43

    O título "A História da Eternidade", primeiro longa do pernambucano Camilo Cavalcante, anuncia uma ambição sem limites. A conquista de cinco prêmios (filme, direção, ator, atrizes e crítica) no Festival de Paulínia e a escolha como melhor filme pelo público na Mostra Internacional de SP aumentaram a expectativa de algo fora do comum num cinema brasileiro tão satisfeito com o cômico de feira.

    À primeira vista, o filme é mais um retorno ao sertão, símbolo de nossa eterna miséria. Seca, fome e morte atravessam esse cenário como uma danação aos que vivem naquela aridez sem fim.

    Apesar de não afastar tanta secura dos nossos olhos, o filme não se resume a retomar a crônica da pobreza que tanto incomoda o público que vai ao cinema, mas foge dos riscos de engasgar com a pipoca. A "eternidade" expressa no título se refere mais a uma vida sem variações, a uma temporalidade que não evolui, condenada à repetição cíclica, mítica e trágica.

    Divulgação
    Cena do filme 'A Historia da Eternidade', de Camilo Cavalcante
    Cena do filme 'A Historia da Eternidade', de Camilo Cavalcante

    TRÊS CAPÍTULOS

    Para alcançar essa dimensão, Cavalcante elege personagens reféns de uma realidade desesperançada, moradores de um vilarejo despovoado e cercado por pedras, vento e poeira.

    Ali se aproximam um cego e uma mulher deprimida, uma adolescente que sonha em ver o mar e um artista tratado como louco, um jovem em fuga e uma senhora tomada por desejos e remorsos.

    A distribuição em três pares por sua vez reverbera e reafirma a apresentação da história em três capítulos. No lugar da tradicional narrativa em três atos, a progressão dramática sugere que não se avança em direção a um futuro, mas rumo ao passado e ao nada.

    Para evitar uma narrativa retilínea e evolutiva em contradição com seu tema, o filme adota a ordem circular, movendo-se de um par a outro.

    Por trás dessas opções temáticas e estilísticas se manifesta a consciência clara, talvez excessiva, de um cineasta que quer se impor, impressionar de cara, e usa a coesão conceitual para provocar deleite na parcela intelectualizada do público.

    Para os mais sensoriais, Cavalcante investe em imagens de beleza criada para extasiar, como pôr do sol incandescente, silhuetas de árvores sobre azul profundo e o mar de águas verdes e cristalinas.

    EPIFANIA

    Para os mais sensíveis, o filme insere instantes de epifania poética, nos gestos desesperados da performance do artista, nos sons apaixonados da sanfona do cego e nas canções antigas postas na trilha para intensificar sentimentos.

    Os que preferem ousadia têm nas situações que abordam o incesto um motivo para gozar.

    Apesar das satisfações que acompanham esses múltiplos estímulos, "A História da Eternidade" progride como uma sucessão de efeitos, uma ideia forte que se materializa por meio de instantes que no momento impressionam, mas logo tendem a se apagar.

    Ao final, torcemos para que os evidentes talentos de Cavalcante amadureçam em próximos trabalhos.

    A HISTÓRIA DA ETERNIDADE
    DIREÇÃO Camilo Cavalcante
    ELENCO Marcélia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid
    PRODUÇÃO Brasil, 2014, 14 anos
    QUANDO em cartaz
    AVALIAÇÃO regular

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